Capítulo 1

POV Henrique

Eu nunca tive medo de perder um negócio, dinheiro.

Negócio se conquista.

Dinheiro volta.

Reputação se reconstrói.

Mercado oscila.

O que eu sempre temi foi perder controle.

É por isso que odeio jantares de sexta-feira na casa do Augusto.

Não pelo vinho — que ele sempre escolhe como se estivesse tentando impressionar alguém que já não precisa ser impressionado.

Não pela comida — que invariavelmente é boa demais para um encontro informal.

Mas porque, nos últimos meses, eu tenho saído de lá com a sensação incômoda de que algo está escapando do meu domínio.

E eu sei exatamente o que é.

A mesa estava posta no jardim, como sempre. Luzes amareladas penduradas nas árvores antigas, o cheiro leve de grama recém-cortada, o som distante da cidade abafado pelas paredes altas da casa. Segurança. Conforto. Um lar.

Eu ajudei a pagar aquela casa quando Augusto quase perdeu tudo, quinze anos atrás.

Eu estava lá quando ele reconstruiu.

E eu estava lá quando trouxe Isadora para casa pela primeira vez.

Eu sempre estive lá.

— A proposta é boa demais para ser verdade — Augusto dizia, girando o copo de uísque. — Eles estão cedendo controle cedo demais.

— Porque querem entrar antes que o valuation suba mais — respondi, apoiando os cotovelos na mesa. — E depois vão tentar diluir sua participação silenciosamente.

Ele riu.

— É por isso que você é meu sócio.

Eu não sorri. Eu estava prestando atenção.

Não na nossa conversa.

Mas nos passos dentro da casa.

O som do salto no piso de madeira ecoou antes mesmo que eu percebesse que estava esperando por ele.

Eu não levantei o olhar imediatamente. Não sou mais um garoto esperando atenção. Ainda assim, meu corpo reagiu antes que minha cabeça acompanhasse.

A musculatura das minhas costas enrijeceu. Meu maxilar travou. Minha mão apertou a base da taça com força demais.

— Boa noite.

Tremi.

A voz dela não tinha mais nada de infantil.

Eu ergui os olhos.

E foi nesse momento que algo dentro de mim saiu do lugar.

Isadora não usava mais os vestidos largos que costumava usar aos quinze. O vestido agora era simples, elegante, de um tecido leve que acompanhava as curvas do corpo sem ser vulgar. Nada exagerado. Nada óbvio.

Mas ela sabia exatamente o que estava fazendo.

Maldição.

Ela sustentou meu olhar.

Sem timidez.

Sem constrangimento.

Sem aquela distração inocente de quem ainda não entende o próprio efeito.

Ela entendia.

— Está atrasada — Augusto comentou.

— Não estou não — respondeu ela, inclinando o rosto com leve ironia. — Vocês que são obcecados por pontualidade.

Ela puxou a cadeira.

Ao meu lado.

Não havia falta de espaço na mesa. Ainda assim, escolheu aquele lugar.

O perfume dela chegou primeiro. Algo leve, quase fresco demais para ser doce. Diferente do que usava antes. Mais consciente.

Eu me servi de mais vinho, embora o copo ainda estivesse pela metade. Eu realmente precisava de algo para ocupar as mãos.

— Como foi a faculdade? — perguntei, mantendo a voz neutra.

— Interessante. — Ela cruzou as pernas. Meus olhos foram automaticamente para esse ponto antes que eu pudesse impedir. — Tive uma discussão sobre ética empresarial. Pensei em você.

Augusto riu alto. Eu não.

— Coitada da turma.

— Não seja injusto — ela respondeu ao pai, mas olhou para mim. — O Henrique é o único que fala de ética sem parecer hipócrita.

Eu arqueei uma sobrancelha.

— Isso foi um elogio?

— Foi uma constatação.

O vento moveu algumas folhas acima de nós. As luzes balançaram levemente. Tudo parecia comum demais para a tensão que crescia em silêncio.

Eu conheço essa sensação.

E eu sei exatamente quando começou.

Não foi hoje.

Não foi ontem.

Foi há alguns meses, num jantar parecido com este, quando ela interrompeu uma conversa nossa sobre investimentos internacionais e desmontou um argumento meu com uma calma absurda.

Não foi o que ela disse.

Foi como disse.

Segura. Direta. Inteligente.

Naquela noite, eu a olhei de verdade pela primeira vez.

Ela não era mais uma criança.

Era uma mulher.

E perigosa demais para a minha sanidade.

Hoje, essa constatação estava mais evidente.

— Você está me analisando — ela comentou, baixando a voz de propósito, quando Augusto se afastou para atender o telefone.

