Mundo ficciónIniciar sesiónEle acreditava que amor não fazia parte dos negócios. Ela acreditava que sua vida nunca mais teria espaço para sonhos. Quando Leonardo Ferraz recebe a notícia de que sua avó — a mulher que construiu o império da família — está doente e pretende deixar a fortuna apenas para o neto que der continuidade ao legado da família, ele toma uma decisão prática: ter um filho através de uma barriga de aluguel. Nada de relacionamentos, nada de laços, nada de amor. Mas Camila Torres, a mulher que ele contrata para gerar seu herdeiro, é tudo, menos o que ele esperava: forte, doce, cheia de cicatrizes — e absolutamente capaz de bagunçar a vida meticulosamente organizada do bilionário. Quando o bebê nasce e sentimentos verdadeiros florescem, Leonardo descobre a verdade: a doença da avó foi um diagnóstico errado. Ela não está morrendo… e não pretende deixar a fortuna para um neto frio e calculista que transformou a chegada de um bebê em um negócio. Agora, Leonardo precisará provar que é mais que um nome em um testamento — e que, no meio de um acordo bilionário, o amor nasceu de verdade.
Leer másPOV Eva Monteiro
Naquele dia, eu deveria estar me casando. Mas estava prestes a descobrir que eu era só parte do enredo de uma traição bem ensaiada. O vestido era tudo o que eu imaginei e mais um pouco. O pincel de iluminador deslizava pela minha bochecha como se eu fosse uma artista pintando a última obra de uma vida inteira. Vestido branco, com renda delicada no corpete e brilhos bordados como pequenas estrelas guardando segredos. Um decote em V ousado na medida certa, a cauda leve. Na frente do espelho, ajeitei uma mecha dos meus cachos marsala, e pela primeira vez me vi bonita de verdade. Não "bonitinha", não "pra alguém como você", mas bonita. Inteira. Hoje eu ia casar com Gustavo. O cara por quem eu abri mão de muito mais do que deveria. Respirei fundo. O quarto da pousada cheirava a flores, spray fixador e promessas frágeis. Sorri. E falei comigo mesma como quem segura a própria mão: "Você tá fazendo a coisa certa, Eva." Era o que eu dizia pra mim mesma desde o dia em que aceitei o pedido de casamento. O dote que os pais dele ofereceram ia ajudar os meus. Ia tirar minha mãe da dívida com o hospital, dar um teto novo pro meu pai reformar o mercadinho. Eu podia abrir mão dos meus sonhos… Eu poderia parar de tocar nas madrugadas como DJ. Poderia finalmente largar o turno duplo na lanchonete. Eu tinha um diploma que mal saiu da moldura. Uma proposta de estágio recusada, um projeto de pesquisa que deixei de lado. Eu era boa com números, com dados, mas deixei os gráficos de lado pra aprender a fazer feijão com o tempero da sogra. E por quê? Porque acreditava que era isso que se fazia quando se ama. Porque achei que dava tempo pra correr atrás de mim depois. Mas a verdade? A verdade é que eu me apaguei devagar. Apaguei meus planos, um a um, como quem risca a lista de mercado. E talvez… eu fosse feliz. Uma nova versão de mim mesma: a esposa dedicada, delicada, recatada, como uma família tradicional brasileira. Parecia até piada, a mulher que finalmente encontrou paz. Mesmo sem querer isso, eu precisava. Por eles. Meus pais estavam na casa de trás. O salão já está pronto. Tudo custeado pela família de Gustavo, mas... isso não me diminuía. Trabalhei, estudei, cuidei de tudo enquanto podia. Eu não tinha grana, mas tinha garra. E amor. Isso valia. — É cedo — murmurei, ainda encarando meu reflexo. — Mas talvez... seja a hora de construir minha própria família. Por eles também. Antes que seja tarde. Gustavo não era perfeito. Tinha um quê de arrogância quando bebia demais, às vezes me diminuía quando eu falava de carreira, mas... não era um cara ruim. Só… difícil de ler. Distraído. Dava a sensação de que queria estar em outro lugar, de vez em quando. Ainda assim, eu acreditava nele. No “nós” que construímos. Quatro anos. Eu não jogaria isso fora. Suspirei fundo, senti o perfume do buquê do meu lado e fechei os olhos por um segundo. Foi aí que ouvi. Uma risada. Passos. A voz de Gustavo, abafada seguindo pelo corredor. — “Você tá linda assim, mas eu vou bagunçar tudo isso.” Meu coração disparou. Ele estava vindo me ver? Quebrou a tradição? Sorrindo, me escondi no banheiro. — Seu bobo — sussurrei, achando que ia surpreendê-lo. Imaginando ele abrindo a porta. Mas aí… ele não estava sozinho. Eu ouvi outra voz. Feminina. Alta. Risonha. — "Gustavo, para... a Eva vai escutar..." Sabrina. Silêncio. Meu peito se fechou. Não pode ser. Meu corpo congelou. A maçaneta girou. Eles entraram. No meu quarto. Rindo. Sussurrando. — Relaxa. A Eva deve estar chorando com a mãe