Capítulo 6

POV Henrique

O relatório chegou às seis da tarde.

Pontual.

Eu estava sozinho no escritório quando a mensagem de Caio apareceu na tela.

“Identificação confirmada.”

Eu não abri imediatamente. Gosto de me preparar antes de confirmar uma suspeita.

Quando finalmente toquei na tela, o nome apareceu acompanhado de uma ficha básica.

Gabriel Mota.

Trinta e dois anos.

Consultor independente.

Sem antecedentes criminais relevantes.

Ligação indireta com três empresas que já disputaram contratos com o meu grupo.

Indireta.

Nada que sustentasse acusação formal, mas suficiente para indicar a direção.

— Continue — respondi por áudio.

O telefone tocou menos de um minuto depois.

— Ele não é o cérebro — Caio disse. — É um intermediário.

— De quem?

Houve um pequeno silêncio do outro lado.

— Ainda estamos cruzando dados, mas há movimentação financeira recente ligada a um fundo que já esteve em litígio com você.

Meu maxilar travou.

— Qual fundo?

— Vértice Capital.

O nome não me surpreendeu, mas me irritou.

Vértice foi uma das aquisições mais agressivas que fiz há três anos. Não foi ilegal. Não foi suja, mas foi pública e foi humilhante para quem perdeu.

— Nome do gestor principal — eu pedi.

— Oficialmente, mudou duas vezes desde então. Mas existe um ex-sócio que saiu da sociedade logo depois da aquisição.

Eu sabia.

Não precisava que completasse.

Henrique Duarte.

Mas eu não disse.

Ainda não.

— Quero cada movimentação desse fundo nos últimos seis meses — falei. — E cruzem qualquer vínculo com empresas ligadas a comunicação ou mídia digital.

— Entendido.

Desliguei.

Não era coincidência.

Alguém com dinheiro suficiente para sustentar o desgaste.

Alguém que já tinha perdido para mim.

Alguém que teria motivo para querer algo além de compensação financeira.

Mas ainda não era uma prova concreta e eu não tomo decisões definitivas sem provas.

Meu telefone vibrou novamente.

Dessa vez, não era Caio.

Era Helena.

Eu fechei os olhos por um segundo antes de atender.

— Você está difícil de encontrar — a voz dela saiu suave demais.

Helena nunca foi impulsiva, nunca foi vulgar ou escandalosa. Sempre foi estratégica.

— Eu estou ocupado.

— Sempre esteve.

Eu ignorei a provocação.

— O que você quer?

Ela riu baixo. Sua voz ficando mais sensual.

— Soube que você apareceu pessoalmente numa universidade hoje.

Meu corpo ficou imóvel.

— Informação corre rápido.

— Especialmente quando envolve você.

Silêncio.

— Quem está te alimentando com esse tipo de detalhe? — perguntei.

— Henrique… — ela suspirou, quase divertida. — Você sabe que Nova York é pequena para quem circula nos mesmos ambientes.

Ela estava testando.

Assim como o homem de boné.

— Seja direta.

— Existe uma conversa circulando — disse ela, finalmente. — Sobre uma certa proximidade...

Meu maxilar endureceu.

— Conversa de quem?

— De gente que adora transformar ambiguidade em escândalo.

Ali estava.

O primeiro indício real.

Ainda não era exposição, mas era preparação de terreno.

— Obrigado pelo aviso — eu disse.

— Não fiz por você.

Claro que não. Helena nunca fazia nada apenas por generosidade.

— Fez por quê?

Houve uma pequena pausa.

— Porque eu não gosto quando usam o meu nome em histórias mal contadas.

O meu nome ou o dela?

Eu não respondi, mas uma peça começou a se encaixar.

Helena esteve ao meu lado durante parte da negociação da Vértice.

Conhecia os detalhes, bastidores e pontos sensíveis. E terminou comigo logo depois da aquisição.

Oficialmente, por “diferenças de visão”. Mas houve algo mais naquela ruptura.

Orgulho ferido.

Exposição pública.

Interesses desalinhados.

— Você ainda fala com o Duarte? — perguntei sem rodeios.

O silêncio do outro lado durou meio segundo além do natural.

— Não misture as coisas — ela respondeu, fria agora.

Mas eu já tinha o que precisava.

— Boa noite, Helena.

Desliguei.

Fiquei alguns segundos olhando para a cidade através do vidro. A combinação começava a fazer sentido demais para ser coincidência.

Perda financeira.

Humilhação pública.

Uma mulher que conhecia meus pontos cegos.

Mas ainda faltava a confirmação.

E, enquanto isso, a conversa social começava a se mover.

Se alguém decidisse transformar isso em uma narrativa…

Se insinuassem que eu estava envolvido com a filha do meu sócio…

Não seria apenas fofoca.

Seria munição.

E, pela primeira vez desde que tudo começou, a ideia deixou de ser apenas semente.

Se querem ambiguidade…

Eu tiro a ambiguidade.

Se querem insinuação…

Eu entrego fato.

Casamento.

A palavra atravessou minha mente com clareza quase incômoda. Não por romantismo, mas por blindagem. Pelo menos é o que gostaria de acreditar.

Só que havia um problema.

Casamento não é um contrato simples.

Envolve Augusto.

Envolve imprensa.

Envolve exposição direta.

E, acima de tudo, envolve Isadora.

Eu me apoiei na mesa, passando a mão pelo rosto.

Prós:

— Neutraliza a insinuação.

— Elimina a narrativa de manipulação.

— Fortalece a imagem de decisão.

— Fecha a porta para especulação moral.

Contras:

— Intensifica o ataque.

— Força o posicionamento público.

— Coloca Isadora sob holofote definitivo.

— Não tem volta.

Eu não tenho medo da guerra, mas tenho respeito por decisões irreversíveis. E casamento com ela não seria apenas um movimento estratégico.

Seria admissão.

E admitir significa deixar de fingir que ainda existe uma distância segura entre nós.

Meu telefone vibrou novamente.

Mensagem de número desconhecido.

“Você está demorando.”

Eu encarei a tela por alguns segundos.

Ele não sabia o que estava plantando. Ou talvez soubesse exatamente.

Porque, se ele queria me forçar a escolher…

Talvez eu estivesse prestes a fazer exatamente isso.

Mas não do jeito que ele imagina.

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