Mundo ficciónIniciar sesiónSe alguém tivesse perguntado para Ana, naquele dia, se ela era feliz, a resposta teria vindo fácil demais. Porque, ao lado de Lucas, tudo parecia leve. Mais simples. Mais certo. Até deixar de ser. Aos 18 anos, Ana descobre uma gravidez inesperada — e, com ela, o início de uma vida que não estava nos planos. O que antes era amor, parceria e promessas, começa a se transformar em silêncio, distância e escolhas que machucam mais do que qualquer palavra. Enquanto luta para lidar com o abandono de Lucas e a pressão dentro da própria casa, Ana se vê obrigada a crescer antes do tempo, enfrentando uma realidade dura demais para alguém que ainda estava aprendendo a viver. Mas nem toda história termina onde dói. Entre perdas, erros e recomeços, Ana vai descobrir que algumas pessoas chegam para quebrar… e outras, para reconstruir. E talvez, no meio de tudo o que desmoronou, exista espaço para um amor diferente. Mais calmo. Mais verdadeiro. Daquele que não foge.
Leer más(Versão Ana)
Se alguém tivesse me perguntado, naquele dia, se eu era feliz, eu teria respondido que sim sem pensar duas vezes. Porque, de alguma forma, eu era. Ou pelo menos achava que era.O Lucas tinha esse jeito de fazer tudo parecer simples. Com ele, as coisas não pesavam tanto. As preocupações diminuíam, os dias ficavam mais leves, e até os problemas pareciam menores do que realmente eram. Ele sempre sabia o que dizer, sempre dava um jeito de me fazer rir, mesmo quando eu nem estava com vontade.
Ele era o tipo de pessoa que chegava e mudava o ambiente sem esforço. Sempre com uma piada pronta, um sorriso fácil, um jeito de me olhar como se eu fosse suficiente. Como se eu bastasse.
E talvez tenha sido isso que me fez confiar tanto.
Com ele, eu não precisava fingir que estava bem. Não precisava ser mais do que eu era. E, ainda assim, parecia que era exatamente o que ele queria.
Ou pelo menos foi isso que eu acreditei.
— Para de roubar minha batata! — reclamei, tentando puxar o pacote de volta.
Lucas riu, segurando firme.
— Roubar? Eu que comprei.
— Comprou pra mim.
— Comprei pra nós — ele corrigiu, dando uma mordida exagerada só pra me provocar.
Revirei os olhos, mas acabei rindo. A gente estava sentado na calçada perto da praça, como sempre fazia no fim da tarde. Não tinha nada de especial naquele lugar, mas com ele, tudo parecia ser.
Encostei a cabeça no ombro dele, sentindo aquele conforto simples que, na época, parecia suficiente para tudo.
— Você é muito folgado — murmurei.
— E você gosta — ele respondeu na mesma hora.
E eu gostava mesmo.
Mais do que eu deveria.
Ele passou o braço por trás de mim, me puxando mais para perto, e ficou me observando por alguns segundos, como se estivesse tentando ler meus pensamentos.
— Tá quietinha hoje — comentou.
— Só cansada.
— Muito? — ele perguntou.
Dei de ombros, tentando não dar importância.
— Um pouco.
Ele aproximou o rosto do meu, encostando a testa na minha.
— Se tiver alguma coisa, você me fala, tá?
Eu sorri de leve.
— Falo.
E naquele momento, eu falaria mesmo. Eu confiava nele. Confiava na gente.
Talvez tenha sido isso que mais doeu depois.
Quando cheguei em casa, o cansaço não passou. Na verdade, parecia que tinha aumentado. Meu corpo vinha estranho há alguns dias muito sono, um enjoo leve, uma sensação constante de que alguma coisa não estava certa.
Tentei ignorar. Fingi que era coisa da minha cabeça.
Mas tinha coisa que a gente sente antes mesmo de confirmar até porque minha menstruação estava atrasada hà 1 mês.
Fiquei deitada olhando para o teto por alguns minutos, tentando me convencer de que não era nada. Até que levantei de uma vez, sem pensar muito.
Eu precisava saber.
A farmácia ficava a duas ruas de casa, e o caminho pareceu mais longo do que o normal. Entrei tentando agir como se fosse só mais uma compra qualquer, mas meu coração batia acelerado demais para isso.
