Mundo ficciónIniciar sesiónHenrique Alcântara construiu um império aos trinta e seis anos. Frio nos negócios, implacável nas decisões e conhecido por nunca misturar emoção com negócios, ele sempre soube exatamente onde estava pisando. Até que o nome de Isadora apareceu numa ameaça que poderia destruir tudo. Filha do seu melhor amigo. Recém completados dezoito anos. Intocável. Para mantê-la segura — e manter um escândalo longe da mídia — Henrique toma a única decisão que considera lógica: um casamento por contrato. É temporário. É estratégico. É necessário. O que não estava nos termos do acordo era a maneira como ela o olha agora. Nem o jeito doce e firme com que o enfrenta. Muito menos a forma como, mesmo sabendo que ele tenta manter distância, se recusa a abaixar a cabeça. Isadora nunca o viu como um segundo pai. Sempre o viu como o homem mais perigoso da sala. O homem que ela queria. E quando a convivência se torna inevitável, o limite entre proteção e desejo começa a desaparecer. Se Augusto descobrir, a amizade de uma vida inteira pode acabar. Se a imprensa descobrir, o império pode ruir. Se Henrique perder o controle… Talvez seja o coração de ambos que não sobreviva.
Leer másPOV Henrique
Eu prometi ao meu melhor amigo que cuidaria da filha dele.
Lembro exatamente do dia.
Augusto estava sentado na varanda da antiga casa, segurando um copo de uísque há mais de dez minutos. O céu estava pesado, carregado de chuva, e ele falava sobre negócios como se estivesse falando sobre uma guerra. No meio da conversa, ele apontou para dentro da sala, onde Isadora corria atrás do cachorro, tropeçando nas próprias pernas, os tênis sujos de terra deixando marcas no chão recém-limpo.
— Se algum dia eu não estiver aqui — ele disse, com uma seriedade que eu nunca tinha visto — você cuida dela.
Eu ri naquela época.
Era fácil prometer.
Ela tinha oito anos.
Cabelos presos em dois rabos de cavalo tortos. Chocolate no canto da boca. E uma mania irritante de me chamar de “Tio Henrique” sempre que queria alguma coisa.Eu concordei sem pensar.
Porque, para mim, proteger Isadora significava afastar meninos inconvenientes, pagar boas escolas, garantir que nada faltasse.
Eu não fazia ideia do que aquela promessa realmente significaria.
Os anos passaram rápido demais.
Aniversários, formaturas, jantares de sexta-feira. Reuniões que terminavam tarde demais e sempre acabavam com ela aparecendo na cozinha, roubando a sobremesa como se ninguém estivesse vendo.
Eu nunca parei para pensar quando ela deixou de ser aquela criança.
Na verdade, não houve um dia exato.
Foi um acúmulo.
Primeiro, o silêncio dela ficou diferente. Depois, os olhares demoraram segundos a mais do que deveriam.
Depois, as perguntas que ela fazia deixaram de ser curiosidade adolescente e passaram a ser um desafio.Eu devia ter percebido antes. Devia ter criado distância. Devia ter deixado de frequentar a sua casa com tanta frequência.
Mas a verdade é que eu gostava da presença dela.
Gostava da forma como ela entrava numa sala e mudava o ar. Gostava da maneira como me enfrentava sem elevar a voz.O problema é que gostar virou outra coisa.
Eu me lembro com precisão do momento em que isso aconteceu.
Ela tinha dezessete anos.
Estava descendo a escada durante um jantar qualquer, usando um vestido simples demais para causar qualquer impacto… e ainda assim causou.
Eu levantei os olhos por reflexo e não consegui desviar imediatamente.
Não foi somente o vestido. Foi a forma como ela sustentou o meu olhar.
Sem timidez.
Sem distração. Sem ingenuidade.Ali, eu entendi.
E naquele mesmo segundo, eu soube que aquilo era perigoso demais.
Eu passei a controlar cada movimento.
Cada palavra. Cada segundo que ficávamos sozinhos.Eu nunca a toquei além do necessário.
Nunca ultrapassei a linha. Nunca permiti que o desejo que crescia silencioso atravessasse o limite da promessa que fiz ao pai dela.Porque ela era intocável.
Sempre foi.
Até que deixou de ser apenas promessa.
Quando a primeira mensagem anônima chegou, eu ainda pensei que fosse blefe corporativo. Tentativa barata de desestabilização.
Até que o nome dela apareceu.
Até que a foto dela apareceu.
Até que alguém ousou se aproximar.
E, naquele instante, a promessa antiga ganhou outro peso.
Não era mais sobre afastar garotos inconvenientes. Era sobre guerra.
Eu já enfrentei investidores agressivos. Já destruí concorrentes maiores do que eu. Já fui chamado de frio, calculista, implacável.
Nada disso me abalou.
Mas a ideia de alguém usar Isadora para me atingir fez algo em mim vibrar, algo que eu não reconheci de imediato.
Mas agora eu sei.
Raiva.
Um tipo de raiva primitiva.
Eu faria qualquer coisa para protegê-la.
Qualquer coisa. Inclusive assumir o que passei anos fingindo não existir.
