Mundo de ficçãoIniciar sessãoBilionário, arrogante e dono da Noir Parfum, Mauro guarda um segredo perigoso: o perfume criado exclusivamente para ele é capaz de despertar desejo em quase qualquer mulher. Quase. Nathalia, uma funcionária comum da empresa, é a única que não reage ao aroma. Para Mauro, aquilo é impossível. Para Nathalia, é apenas mais uma prova de que aquele homem não merece o poder que tem. Intrigado pela única mulher que não consegue dominar, Mauro a promove a assistente pessoal e decide mantê-la por perto. Mas quanto mais tenta controlá-la, mais se torna obcecado por ela. Quando Nathalia começa a investigar o segredo por trás do Relux, descobre que o perfume envolve muito mais do que sedução. Há chantagens, ameaças e alguém disposto a destruir os dois. Agora, ela precisa descobrir se Mauro Ventura é seu maior perigo… ou o único homem capaz de protegê-la.
Ler maisEu achei que estava sendo demitida. Não tinha outro motivo para alguém do RH me chamar com tanta urgência no meio do expediente. Eu era só uma auxiliar administrativa de operações na Noir Parfum, uma dessas funcionárias que passam o dia lançando dados em planilhas, conferindo relatório chato e fazendo tarefas repetitivas que ninguém importante quer fazer. Nada contra o trabalho. Ele pagava minhas contas. Mal, mas pagava.
Quando Alessandra apareceu na minha mesa, com os olhos arregalados e aquele jeito de quem tinha acabado de descobrir uma fofoca deliciosa, eu já senti que vinha problema. — Amiga, corre pro RH agora. — Por quê? — Não posso falar. Só vai. — Alessandra, se for demissão, fala logo pra eu já ir chorando no caminho. Ela se inclinou sobre a divisória da minha mesa, como se fosse contar um segredo de Estado. — Eu ouvi dizer que você vai ser promovida. Eu ri. Ri mesmo. Alto o suficiente para Dalila, da mesa da frente, olhar para mim. Promovida? Eu? Na Noir? Não que eu fosse incompetente. Eu não era. Mas a Noir era uma dessas empresas em que subir de cargo parecia depender menos de trabalho e mais de sobrenome, indicação ou capacidade de puxar saco. Eu não tinha nenhum dos três. A Noir Parfum era linda por fora: campanhas milionárias, lojas chiques, perfumes caríssimos, executivos bem vestidos e aquela aura de empresa perfeita. Por dentro, era como qualquer outra. Gente sobrecarregada, salário ruim e chefe se achando Deus. Ou melhor: não qualquer chefe. Mauro Ventura. O dono da porra toda. Tecnicamente, CEO. Na prática, príncipe mimado da Noir, herdeiro do império criado pelo pai. Um homem absurdo de bonito, desses que parecem feitos para humilhar o resto da humanidade. Alto, corpo perfeito, rosto de propaganda internacional e uma tatuagem discreta de flor de lótus no pescoço, que irritantemente combinava com ele. O problema é que Mauro sabia que era bonito. Sabia até demais. Todo mundo comentava sobre o efeito que ele causava nas mulheres. Bastava entrar em uma sala para metade da empresa mudar a respiração. Algumas diziam que era o perfume dele. Outras juravam que a linha de luxo da Noir tinha alguma coisa capaz de aumentar o desejo. Eu achava tudo uma idiotice. Na minha opinião, o segredo era bem menos místico: Mauro era gostoso, rico e arrogante. Muita gente confundia isso com charme. Eu não. Eu tinha ranço. — Nathalia — Alessandra insistiu. — Vai logo ao RH. — Se isso for pegadinha, eu te mato. — Vai, mulher. Fui. No caminho, tentei me preparar para qualquer coisa. Corte de equipe. Reclamação de algum relatório. Advertência por eu ter respondido atravessado a um supervisor na semana anterior. Tudo parecia mais provável do que promoção. Mas era promoção mesmo. A mulher do RH falou com aquele sorriso profissional que não dizia nada e, em menos de cinco minutos, minha vida estava oficialmente bagunçada. — A partir de amanhã, você passa a atuar como assistente pessoal do senhor Mauro Ventura. Eu pisquei. — Desculpa. Acho que eu entendi errado. Ela repetiu. Eu continuei sem entender. — Mas eu sou do setor de operações. — Sim. — Eu não tenho experiência como assistente executiva. — O senhor Mauro solicitou especificamente o seu nome. Aí foi pior. Porque uma coisa era erro do RH. Outra, muito mais esquisita, era Mauro Ventura saber que eu existia. — Ele solicitou meu nome? — Sim. — Tem certeza que não existem duas Nathalias na empresa? A mulher sorriu sem graça. — Ele pediu você. Saí do RH com a sensação de que tinha perdido alguma informação importante. Quando voltei ao setor, Alessandra veio praticamente correndo. Eu disse que tinha sido promovida, ela gritou, eu pedi silêncio, mas já era tarde. Em segundos, várias pessoas estavam olhando para mim. Algumas felizes, outras curiosas, outras com aquela cara de “por que ela?”