Casada com o Melhor Amigo do Meu Pai
Casada com o Melhor Amigo do Meu Pai
Por: Vick Henriques
Prólogo

POV Henrique

Eu prometi ao meu melhor amigo que cuidaria da filha dele.

Lembro exatamente do dia.

Augusto estava sentado na varanda da antiga casa, segurando um copo de uísque há mais de dez minutos. O céu estava pesado, carregado de chuva, e ele falava sobre negócios como se estivesse falando sobre uma guerra. No meio da conversa, ele apontou para dentro da sala, onde Isadora corria atrás do cachorro, tropeçando nas próprias pernas, os tênis sujos de terra deixando marcas no chão recém-limpo.

— Se algum dia eu não estiver aqui — ele disse, com uma seriedade que eu nunca tinha visto — você cuida dela.

Eu ri naquela época.

Era fácil prometer.

Ela tinha oito anos.

Cabelos presos em dois rabos de cavalo tortos.

Chocolate no canto da boca.

E uma mania irritante de me chamar de “Tio Henrique” sempre que queria alguma coisa.

Eu concordei sem pensar.

Porque, para mim, proteger Isadora significava afastar meninos inconvenientes, pagar boas escolas, garantir que nada faltasse.

Eu não fazia ideia do que aquela promessa realmente significaria.

Os anos passaram rápido demais.

Aniversários, formaturas, jantares de sexta-feira. Reuniões que terminavam tarde demais e sempre acabavam com ela aparecendo na cozinha, roubando a sobremesa como se ninguém estivesse vendo.

Eu nunca parei para pensar quando ela deixou de ser aquela criança.

Na verdade, não houve um dia exato.

Foi um acúmulo.

Primeiro, o silêncio dela ficou diferente. Depois, os olhares demoraram segundos a mais do que deveriam.

Depois, as perguntas que ela fazia deixaram de ser curiosidade adolescente e passaram a ser um desafio.

Eu devia ter percebido antes. Devia ter criado distância. Devia ter deixado de frequentar a sua casa com tanta frequência.

Mas a verdade é que eu gostava da presença dela.

Gostava da forma como ela entrava numa sala e mudava o ar.

Gostava da maneira como me enfrentava sem elevar a voz.

O problema é que gostar virou outra coisa.

Eu me lembro com precisão do momento em que isso aconteceu.

Ela tinha dezessete anos.

Estava descendo a escada durante um jantar qualquer, usando um vestido simples demais para causar qualquer impacto… e ainda assim causou.

Eu levantei os olhos por reflexo e não consegui desviar imediatamente.

Não foi somente o vestido. Foi a forma como ela sustentou o meu olhar.

Sem timidez.

Sem distração.

Sem ingenuidade.

Ali, eu entendi.

E naquele mesmo segundo, eu soube que aquilo era perigoso demais.

Eu passei a controlar cada movimento.

Cada palavra.

Cada segundo que ficávamos sozinhos.

Eu nunca a toquei além do necessário.

Nunca ultrapassei a linha.

Nunca permiti que o desejo que crescia silencioso atravessasse o limite da promessa que fiz ao pai dela.

Porque ela era intocável.

Sempre foi.

Até que deixou de ser apenas promessa.

Quando a primeira mensagem anônima chegou, eu ainda pensei que fosse blefe corporativo. Tentativa barata de desestabilização.

Até que o nome dela apareceu.

Até que a foto dela apareceu.

Até que alguém ousou se aproximar.

E, naquele instante, a promessa antiga ganhou outro peso.

Não era mais sobre afastar garotos inconvenientes. Era sobre guerra.

Eu já enfrentei investidores agressivos. Já destruí concorrentes maiores do que eu. Já fui chamado de frio, calculista, implacável.

Nada disso me abalou.

Mas a ideia de alguém usar Isadora para me atingir fez algo em mim vibrar, algo que eu não reconheci de imediato.

Mas agora eu sei.

Raiva.

Um tipo de raiva primitiva.

Eu faria qualquer coisa para protegê-la.

Qualquer coisa. Inclusive assumir o que passei anos fingindo não existir.

O contrato foi a solução mais racional que encontrei.

Um ano.

Casamento formal.

Proteção integral.

Blindagem jurídica.

Sem envolvimento emocional.

Frio no papel.

Controlado.

Seguro.

Pelo menos era o que eu dizia para mim mesmo.

Augusto confiou em mim a vida inteira. Confiou a empresa, as decisões, os segredos e, sem saber, confiou o que tinha de mais precioso.

Ele acredita que eu posso proteger a filha dele do mundo inteiro.

E ele está certo.

Eu posso.

O único problema…

É que eu não sei se consigo protegê-la de mim.

E, talvez, só talvez, o verdadeiro perigo nunca tenha sido o homem que envia as mensagens anônimas.

Talvez o verdadeiro perigo seja o que eu sinto quando ela me olha como se soubesse exatamente o efeito que causa.

E, desta vez, eu não tenho certeza se quero continuar fingindo que eu não sei também.

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