Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Henrique
Eu não dormi.
Não porque estivesse assustado. Eu não sou homem que perde o sono por ameaça vazia, mas porque cada vez que fechava os olhos, via a imagem dela ampliada na tela do meu telefone.
O enquadramento era distante demais para ser casual.
Preciso demais para ser coincidência.Alguém tinha parado.
Observado. Esperado o momento certo.E apertado o botão.
Passei a madrugada no escritório do apartamento, a única parte da casa que nunca pareceu pessoal. Vidro escuro, mesa minimalista, luz fria. Tudo organizado. Tudo sob controle.
Menos isso.
Ampliei a foto novamente. Ajustei contraste. Busquei reflexos em vitrines, sombras nas laterais da imagem, placas de carro desfocadas ao fundo.
Nada.
Às quatro da manhã, liguei para Caio.
— Quero todas as câmeras da região da faculdade de Isadora nas últimas setenta e duas horas.
— Algum incidente? — ele perguntou.
— Ainda não.
Ainda.
Desliguei antes que ele fizesse mais perguntas. Eu não precisava explicar para ninguém o que aquilo significava. Eu entendi no segundo em que li a frase.
“Sabemos que ela é o ponto fraco.”
Não foi uma suposição.
Foi afirmação.
E isso significava que alguém já tinha me observado antes.
Às oito horas, eu estava de pé na varanda, olhando a cidade acordar. Nova York nunca dorme de verdade.
O telefone vibrou.
Caio.
— Temos uma movimentação repetida — ele disse direto. — Um carro aparece em duas câmeras diferentes nos últimos três dias, sempre no mesmo horário.
Três dias.
Ela estava sendo seguida há três malditos dias.
Meu maxilar travou.
— Placa?
— Clonada.
Claro.
— Intensifique a vigilância. Discreta. Dois homens na faculdade. Um fixo, outro móvel.
— Ela sabe?
— Não.
Houve um silêncio curto do outro lado da linha.
— E o pai?
— Também não.
Desliguei.
Eu conheço Augusto o suficiente para saber que ele reagiria antes de pensar. E, nesse momento, reação impulsiva é exatamente o que quem está por trás disso quer.
E eu não vou dar esse gostinho. Essa pessoa precisa entender com que ela está mexendo.
Meu telefone vibrou novamente.
Isadora.
Eu observei o nome na tela por alguns segundos antes de atender.
— Henrique?
A voz dela estava normal demais.
— O que houve?
— Você foi embora de forma muito estranha ontem.
Direta. Sempre.
Eu encostei a testa no vidro da varanda.
— Eu estava cansado.
— Você nunca está cansado.
Eu quase sorri.
— Talvez eu esteja envelhecendo.
— Você não é velho. Você está distante.
A acusação não veio carregada. Veio curiosa.
— Está acontecendo alguma coisa? — ela perguntou.
Sim.
Alguém está usando você como arma.
Mas eu não podia dizer isso ainda.
— Está tudo sob controle.
Silêncio.
Ela não gostava dessa resposta.
— Eu tenho a sensação de que não está — murmurou.
Meu olhar caiu para a rua lá embaixo. Dois homens já estavam posicionados a algumas quadras dali. Invisíveis. Preparados.
— Você confia em mim? — perguntei.
— Confio.
— Então deixe comigo.
Houve uma pausa curta.
— Eu não gosto quando você decide tudo sozinho.
Essa frase ficou comigo mais do que deveria.
— Eu não tomo decisões sozinho por prazer.
— Então por quê?
Porque alguém precisa fazer o que é necessário.
Mas a resposta real era outra.
Porque se algo acontecer com você, eu não vou me perdoar.
— Porque é o que eu faço de melhor — respondi.
Ela suspirou, mas não discutiu.
— Você vai passar aqui hoje?
Eu hesitei um segundo.
Não devia.
Mas precisava vê-la.
— Vou.
— Ótimo. Tenho aula agora. Depois a gente conversa.
A ligação encerrou.
Eu fiquei olhando para o telefone por alguns segundos.
Não era só ameaça externa.
Era a consciência incômoda de que, se algo acontecesse, não seria apenas falha estratégica.
Seria falha pessoal.
Às dez da manhã, recebi as imagens ampliadas.
O mesmo homem aparecia em três dias diferentes. Boné escuro. Óculos comuns. Postura casual demais para quem repetia o mesmo trajeto.
Ele não estava tentando se esconder.
Estava testando a distância.
Meu sangue esquentou.
— Quero ele identificado antes do fim do dia — disse para Caio.
— Vamos precisar de tempo.
— Você tem até as seis.
Desliguei.
Eu não gosto quando alguém acredita que pode usar o que é meu como uma ferramenta de pressão.
A palavra atravessou meu pensamento antes que eu pudesse impedir.
Meu.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Ela não é sua.
Não oficialmente.
Mas a ideia de alguém observando cada passo dela provocava uma reação que não tinha nada de racional.
Era territorial.
Era primitiva.
Meu telefone vibrou novamente.
Número desconhecido.
Mensagem.
“Você sempre foi inteligente. Não estrague isso.”
Eu não respondi.
Porque agora não era mais apenas uma ameaça.
Era provocação.
E quem provoca espera reação emocional.
Eu nunca ofereço isso.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu senti algo próximo do impulso.
Não era medo.
Era raiva.
E a raiva, quando mal administrada, é exatamente o que faz homens inteligentes cometerem erros.
Eu não cometeria.
Mas alguém ia pagar por tentar me forçar a isso.







