Capítulo 4

POV Isadora

Eu conheço Henrique Alcântara desde sempre. Não existe uma lembrança do passado que ele não esteja presente. Aniversario, formatura, jantares.

Dentre todas as lembranças que tenho dele, a mais forte é de quando eu tinha apenas cinco anos.

Ele usava terno.

Lembro disso porque, na minha cabeça de criança, homens de terno eram como personagens de um desenho, como um príncipe encantado.

Ele entrou na sala da minha casa com passos firmes e voz calma, falando sobre números que eu não entendia. Meu pai o escutava como se cada palavra tivesse peso. Minha mãe ofereceu café. Eu estava sentada no chão, montando um quebra-cabeça.

Ele parou.

Abaixou o olhar e sorriu para mim.

Não foi um sorriso grande. Foi pequeno. Discreto. Mas direto.

— Como vai, pequena Isadora?

Eu lembro de ter sentido algo estranho. Não medo. Não vergonha.

Curiosidade.

Durante anos, Henrique foi isso: o homem que sabia das coisas. O homem que resolvia as coisas. O homem que meu pai respeitava.

Quando eu tinha oito, ouvi uma discussão na cozinha. Meu pai estava desesperado. Falava sobre dívidas, investidores, risco.

Henrique não levantou a voz. Ele nunca levantava.

Ele apenas dizia: “Confia em mim.”

E meu pai confiava.

Alguns meses depois, nos mudamos para a casa onde cresci. Maior. Mais bonita. Mais segura.

Eu não entendia de negócios.

Mas entendia que, sempre que algo dava errado, Henrique aparecia e as coisas se organizavam.

Na minha cabeça infantil, isso tinha um nome simples:

Príncipe.

Aquele tipo de príncipe que chega quando o castelo está pegando fogo.

Quando fiz onze anos, comecei a perceber outras coisas.

Percebi que ele era alto e forte demais para qualquer ambiente. Que a presença dele mudava o ar da sala. Que as pessoas ajustavam postura quando ele entrava.

Percebi também que ele quase nunca sorria.

E, quando sorria, era sempre de lado.

Eu comecei a esperar os jantares de sexta-feira.

Escolhia roupa com mais cuidado. Não porque quisesse ser notada — pelo menos era o que eu dizia para mim mesma — mas porque queria que ele olhasse.

Ele olhava.

Mas como se estivesse sempre medindo distância.

Aos treze, eu tive minha primeira paixão de escola.

Durou duas semanas.

Porque, na terceira, eu percebi que nenhum garoto da minha idade parecia bom o suficiente.

Henrique parecia.

Aos quinze, a coisa mudou.

Não foi súbita. Foi gradual.

Eu estava descendo a escada da sala quando ouvi ele rindo de algo que meu pai disse. Raramente ele ria de verdade. Mas naquele dia, riu.

Eu parei no meio do degrau.

Ele estava sem a gravata. A manga da camisa dobrada até o antebraço. O relógio escuro no pulso. A veia marcada sob a pele.

Foi a primeira vez que meu corpo reagiu antes da minha mente entender o motivo.

Não era mais admiração.

Era atração.

Eu passei a notar detalhes que antes não via. A forma como ele apoiava as mãos na mesa durante reuniões. O jeito que inclinava levemente a cabeça quando alguém tentava mentir para ele. A forma que os olhos verdes ficavam ainda mais intensos quando estava concentrado.

E, principalmente, a forma como ele nunca me tratava como frágil.

Ele não me elogiava como se eu fosse só bonita.

Ele me desafiava como se eu fosse capaz.

Aos dezesseis, comecei a provocar.

Nada escancarado. Eu não era burra.

Mas comentários diretos. Olhares sustentados por segundos a mais do que o confortável. Perguntas sobre decisões de negócios só para vê-lo me explicar com aquela paciência contida que parecia sempre à beira de algo.

Ele começou a ficar mais distante.

Eu percebi.

E isso só me fez querer atravessar aquela distância.

Aos dezessete, eu parei de fingir que era brincadeira.

Eu já sabia o que sentia.

Não era fantasia adolescente.

Era escolha.

Eu amava Henrique.

Eu amava a inteligência dele.

Amava o fato de que ele nunca tomava decisões impulsivas.

Amava a forma como protegia meu pai sem jamais diminuir sua autoridade.

Amava a maneira como, mesmo em silêncio, ele parecia sempre atento a tudo.

E comecei a perceber outra coisa.

Quando eu entrava em um ambiente, ele percebia.

Mesmo que não olhasse imediatamente.

Mesmo que fingisse não notar.

Ele percebia.

Naquela noite, meses atrás, quando interrompi uma conversa deles sobre investimentos internacionais e questionei um ponto específico, ele me olhou diferente.

Não foi longo.

Não foi escancarado.

Mas foi diferente.

Como se tivesse enxergado algo novo.

Eu fui para o quarto naquela noite tremendo.

Não de medo.

De esperança.

Hoje, aos dezoito, eu não preciso mais fingir que não entendo o que acontece quando nossos olhares se encontram.

Eu sei.

Sei o efeito que causo.

Sei quando ele aperta o maxilar.

Sei quando ele respira fundo antes de responder.

Sei quando ele escolhe palavras demais para evitar dizer o que realmente pensa.

E hoje, na escadaria da faculdade, quando aquele homem se aproximou e Henrique apareceu de repente, segurando meu braço com firmeza, eu senti duas coisas ao mesmo tempo.

Surpresa e segurança.

O toque dele não foi invasivo.

Foi decidido.

Como se dissesse: eu estou aqui.

E quando ele falou que eu estava sendo observada há três dias, algo dentro de mim se torceu.

Não porque eu estivesse apavorada.

Mas porque ele estava.

Não externamente.

Mas por dentro.

E eu entendi, naquele instante, que o que existia entre nós nunca foi unilateral.

Nunca foi fantasia minha.

Alguém lá fora estava disposto a usar meu nome como arma.

Mas o que me marcou naquela manhã não foi o homem de boné.

Foi o olhar de Henrique.

Não de sócio do meu pai.

Não de estrategista.

Não de homem racional.

Foi de alguém que já tinha decidido que eu não seria tocada.

Nem por acidente.

Nem por ameaça.

Nem por ninguém.

E, pela primeira vez desde que comecei a amar aquele homem em silêncio, eu tive certeza de que ele também já tinha ultrapassado a linha que fingia respeitar.

Ele só ainda não admitiu.

Mas vai.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App