. Sinceramente, eu também queria saber. No dia seguinte, às oito em ponto, fui levada até o último andar. A sala de Mauro era do tamanho do meu antigo setor inteiro. Tudo ali gritava dinheiro: piso brilhando, móveis escuros, vidro do chão ao teto, vista absurda da cidade. Ele estava em pé perto da janela, de costas, como se tivesse ensaiado aquela pose ridícula. Quando virou, entendi de novo por que metade da empresa parecia perder a dignidade perto dele. O homem era bonito mesmo. Uma desgraça. — Bom dia, doutor Mauro — falei, tentando manter a postura. Ele sorriu de leve. — Só Mauro. — Como preferir, doutor Mauro. O sorriso sumiu um pouco. Ponto para mim. — Sente-se. Sentei, mas não esperei ele começar. — Olha, eu acho que houve algum engano. Eu sou de operações. Não sei por que fui chamada para trabalhar diretamente com você. Ele me observou por alguns segundos. Não era olhar de chefe. Era mais demorado, mais concentrado, mais incômodo. O que me deixou com mais raiva, porque eu não queria dar a ele nem o prazer de perceber que tinha me afetado. — Porque eu mandei. — Isso eu já sei. Quero saber por quê. Mauro caminhou até a mesa, apoiou as mãos sobre ela e se inclinou um pouco. O perfume dele chegou antes da resposta. Era bom, claro. Amadeirado, caro, limpo, com alguma coisa quente no fundo. Fiquei com raiva até do cheiro. Quem é que tinha cheiro de homem perigoso em plena oito da manhã? — Porque você é a única mulher nesta empresa que olha para mim como se eu fosse uma pessoa normal. Fiquei em silêncio. Depois soltei uma risada curta. — Sério? — Muito sério. — Então eu fui promovida porque não babo pelo senhor? — Pelo visto, sim. — Isso é meio patético. Dessa vez, ele sorriu de verdade. E eu odiei, porque aquele sorriso não era de executivo arrogante, não exatamente. Era quase divertido. Quase humano. E isso era pior. Mauro foi até uma porta lateral que eu nem tinha percebido e colocou a mão na maçaneta. — Venha comigo. — Para onde? Ele abriu a porta e olhou para mim. — Vou te mostrar o verdadeiro motivo da sua promoção.A antiga torre da Noir estava quase vazia.Não abandonada, não destruída, não cinematográfica o bastante para satisfazer quem gosta de ruína bonita. Apenas esvaziada. O letreiro luminoso tinha sido retirado, as vitrines estavam cobertas por tapumes discretos, e o hall principal, onde antes o cheiro da marca tentava convencer todo mundo de que luxo era destino, agora cheirava a pano úmido e tinta fresca.O lugar onde tudo começou errado. Eu sabia exatamente qual era. Não fui ao laboratório, nem à presidência, nem à sala de conselho. Fui à antessala do andar executivo, aquela em que Mauro me observou pela primeira vez tentando entender por que eu não reagia ao perfume dele. Na época, eu era funcionária comum demais para aquele andar, e ele era arrogante demais para admitir que não saber me controlar tinha virado curiosidade antes de virar desejo.A porta estava aberta. Mauro estava lá dentro. Sem terno. Sem gravata. Sem perfume perceptível. Usava camisa escura simples, mangas dobradas,
Os flashes explodiram antes que eu conseguisse decidir se voltava para dentro.Do lado de fora da Noir, havia repórteres, curiosos, funcionários fingindo que não eram curiosos, seguranças tentando parecer úteis e celulares levantados em todos os ângulos. Meu nome vinha de bocas diferentes ao mesmo tempo, cada uma tentando me puxar para uma versão mais vendável de mim.— Nathalia, você era amante de Mauro Ventura?— Você sabia do perfume?— É verdade que você é imune?— Você derrubou a Noir por vingança?A última pergunta quase me fez rir. Vingança. Como se eu tivesse acordado um dia, colocado uma roupa qualquer e decidido destruir um império entre o almoço e o expediente. Como se não tivesse sido o império a me escolher primeiro, me cercar, me cheirar, me catalogar e depois se ofender porque eu ainda respirava sem pedir autorização.Parei no primeiro degrau da entrada. Um segurança tentou abrir caminho, mas levantei a mão. Não para dar entrevista bonita. Só para não sair correndo como
“A amante que derrubou o império Ventura.”A legenda ficou na tela do celular de Larissa como uma cusparada elegante. Eu li uma vez, depois outra, esperando sentir raiva do tamanho certo, mas o que veio primeiro foi cansaço. Um cansaço antigo, quase sem surpresa. Depois de tudo que eu tinha dito, depois de maleta com meu nome, crachá falso, mulheres dopadas, Helena viva, Mauro criança usado como parâmetro e Marisa tentando transformar trauma em método, o mundo lá fora tinha encontrado a palavra mais fácil.Amante.Claro.Era mais simples do que imune. Mais vendável do que vítima. Mais picante do que testemunha. Mais confortável do que admitir que uma empresa inteira tinha tratado mulheres como matéria-prima.Larissa percebeu minha cara e abaixou o celular.— Eu não devia ter mostrado.— Devia. Melhor ver a facada vindo do que fingir que é brisa.Mauro pegou o celular da mão dela antes que eu impedisse. Leu a manchete, e a expressão dele mudou. Não foi culpa bonita, nem tristeza polida
O vidro quebrou dentro da caixa de contenção.Não houve explosão, nem luz bonita, nem aquele tipo de silêncio sagrado que as pessoas inventam depois para transformar escolha difícil em cena perfeita. Houve um estalo seco, pequeno demais para o tamanho daquilo tudo. A última fração estável do Relux se espalhou no fundo metálico da caixa, azul por dois segundos, depois escura, feia, quase comum.Marisa gritou como se tivéssemos quebrado um osso dela.— Suas idiotas!Foi a primeira vez que ela nos chamou de alguma coisa sem disfarce técnico. Não éramos origem, imune, resposta resistente ou linhagem afetiva. Éramos idiotas. Duas mulheres que tinham feito a ciência dela sangrar fora do vocabulário bonito.Helena soltou o caco antes de se cortar. Eu também. Beatriz fechou a tampa da caixa de contenção com força, e o técnico externo travou o lacre. Tudo muito rápido, muito prático, quase ofensivo para Marisa, que parecia esperar um ritual mais digno para o fim da própria obsessão.Mauro cont





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