Capítulo 7

POV Henrique

O dia de hoje não foi fácil. Já eram dez e quarenta e três da noite, eu ainda estava no escritório, encarando a cidade como se ela pudesse me oferecer uma resposta que eu já sabia qual era.

Casamento.

A palavra não soava absurda.

Soava inevitável.

Não porque eu tivesse planejado isso algum dia, mas porque alguém estava tentando transformar o que existia entre nós em sujeira. E eu nunca permito que transformem algo meu em arma.

Meu.

A palavra voltou.

Eu passei a mão pelo rosto, incomodado com a facilidade com que ela surgia.

Eu me sentei na cadeira e abri um documento novo. Não era necessário um advogado no momento. Eu sabia exatamente como estruturar.

Um ano.

Tempo suficiente para esfriar a narrativa.

Tempo suficiente para neutralizar a especulação.

Tempo suficiente para eu confirmar quem estava por trás disso e desmontar o ataque.

Sem envolvimento íntimo. Mesmo que eu quisesse o contrário.

Sem obrigação conjugal.

Sem exposição desnecessária.

Sem interferência na vida acadêmica dela.

Proteção integral.

Segurança reforçada.

Blindagem patrimonial.

Blindagem jurídica.

Divisão clara.

Saída limpa.

Simples. Racional. Seguro.

Eu parei de digitar.

Seguro para quem?

Um ano ao lado dela, morando sob o mesmo teto, compartilhando o mesmo espaço... Isso seria demais para mim. Eu preciso me controlar e não deixar que esses sentimentos me dominem. Isadora merece alguém muito melhor do que eu, mas quem disse que meu coração entende isso?

Eu soltei uma respiração baixa.

Isso era a parte mais arrogante do plano.

Acreditar que eu conseguiria manter distância.

Eu consigo controlar negociações bilionárias, consigo prever movimentos de mercado, consigo desmontar os concorrentes, mas não consegui controlar o impulso de atravessar a cidade quando um desconhecido se aproximou dela.

E eu estou me convencendo de que consigo passar um ano inteiro fingindo indiferença?

Mentira confortável.

Eu me levantei da cadeira e caminhei até o vidro.

A cidade estava iluminada, indiferente aos meus dilemas.

Se eu não fizer nada, eles criam a história.

Se eu assumir, eu encerro a narrativa. Mas assumir não é só blindar imagem. É admitir para o mundo que eu escolhi.

E escolher significa ultrapassar a única linha que mantive por anos: a do respeito ao Augusto.

Eu fechei os olhos por um momento.

Augusto sempre confiou em mim. Sempre.

Ele confiou a empresa.

Confiou as decisões.

Confiou as crises.

E agora eu estava considerando pedir a filha dele em casamento.

A filha que eu vi crescer e que hoje, me olha como mulher.

Eu apertei o maxilar.

Não havia nada ilegal.

Nada imoral.

Ela é maior de idade.

Consciente.

Decidida.

O problema nunca foi ela. O problema sempre fui eu.

Eu sempre fui o freio.

Eu voltei para a mesa.

Um ano.

Pequena cerimônia, nada extravagante, sem espetáculo e sem imprensa excessiva. Apenas o suficiente para formalizar.

Contrato claro.

Sem envolvimento.

Eu quase ri.

Sem envolvimento.

Como se o envolvimento já não estivesse instalado muito antes desse ataque começar.

Meu telefone vibrou novamente.

Mensagem desconhecida.

“Ela confia em você.”

Eu congelei por um segundo.

Ele está observando.

Ou está blefando.

Não importa.

Ele acredita que pode me pressionar usando o que eu sinto.

O erro dele é achar que eu ajo por medo.

Eu fechei o documento. A próxima etapa não seria estratégica.

Seria pessoal.

Eu teria que olhar nos olhos dela e depois nos olhos do pai dela. E propor algo que começa como um contrato…

Mas pode terminar como algo que eu não tenho mais controle para limitar.

Um ano. O tempo ia e vinha a todo momento na minha mente.

Eu peguei o telefone e enviei uma única mensagem para Caio:

“Prepare uma reunião amanhã cedo. E reforcem a segurança na casa do Augusto.”

Depois abri outra conversa.

Isadora.

Parei alguns segundos antes de digitar.

Não mandei nada. Algumas decisões não se comunicam por mensagem.

Eu iria falar pessoalmente e, quando eu falo, não deixo margem para dúvida.

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