O contrato foi a solução mais racional que encontrei.
Um ano.
Casamento formal. Proteção integral. Blindagem jurídica. Sem envolvimento emocional.Frio no papel.
Controlado. Seguro.Pelo menos era o que eu dizia para mim mesmo.
Augusto confiou em mim a vida inteira. Confiou a empresa, as decisões, os segredos e, sem saber, confiou o que tinha de mais precioso.
Ele acredita que eu posso proteger a filha dele do mundo inteiro.
E ele está certo.
Eu posso.
O único problema…
É que eu não sei se consigo protegê-la de mim.
E, talvez, só talvez, o verdadeiro perigo nunca tenha sido o homem que envia as mensagens anônimas.
Talvez o verdadeiro perigo seja o que eu sinto quando ela me olha como se soubesse exatamente o efeito que causa.
E, desta vez, eu não tenho certeza se quero continuar fingindo que eu não sei também.
POV HenriqueEu não diminuí quando entrei no hospital.A porta automática se abriu e eu já estava falando antes mesmo de alguém perguntar qualquer coisa, carregando Isadora nos braços, sentindo o corpo dela leve demais contra o meu, o casaco ainda mal cobrindo o que tinha sido feito com ela.— Ela foi sequestrada — falei, sem parar, sem organizar — está desidratada, machucada… preciso de alguém agora.Vieram rápido depois disso.Mãos que não eram as minhas tentando tirá-la de mim, vozes ao redor, perguntas que eu não respondi completamente porque não fazia sentido responder naquele momento. Eu não queria explicar nada, não queria repetir nada, eu só precisava que alguém resolvesse.— Senhor, precisamos levá-la — uma mulher disse, firme, mas tentando manter algum tipo de controle sobre a situação.Eu demorei um segundo a mais do que deveria para soltar.Quando finalmente cedi, acompanhei até onde deixaram.A porta fechou.E eu fiquei do lado de fora.Augusto chegou pouco tempo depois.
POV Isadora — Olá, princesinha. Sentiu saudade?Aquela voz... Meu corpo reagiu antes que eu conseguisse pensar, tentando se afastar instintivamente, mesmo sabendo que não havia para onde ir. Minhas pernas não respondiam como deveriam, meus braços tremiam ao tentar me apoiar no chão, e tudo dentro de mim parecia atrasado, lento, como se eu estivesse sempre meio segundo atrás de qualquer reação.A voz veio carregada de algo que fez meu estômago revirar imediatamente.Eu tentei recuar mais, arrastando o corpo pelo chão, ignorando a dor que puxava do abdômen até as costas, ignorando o fato de que aquilo não me levaria a lugar nenhum. A parede me encontrou rápido demais, fria contra minhas costas, e eu soube, naquele instante, que não tinha espaço, não tinha força, não tinha escolha.— Calma… — ele continuou, se aproximando devagar, como se estivesse se divertindo com aquilo — eu só vim ver como você tá.Eu balancei a cabeça, sentindo a respiração falhar.— Não… não chega perto…Minha pr
POV DuarteEu ainda conseguia me lembrar da voz dela.Às vezes vinha sem aviso, no meio de qualquer pensamento, atravessando tudo com uma clareza que não fazia sentido depois de tanto tempo. O jeito como ela falava rápido quando estava animada, como misturava assuntos, como esperava que eu acompanhasse tudo no mesmo ritmo, mesmo sabendo que eu nunca conseguia. E depois vinha o riso, fácil, solto, ocupando espaço demais para alguém tão pequena. A casa inteira parecia responder à presença dela, como se tudo ali tivesse sido feito para funcionar melhor quando ela estava por perto.Ela tinha dezessete anos.Ainda existia leveza nas escolhas, nas dúvidas, nos planos que podiam mudar de uma semana para outra sem que isso tivesse qualquer consequência real. Eu via aquilo todos os dias, mesmo quando não estava prestando atenção de verdade. Via quando ela saía pela manhã reclamando do horário, quando deixava coisas espalhadas pela casa, quando voltava contando histórias que, na maioria das veze
POV HenriqueAugusto ainda me observava, esperando uma resposta que eu não pretendia dar.A pergunta dele ficou no ar por alguns segundos, carregada de expectativa, mas eu não desviei o olhar da rua nem reduzi a velocidade. Já tinha organizado o próximo movimento antes mesmo de ele terminar de falar, e qualquer explicação naquele momento seria perda de tempo.— Desce — falei, seco, apontando com o queixo para a rua lateral que levava ao segundo ponto.Ele franziu a testa, sem entender de imediato.— O quê?— Você vai para o outro galpão — continuei, agora olhando rapidamente para ele. — Verifica tudo. Entrada, saída, estrutura interna. Qualquer sinal de permanência recente. Caio vai estar te esperando.Ele ainda hesitou por um segundo.— E você?Voltei o olhar para frente.— Eu sigo para o primeiro.O silêncio entre nós durou pouco, mas foi suficiente.Augusto abriu a porta, já mudando a postura, entrando no modo que eu esperava dele.— Se encontrar qualquer coisa—— Você me liga — in





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