— Boa noite — o atendente disse.
— Boa noite… — respondi, evitando olhar direto para ele — um teste de gravidez, por favor.
Ele pegou sem fazer perguntas e colocou no balcão. Eu paguei rápido e saí quase correndo, como se alguém pudesse me parar e perguntar o motivo daquilo tudo.
Quando cheguei em casa, fui direto para o banheiro. Tranquei a porta e encarei meu reflexo por alguns segundos. Eu parecia a mesma de sempre, mas por dentro tudo já estava diferente.
— Deve ser coisa da minha cabeça… — murmurei.
Mas no fundo, eu sabia que não era.
Os minutos demoraram mais do que deveriam. Eu fiquei olhando para o teste como se, de tanto encarar, o resultado pudesse mudar.
Mas não mudou.
Duas linhas.
Simples assim.
Meu corpo ficou gelado, e por alguns segundos eu não consegui reagir. Sentei na tampa do vaso, tentando entender o que aquilo significava de verdade.
Minha primeira reação não foi nem sobre mim.
Foi sobre o Lucas.
Peguei o celular com as mãos ainda tremendo e mandei mensagem:
“Você pode vir aqui?”
Ele respondeu quase na hora:
“Posso. Aconteceu alguma coisa?”
Fiquei alguns segundos olhando para a tela antes de responder.
“Só vem.”
Ele chegou rápido, como sempre fazia. Entrou no meu quarto sem bater, com aquele jeito familiar que antes me dava segurança.
— O que foi? — perguntou, me olhando com atenção — você tá diferente.
Eu tentei falar, mas minha voz demorou a sair.
— Eu fiz um teste.
— Teste de quê?
Respirei fundo.
— De gravidez.
Ele franziu a testa, ainda tentando entender.
— E…?
Minhas mãos voltaram a tremer.
— Deu positivo.
O silêncio que veio depois não foi de rejeição.
Foi de choque.
Lucas ficou parado por alguns segundos, me encarando como se estivesse tentando processar cada palavra.
— Você tem certeza? — perguntou, mais baixo.
— Tenho.
Ele passou a mão no rosto e começou a andar pelo quarto, claramente nervoso. Sentou na cama, apoiando os cotovelos nos joelhos, olhando para o chão.
— Caralho… isso muda tudo.
Meu coração apertou.
Eu me aproximei devagar e sentei ao lado dele.
— Lucas… fala comigo.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Eu só… não esperava isso agora.
— Nem eu.
— A gente é novo, Ana…
— Eu sei.
— A gente não tem nada ainda.
A forma como ele falou aquilo já não era a mesma de antes.
Não era carinho.
Era preocupação.
Peso.
Ele levantou e passou a mão no cabelo, inquieto.
— Eu preciso pensar.
Aquilo doeu mais do que eu imaginava.
— Pensar?
— É muita coisa de uma vez.
— E eu? — perguntei, sentindo a voz falhar — você acha que eu não tô pensando também?
Ele me olhou, mas foi diferente.
Não era o mesmo olhar de minutos atrás.
Tinha algo ali… mais distante.
— Eu não tô dizendo que vou sumir, Ana — ele disse — só preciso entender tudo isso.
Mas ele também não disse que ia ficar.
E aquilo ficou ecoando na minha cabeça.
Ele se aproximou, segurou meu rosto por um segundo, mas o gesto parecia mais automático do que verdadeiro.
— Eu falo com você depois, tá?
Eu só consegui assentir.
Ele saiu.
E, pela primeira vez, o silêncio não foi confortável.
Foi pesado.
Estranho.
Diferente.
Eu fiquei sentada na cama, olhando para a porta, esperando que ele voltasse, que mandasse uma mensagem, que dissesse qualquer coisa que me fizesse sentir menos sozinha.
Mas nada aconteceu.
E foi ali, naquele silêncio, que eu senti.
Nada tinha acabado ainda.
Mas também…
nada era mais como antes.