Eu encarei a taça antes de responder.

— Impressão sua.

— Não é.

Ela inclinou o rosto ligeiramente, estudando minha expressão como se estivesse lendo algo que eu tentava esconder.

— Você anda diferente comigo.

Meu maxilar travou discretamente.

— Você anda imaginando coisas.

— Não estou.

Silêncio.

Ela não desviou o olhar.

Eu poderia ter encerrado ali. Poderia ter sido mais frio. Poderia ter criado distância.

Mas algo na firmeza dela me impediu.

— Você cresceu — eu disse, antes de filtrar melhor.

Os olhos dela mudaram. Não ficaram suaves, ficaram mais intensos.

— Eu sei.

Sim. Ela sabia.

Não havia ingenuidade ali. Somente um sorriso. Quente.

Augusto voltou à mesa, quebrando a tensão como se não tivesse percebido nada. Talvez realmente não tivesse. Ele sempre enxergou Isadora como extensão da própria vida — não como mulher.

Eu terminei o vinho rápido demais.

Durante o restante do jantar, eu participei da conversa, mas minha mente estava em outro lugar. Cada vez que ela falava, eu ouvia mais do que palavras. Eu ouvia intenção. Promessas. Consciência.

Ela estava me provocando, me enfrentando. E isso é perigoso, muito perigoso.

Quando me levantei para ir embora, Augusto me acompanhou até o carro.

— Amanhã falamos da fusão com calma — disse ele.

— Tudo bem.

Ele voltou para dentro.

Eu já estava abrindo a porta do carro quando senti presença atrás de mim.

Não precisei virar para saber que era ela.

— Vai embora sem se despedir direito?

Eu fechei os olhos por um segundo antes de me virar.

Ela estava a poucos passos. O vestido se movia levemente com o vento. O cabelo caía solto sobre os ombros. Não havia insegurança no modo como me encarava.

— Boa noite, Isadora.

Formal demais.

Ela percebeu.

— Você sempre foi melhor com números do que com despedidas.

Eu rosnei baixo, quase inaudível.

— Entre, Isadora.

— Está fugindo?

Eu dei um passo à frente.

— Não me provoque.

Ela sustentou meu olhar, e ali não havia brincadeira.

— Eu não estou provocando. Só não quero que você continue fingindo que eu tenho treze anos.

O silêncio entre nós ficou pesado.

Eu poderia mentir.

Poderia dizer que ela estava confundindo as coisas.

Mas a verdade é que eu já tinha percebido a mudança muito antes dela verbalizar.

— E você não precisa agir como se precisasse provar que cresceu — respondi.

O olhar dela não vacilou.

— Eu não preciso provar. Você já percebeu.

Foi nesse momento que meu estômago se contraiu de verdade.

Ela sabia.

Sabia que eu tinha notado.

Sabia que eu estava lutando contra isso.

E estava escolhendo não recuar.

Eu dei um passo para trás.

Distância é controle.

— Entre — repeti.

Dessa vez, meu tom não foi de uma ordem. Foi de um pedido.

Ela me observou por um segundo longo demais. Se aproximou sem pressa e me abraçou. Eu fiquei rígido, não por rejeição, mas por autocontrole.

O calor dela atravessou o tecido da minha camisa. Leve demais. Próxima demais. Quando os lábios dela tocaram meu rosto, foi rápido. Quase inocente.

Quase.

Ela se afastou como se não tivesse feito nada demais. Eu fiquei ali parado por alguns segundos. Maldição. Se eu não colocar limites, ela vai me destruir.

Respirei fundo e entrei no carro.

Já estava fora da mansão quando meu telefone vibrou no banco do passageiro.

Número desconhecido.

Ignorei.

Vibrou novamente.

Uma mensagem.

“Sabemos que ela é o ponto fraco.”

Uma foto.

Isadora saindo da faculdade naquela manhã.

Ângulo distante. Profissional.

Outra mensagem chegou.

“Você sabe como isso funciona.”

Eu ampliei a imagem.

Zoom no reflexo do vidro da portaria.

Horário.

Localização.

Alguém estava monitorando.

E não era aleatório. Era direcionado. Para mim.

Eu apoiei a cabeça no encosto do banco por um segundo.

O jantar deixou de ser o centro da minha atenção.

Agora era guerra.

Mas o que realmente me incomodava não era a ameaça.

Era a constatação silenciosa que eu já vinha evitando há meses:

Se alguém queria usar Isadora contra mim…

Era porque já tinha percebido algo que eu fingia não existir.

E isso significava que eu não era o único que tinha notado a mudança. Alguém estava assistindo. E já tinha entendido exatamente onde doía.

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