dela, sei lá... Você sabe que é você, né, Sab? Ela é só conveniência. — Para, Gustavo... a gente tem dez minutos, no máximo — a voz dela soava entre sorrisos abafados. — É tempo suficiente pra eu provar que você é mais gostosa que no meu sonho de ontem. — Gustavo! — Shh... Vai ficar gemendo alto igual ontem? Risos abafados. Um baque contra a parede. O som de beijos. Meus joelhos quase cederam. A voz dele. Rindo. Sedutor. Como se já tivesse feito aquilo mil vezes. Tive que tapar a boca com a mão pra não gritar. E foi ali, com meu vestido de noiva impecável e minha fé inteira no chão, que o mundo desabou.Cinco anos depoisO cheiro de papel novo misturado ao de café fresco ainda me fazia sorrir, mas agora ele vinha acompanhado de algo diferente, algo mais sólido.Orgulho.Empurro a porta de vidro da Entre Linhas & Sonhos com a mesma delicadeza de sempre, mesmo depois de cinco anos abrindo esse lugar quase todos os dias. O sino suave tilinta, ecoando pelo espaço amplo, vivo, iluminado pela luz quente da manhã que atravessa as janelas altas.Por um segundo, paro.As estantes de madeira clara se estendem até o fundo da livraria, organizadas com cuidado, carinho e intenção. Na parede lateral, um quadro simples reúne recortes de jornais e revistas:“A livraria independente que virou referência.”“Entre Linhas & Sonhos: onde histórias mudam vidas.”Ainda parece surreal.Cinco anos atrás, isso era apenas um sonho antigo, quase infantil, que eu guardava com cuidado para não doer. Agora, é real. Cresceu, se expandiu e criou raízes.Tem clubes de leitura, lançamentos lotados, autores que fazem
CAMILAEu acordei antes do sol.Não foi o nervosismo que me tirou do sono, nem a ansiedade típica de um dia importante. Foi algo mais silencioso, mais profundo. Uma consciência clara demais para continuar dormindo. Como se meu corpo soubesse, antes mesmo da minha mente, que aquele dia não comportava distrações.Fiquei alguns minutos deitada, olhando para o teto, ouvindo os sons distantes da casa acordando aos poucos. Um passo no corredor. Uma porta sendo fechada com cuidado. Vozes baixas. Tudo parecia respeitar o peso do que estava prestes a acontecer.Era o dia do meu casamento.A ideia ainda parecia grande demais para ser dita em voz alta. Não porque fosse irreal, mas porque carregava muitas camadas. Muitas versões de mim mesma que nunca imaginaram chegar até ali. A Camila que teve que amadurecer cedo. A que foi julgada por escolhas que não foram totalmente suas. A que aprendeu a ser forte antes de aprender a ser cuidada.Levantei devagar e caminhei até a janela. Afastei a cortina o
Eu soube que minha avó estava ali antes mesmo de vê-la.Talvez fosse o modo como o ar pareceu se reorganizar ao redor de mim. Ou aquela sensação antiga, quase infantil, de estar sendo observado por alguém que sempre enxergou além do que eu dizia. Dona Eliza nunca foi uma mulher de aparições discretas — mesmo quando se mantinha à margem, sua presença se impunha.Camila ainda estava absorvendo o momento.Os olhos marejados percorriam o espaço da livraria como se ela estivesse tentando gravar cada detalhe para ter certeza de que aquilo era real. A ponta dos dedos tocava o anel com cuidado excessivo, como se um movimento brusco pudesse desfazer tudo. Ela respirava fundo, pausadamente, e eu reconhecia aquele gesto: Camila sempre fazia isso quando a emoção ameaçava transbordar.Eu a observava em silêncio, com uma sensação estranha no peito. Não era dúvida. Era responsabilidade.Quando ela disse “sim”, algo dentro de mim se assentou de uma forma que nunca tinha acontecido antes. Não houve eu
CAMILAAlgumas mudanças não chegam de repente. Elas se infiltram no cotidiano, silenciosas, até que, quando percebemos, tudo está diferente.Era assim que eu me sentia naquela fase da minha vida.Meses haviam passado desde a tempestade que quase nos engoliu. As manchetes, os olhares curiosos, os comentários sussurrados, tudo isso ainda existia em algum lugar distante, mas já não definia mais meus dias. Eu tinha reaprendido a respirar sem o peso constante do julgamento. Tinha voltado a sorrir sem culpa. E, acima de tudo, tinha aprendido a confiar novamente.Em mim. E em Leonardo.Nosso relacionamento tinha se transformado em algo calmo, sólido, construído no detalhe. Não havia mais a urgência do início, nem o medo do que poderia ruir. Existia presença. Existia escolha.Naquela manhã, eu estava sentada no sofá da sala, organizando algumas coisas em silêncio, enquanto Vicente brincava no tapete, espalhando blocos coloridos ao redor. Observá-lo sempre me trazia uma paz estranha, quase sa





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