Mundo de ficçãoIniciar sessãoDiego nunca foi apenas mais um homem do morro. Filho do Dono, criado no meio do poder, da lealdade e da violência, ele aprendeu desde cedo que sentimentos são fraqueza… e que qualquer erro pode custar caro. Mas tudo muda quando ela aparece. Ive linda, teimosa e completamente fora daquele mundo, ela sobe o morro sem imaginar que está entrando direto na vida de um herdeiro de favela. O que começa com olhares provocantes e encontros proibidos logo se transforma em algo muito mais intenso… e muito mais perigoso. Porque ela carrega um segredo. O pai dela é o responsável pela prisão da mulher que Diego mais ama: sua mãe. Agora, entre desejo, ódio e verdades que podem incendiar o morro inteiro. Porque se envolver com o Filho do Dono pode ser fácil. Difícil é esquecer
Ler maisIve.
Eu me encarava no espelho do quarto da Verônica, mas mal reconhecia a garota do outro lado do vidro. Meu rosto ainda pulsava. O ardor não era apenas da briga com meu pai; era o lembrete físico de que, mais uma vez, ele tinha cruzado a linha. Não fora apenas um confronto de palavras. Ele tinha me batido de novo. Aquela casa estava me sufocando, como se o oxigênio fosse racionado pela vontade dele. Minha mãe era uma sombra, uma mulher que perdeu a voz há anos, silenciada por um medo que superava qualquer instinto de reação. O fanatismo dele contaminava tudo. Afinal, ele era o secretário de segurança da cidade, um ex-sargento da polícia que carregava a disciplina militar para dentro da sala de estar como se fôssemos recrutas em um campo de batalha. O homem que o mundo via como um protetor era, entre quatro paredes, o nosso maior agressor. — Amiga… e se o seu pai te achar? — A voz da Verônica cortou meus pensamentos. Ela não tirava os olhos do celular, mas o tom entregava a preocupação. Soltei um suspiro pesado e cruzei os braços, tentando conter o tremor nas mãos. — Hoje eu sou uma completa desconhecida — dei de ombros, forçando uma autoconfiança que eu não possuía. — Eu só não fujo de vez por causa da minha mãe. Ela morreria de medo sozinha com ele. Verônica finalmente levantou o olhar, a testa franzida. — Eu imagino… mas essa festa é um encontrão, Ive. Muita gente conhece seu pai. Alguém pode te ver. — Eles não vão me obrigar a voltar se me virem. Eu só preciso de algumas horas longe daquele inferno. Ela deu uma risadinha nervosa para aliviar a tensão. — Bom, meu namorado vai estar lá. Revirei os olhos, esboçando o primeiro sorriso real da noite. — Que ótimo… vou passar a noite segurando vela para vocês dois? — É só você pegar alguém também, simples assim! — Simples? — Soltei uma risada curta, carregada de ironia. — Fala sério, Verônica… — Você fala como se fosse uma missão impossível — ela retrucou, jogando o celular na cama e se aproximando. Voltei a me olhar no espelho. A marca do tapa estava ali, camuflada sob a pele, mas o ardor no peito era o que realmente incomodava. Peguei a base e comecei a espalhar o produto com batidas leves, tentando esconder o rastro da violência dele. — Você não precisa ir se não estiver pronta — Verônica disse, agora com a voz mais mansa, me estudando. Balancei a cabeça negativamente. Eu precisava. Se eu ficasse mais um minuto ouvindo os gritos do meu pai e o choro sufocado da minha mãe no quarto ao lado, eu simplesmente enlouqueceria. — Não… eu preciso respirar. Vamos antes que eu mude de ideia. A festa estava em seu ápice quando chegamos. O grave da música fazia o chão vibrar sob meus pés, e as luzes estroboscópicas cortavam a penumbra, criando um cenário frenético. No início, me senti um peixe fora d'água. Minha mente ainda estava presa no som da mão do meu pai atingindo meu rosto, mas o ambiente insistia em me arrastar para o presente. — Relaxa — Verônica gritou por cima do som, apertando minha mão. — Hoje você é só a Ive. Diversão, lembra? O namorado dela surgiu entre a multidão quase instantaneamente, passando o braço pela cintura dela. — Demoraram, hein? — Culpa dela — Verônica brincou, apontando para mim. — Sempre eu — murmurei com um sorriso de canto. Dei alguns passos para trás para dar espaço aos dois e comecei a observar o movimento. Pessoas dançando, copos para o alto, o cheiro de perfume misturado ao álcool. Foi então que senti um impacto leve no meu ombro. — Foi mal. A voz era profunda, grave o suficiente para sobressair ao barulho ao redor. Levantei o olhar e, por um instante, o caos da festa pareceu entrar no mudo. O cara parado na minha frente tinha uma expressão intrigada, os olhos fixos nos meus como se estivesse tentando decifrar um enigma. — Tudo bem — respondi, tentando manter a voz firme. