Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Henrique
Eu deveria ter ficado no escritório.
Eu tinha equipe, tinha vigilância, tinha um plano traçado desde as quatro da manhã. Mas, às onze e vinte, nenhuma dessas coisas foi suficiente para conter a inquietação que se instalou no meu peito desde que vi aquela foto.
Eu precisava vê-la.
Nova York estava em pleno funcionamento quando atravessei a cidade. Pessoas apressadas, cafés nas mãos, prédios espelhados refletindo um céu limpo demais para o tipo de pensamento que ocupava minha cabeça.
Eu não gosto de ambientes que não controlo.
E universidades são feitas de variáveis.
Estacionei a uma distância estratégica, de onde eu tinha visão clara da escadaria principal. Antes mesmo de desligar o motor, liguei para Caio.
— Posição.
— Lado leste do prédio principal. Boné azul escuro, mochila preta. Encostado próximo à escadaria. Está fingindo mexer no celular, mas não saiu do ponto desde as dez e cinquenta.
Eu o identifiquei imediatamente.
Postura relaxada demais para quem não tem um objetivo. O peso distribuído igualmente entre os pés. O olhar que não fixava ninguém, mas registrava todos.
Ele estava confortável.
Isso me irritou mais do que deveria.
— Mantenham distância visual — falei baixo. — Não abordem ainda.
— Entendido.
Desliguei e permaneci dentro do carro por alguns segundos, observando.
E então ela apareceu.
Isadora desceu os degraus com uma pasta apoiada no quadril, o cabelo preso de forma casual, como se tivesse feito aquilo às pressas. Jeans, camisa clara, nada que chamasse atenção.
Ela ria de alguma coisa que a amiga dizia. Leve. Despreocupada.
Aquilo me atravessou de uma forma inesperada.
O homem de boné se moveu.
Não abruptamente. Ele ajustou o ritmo ao fluxo dos alunos, desceu dois degraus, simulou esbarrar em alguém, aproximando-se gradualmente dela.
Eu abri a porta do carro antes mesmo de perceber que tinha tomado a decisão.
— Ele está se aproximando — avisei, já caminhando.
— Visual confirmado — Caio respondeu. — Estamos com ele na câmera da esquina também.
Eu atravessei a calçada com passos controlados. Quem me visse de longe não diria que havia urgência. Mas por dentro, cada músculo estava tensionado.
— Isadora? — a voz dele chegou até mim antes que eu alcançasse os degraus.
Ela parou e virou-se.
O cenho franziu levemente.
— Desculpa, acho que já nos vimos em algum evento do seu pai.
Mentira ensaiada.
Eu vi quando ele avaliou a distância entre eles.
Vi quando calculou a possibilidade de toque.
E isso foi suficiente.
Eu alcancei os dois antes que ele avançasse mais um centímetro.
Minha mão envolveu o braço dela, firme o bastante para interromper a aproximação, mas sem machucar.
Ela virou o rosto na minha direção, surpresa.
— Henrique?
— Está tudo bem? — perguntei, mantendo o olhar fixo no homem.
Ele me reconheceu. Seu pequeno momento de hesitação denunciou isso.
— Só estava confirmando uma informação — respondeu, dando meio passo para trás.
Eu não desviei os olhos.
— Já confirmou o que queria. Se afaste. — falei firme.
— Henrique! — Isadora protestou, mas eu continuei com os olhos fixos nele.
O homem sustentou meu olhar por alguns segundos, como se avaliasse até onde poderia ir.
— Claro — disse, por fim.
Mas antes de virar as costas, ele sorriu.
Não era sorriso de quem recua.
Era sorriso de quem testou um limite e recebeu o que queria.
— Sigam ele — murmurei discretamente, levando a mão ao ouvido como se estivesse ajustando o fone. — Não percam contato visual.
— Já estamos — Caio respondeu.
O homem atravessou a rua e dobrou a esquina.
Eu só soltei o braço dela quando tive confirmação.
— Equipe móvel atrás dele. Veículo prata, duas quadras ao norte.
Ótimo.
Sem pontas soltas.
Quando finalmente olhei para Isadora, percebi que ainda estava rígida.
— O que foi isso? — ela perguntou, sem elevação de voz, mas com confusão evidente.
Eu respirei fundo antes de responder.
— Eu vim te buscar.
— Buscar? Nós não combinamos nada.
Ela olhou ao redor, percebendo alguns olhares curiosos.
— Você pode explicar por que acabou de afastar um desconhecido como se ele fosse uma ameaça real?
Eu hesitei apenas o suficiente para escolher as palavras.
Ela ainda não sabia.
Mas, depois daquilo, não havia mais como adiar.
— Porque ele é.
O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior.
Não era tensão entre nós. Era uma informação nova sendo processada.
— Como assim? — ela perguntou, agora com a voz mais baixa.
— Ele está vindo aqui há três dias. No mesmo horário. Permanecendo no mesmo ponto.
Os olhos dela perderam um pouco da leveza.
Não medo.
Mas compreensão.
— Você está dizendo que eu estava sendo seguida?
Eu sustentei o olhar dela.
— Estou dizendo que alguém está testando uma proximidade.
Ela absorveu aquilo sem dramatizar. Apenas respirou mais fundo.
— E você descobriu isso quando?
— Ontem à noite.
A decepção ficou evidente em seu rosto.
— E decidiu não me contar.
— Decidi confirmar antes de alarmar você.
Ela cruzou os braços, tentando manter o controle.
— E decidiu vir aqui pessoalmente hoje.
— Eu precisava ver.
Ela me estudou por alguns segundos, como se estivesse tentando separar o exagero da necessidade.
Antes que pudesse responder, meu telefone vibrou novamente.
Número desconhecido.
Mensagem.
“Bom reflexo.”
Meu estômago se contraiu.
Outra notificação surgiu logo em seguida.
“Mas você não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo.”
O mundo ao redor pareceu desacelerar.
Dois lugares.
Minha mente percorreu possibilidades em segundos.
Apartamento.
Escritório. Casa de Augusto.— O que foi? — ela perguntou.
Eu levantei o olhar, analisando os prédios ao redor do campus. Janelas. Telhados. Pontos altos.
Aquilo não tinha sido tentativa de abordagem.
Tinha sido um ensaio.
— Caio — falei baixo. — Verifiquem qualquer movimentação próxima ao apartamento dela e da casa do pai dela. Agora.
— Já acionando — ele respondeu, imediatamente.
Meu olhar voltou para Isadora.
Ela ainda estava tentando entender a extensão daquilo.
E eu sabia que, a partir daquele momento, nada mais seria leve.
— Você vai comigo — eu disse sem margem para debate.
Ela assentiu.
Não por submissão.
Mas porque, pela primeira vez, entendeu que aquilo ultrapassava exagero.
Enquanto caminhávamos até o carro, eu senti algo que não sentia há muito tempo.
Não era medo.
Era antecipação de guerra.
E alguém tinha acabado de deixar claro que estava disposto a jogar sujo.