Acordei antes do despertador, com aquela sensação de quem dormiu, mas não descansou de verdade, fiquei olhando pro teto por alguns segundos até lembrar de tudo, a conversa da noite anterior veio inteira de volta, o jeito que ele falou, o que ele disse, e o fato de que hoje ele vinha me buscar pra fazer os exames, virei de lado devagar, puxando o lençol um pouco mais, como se desse pra adiar aquilo só mais um pouco, mas não adiantava.Fiquei ali mais um tempo, até começar a ouvir barulho na casa, porta abrindo, gente andando, a voz baixa da minha mãe na cozinha, levantei sem muita pressa, fui pro banheiro, lavei o rosto, prendi o cabelo de qualquer jeito e troquei de roupa, escolhendo qualquer coisa confortável, peguei a bolsa e saí do quarto.Na cozinha minha mãe já tava ali, mexendo nas coisas, e meu padrasto também, encostado na pia, mexendo no celular, ele levantou o olhar quando me viu e ficou me acompanhando enquanto eu pegava um copo de água.— Vai sair mais cedo hoje? — ele per
A porta fechou e eu continuei sentada exatamente do jeito que ele me deixou, sem conseguir me mexer, como se qualquer movimento fosse fazer tudo aquilo cair de vez dentro de mim, e o que mais incomodava não era nem o que ele tinha falado, era o quanto aquilo não encaixava com tudo que veio antes, porque não fazia sentido nenhum Lucas agir daquele jeito agora, decidido, firme, falando como se já tivesse resolvido tudo dentro dele, sendo que até pouco tempo atrás ele não sabia nem o que dizer, não sabia nem se ficava, se se afastava, se assumia alguma coisa ou não, ele vinha fugindo, e eu senti isso em cada detalhe, nas conversas mal resolvidas, nas respostas vagas, no jeito que ele evitava encarar de frente tudo que tava acontecendo, e agora não, agora ele vem e decide assim, do nada.Minha cabeça não saía disso, rodando sempre no mesmo ponto, tentando entender o que aconteceu de verdade pra ele mudar daquele jeito, porque não era uma mudança pequena, era uma virada inteira, e isso não
(Lucas)Fiquei alguns segundos em silêncio depois disso, sem saber se falava mais alguma coisa ou não. O quarto estava quieto, e dava pra sentir que ainda tinha muita coisa ali, mas sem espaço pra sair tudo de uma vez. Olhei pra ela com mais calma.— E tu… como é que tu tá?Perguntei, sem pressa.Ela demorou um pouco pra responder, baixou o olhar, mexendo de leve no lençol antes de falar.— Tô… tentando ficar bem.Assenti devagar.— Imagino.Ficamos um instante em silêncio.— E o bebê?Perguntei depois, com mais cuidado.Ela puxou o ar antes de responder.— Tá tudo bem até agora… eu fui hoje na primeira consulta.— Hoje?Ela assentiu.— Foi tudo meio rápido… mas deu tudo certo.Fiquei alguns segundos quieto antes de perguntar.— Tu foi com quem?— Com a minha mãe.Respondeu.Assenti de leve.— Entendi.Ela ajeitou o lençol com a mão, meio distraída.— A médica disse que tá tudo bem… tô de 12 semanas já.Olhei pra ela com mais atenção.— 12?Perguntei, mais por reflexo.Ela deu um meio
(Lucas)Fiquei parado mais alguns segundos, com o celular na mão, sem responder, sem tirar os olhos da tela. Aquilo não dava mais pra empurrar. Nem pra deixar ela segurar sozinha, vendo no que dava. Mesmo que não existisse mais nada entre a gente… isso aqui ainda era meu também. E eu ia ter que fazer alguma coisa com isso.Travei a tela e guardei o celular no bolso, soltando o ar devagar. Fiquei ali no balcão por um instante, olhando pra rua sem realmente ver nada. O movimento estava mais tranquilo, um cliente ou outro entrando, nada que ocupasse a cabeça de verdade.Passei a mão na nuca e fui até o meu pai, que estava conferindo umas notas perto do caixa.— Pai.— Oi.— Vou precisar sair mais cedo hoje.— Agora?— Preciso ir na casa da Ana… resolver umas coisas.— Entendi. Vai lá.— Eu seguro aqui — ele completou, já voltando o olhar pras notas.— Valeu.— Só resolve isso direito, Lucas.— Pode deixar.Peguei a chave do carro no balcão e saí, sem pressa, mas sem parar. A porta de vid










Último capítulo