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, me analisando de um jeito que me deixou desconfortável e fascinada ao mesmo tempo. — Você parece meio perdida nesse mar de gente. Cruzei os braços, desafiadora. — E você parece ser observador demais. Um sorriso lento e perigoso surgiu no canto da boca dele. Ele estendeu a mão, o gesto calmo em meio à agitação. — Diego. Quando minhas mãos tocaram a dele, senti um choque elétrico percorrer meus dedos. Meu coração acelerou, e não foi por causa da música. — Ive. Naquele momento, enquanto o calor da mão dele me ancorava ali, eu não tinha como saber que o encontro com Diego seria o ponto de ruptura. Minha vida estava prestes a mudar, e o perigo que eu conhecia em casa não era nada perto do que estava por vir.Cheguei em casa carregada de sacolas e brinquedos, o cansaço do shopping pesando nos ombros, mas a mente a mil por hora. Coloquei Dante na cama com cuidado; ele já estava entregue ao sono profundo, alheio a tudo. Ao me virar, dei de cara com Paulo encostado no batente da porta do quarto, me observando com um olhar denso, indecifrável.— Por que tá me olhando desse jeito? — perguntei, sentindo a tensão subir.— Eu tava pensando em uma coisa aqui... — ele respondeu, a voz mais grave.— Que coisa? — provoquei.Ele não esperou. Veio até mim com passos decididos e me puxou "de jeito", colando nossos corpos. Senti o calor dele atravessar minha roupa.— Você está pensando o que eu estou pensando, né, Paulo? — sussurrei, já levando as mãos à sua camisa e a arrancando com pressa, enquanto o guiava para o quarto de hóspedes para não acordar o pequeno.— Está me usando de novo, Ive? — ele questionou, embora suas mãos já estivessem firmes na minha cintura.— E o que tem? — respondi com um sorriso
Ive Narrando.Eu mal tinha me recuperado das emoções da noite passada e já fui atropelada pela notícia: Oto decidiu que voltaríamos para o Rio de Janeiro. Segundo ele, precisava fechar uma aliança estratégica e não podíamos perder tempo. Arrumar as malas foi um misto de ansiedade e alívio; no fundo, eu sempre soube que esse dia chegaria. Viver escondida tem um preço, e agora, ao lado do meu irmão, eu finalmente me sentia segura para cobrar as dívidas do passado.Enquanto terminávamos de organizar tudo, flagrei uma cena que já se tornou rotina:— Dante, presta atenção no titio — Oto gesticulava, sério. — Tu tem que ser firme. Se um garoto quiser crescer pra cima de tu, tu não deita não, mete o murro bem na cara dele!Dante, com aqueles olhinhos atentos e curiosos, tentava imitar o movimento com as mãos minúsculas.— Assim, tio? — perguntou, fechando o punho com determinação.— Tá vendo? — Intervi, cruzando os braços. — Por isso que outro dia ele bateu no coleguinha na escola. Você fica
O estilhaço do celular no chão era o único som que restava no escritório, além da minha respiração pesada. Eu sentia o sangue pulsar nas têmporas, uma batida rítmica que gritava o nome dela. Ive.A porta abriu novamente e o JP, meu braço direito e o cara que cuida da logística pesada, entrou com uma pasta na mão. Ele parou no meio do caminho, olhando para os restos do meu aparelho na parede e para o clima de guerra que estava instalado.— Diego, a hora é agora — JP começou, tentando manter o tom profissional, ignorando a cara de enterro da Thamires no canto. — Consegui contato com aquele aliado forte que a gente tava mapeando. O cara é brabo, domina a rota norte e tá disposto a fechar com a gente pra derrubar a concorrência de vez. Se a gente assinar esse acordo hoje, ninguém mais peita o nosso morro.Eu nem virei o rosto para olhar para ele. Meus olhos estavam fixos no vazio, reconstruindo cada detalhe da foto da Ive na minha mente. O sorriso dela, o braço daquele desgraçado em volta
A luz do sol batendo na janela parecia uma facada direta no meu cérebro. Minha cabeça latejava no ritmo de um tambor de escola de samba. Tentei me mexer, mas senti um peso morto de um lado... e outro do outro.Abri os olhos devagar, a visão embaçada, e quando foquei... Puta que pariu.— AAAAAAHHHH! — O grito saiu rasgando a minha garganta antes que eu pudesse raciocinar.Não era um. Eram dois. Dois caras que eu mal lembrava o nome, jogados na minha cama king-size como se fossem donos do pedaço.O barulho do meu grito foi o estopim. Em menos de cinco segundos, a porta do meu quarto voou com um chute. O Oto brotou no meio do batente, só de cueca samba-canção, com a pistola em punho e os olhos injetados de quem ia dizimar uma vila.— QUEM MORREU? ONDE TÁ O INVASOR? — ele gritou, apontando a arma para todos os cantos até travar na minha cama.Houve um silêncio mortal. Os dois caras acordaram no pulo, brancos como papel, olhando para o cano da arma do meu irmão.— Mas que porra é essa, Ive





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