Mundo ficciónIniciar sesiónCaio Ferraz vive sob os holofotes. Ídolo do futebol, acostumado a jogos difíceis e decisões rápidas, ele sempre teve controle sobre tudo dentro e fora de campo. Até uma única noite mudar tudo. Meses depois de um encontro inesperado com uma mulher que ele nunca conseguiu esquecer, o destino os coloca frente a frente novamente. Amanda Duarte não pretendia vê-lo outra vez. Muito menos contar o segredo que carrega. Mas quando Caio descobre que o filho que ela está esperando é dele, o mundo perfeitamente organizado que ele construiu começa a ruir. Agora, presos por algo muito maior que desejo, eles precisam aprender a conviver… mesmo com tudo o que não foi dito. Porque o problema não é só o bebê. É que aquela noite nunca realmente terminou.
Leer másCAIO
O estádio inteiro gritava eufórico. Oitenta mil pessoas presentes. Lotação máxima do estádio.
Luzes atravessando a fumaça branca perto do túnel de entrada, bandeiras balançando nas arquibancadas e celulares iluminando a noite como estrelas espalhadas no escuro. O telão exibiu meu rosto em câmera lenta enquanto o narrador praticamente berrava:
— CAAAAAIO FERRAAAAAZ! O nosso camisa 10.
A torcida explodiu.
Ergui o braço automaticamente, apontando para as arquibancadas enquanto caminhava para o gramado. A adrenalina. A pressão. O barulho. A sensação absurda de entrar em campo sabendo que milhares de pessoas esperavam alguma coisa de mim.
Um gol.
Uma jogada.
Um milagre.
Às vezes eu achava engraçado a forma como as pessoas enxergavam os jogadores de futebol. Era como se a gente fosse feito de aço ou como se o dinheiro tornasse alguém invencível.
Mas o futebol também podia ser muito cruel.
Um dia você era ídolo. No outro, poderia acabar sendo manchete de um fracasso.
Eu aprendi desde cedo que precisava ser bom o tempo inteiro. Não podia existir pausa, nem fraqueza.
— Hoje tu tá com cara de quem vai acabar com o jogo — Murilo falou do meu lado enquanto eu ajeitava a braçadeira de capitão no braço.
Soltei uma risada curta.
— E vou.
— Filho da puta convencido.
— Convencido não. Realista.
Ele gargalhou enquanto entrávamos em campo. O técnico gritava alguma última instrução atrás da gente, mas eu já não escutava mais nada. Quando eu pisava naquele gramado, era como se o resto do mundo desaparecesse.
Sempre desaparecia.
O juiz apitou.
E foi exatamente o que aconteceu.
Nos primeiros minutos, meu corpo entrou naquele automático perfeito que só os jogadores entendem. Tudo acontecia rápido demais: corrida, marcação, passe e a movimentação. Meu coração acelerava junto com o jogo.
Recebi uma bola perto da lateral e puxei para o meio, deixando o marcador pra trás antes de tocar para Murilo.
A torcida se levantou.
Mais um passe. Mais velocidade. Mais pressão.
Aquilo era meu vício.
Talvez sempre tivesse sido porque o futebol foi o que salvou minha vida. Literalmente. Sem ele, eu provavelmente teria acabado igual metade dos caras que cresceram comigo: trabalhando em qualquer emprego comum ou morto antes dos vinte.
Em vez disso, eu estava ali.
Camisa dez.
Capitão do time.
O jogador mais caro do campeonato.Aos vinte e sete minutos do primeiro tempo, veio o gol.
Murilo cruzou na área, matei no peito e girei antes do zagueiro chegar. Bati de esquerda e a bola foi parar dentro da rede.
O estádio veio abaixo. O som da torcida explodiu tão forte que senti o peito vibrar enquanto corria em direção à lateral. Meus companheiros vieram pra cima de mim gritando e eu apenas ri, deixando a adrenalina tomar conta.
Aquilo.
Aquilo fazia tudo valer a pena.
Porque naquele instante eu me sentia invencível.
Quando o primeiro tempo terminou, estávamos ganhando de dois a zero. O que era bom e deixava o time um pouco mais tranquilo.
Entramos no vestiário sob aplausos e comemorações enquanto o técnico começava a falar sobre intensidade e movimentação defensiva. Joguei uma toalha nos ombros e sentei no banco ainda tentando recuperar o fôlego.
— Você tá impossível hoje, meu irmão — Murilo comentou abrindo uma garrafa de isotônico. — Os caras não tão conseguindo te parar.
— Porque eles são lentos demais.
— Ou porque tu é arrogante pra caralho.
— Pode ser também.
Os outros companheiros de time riram.
Passei a mão no cabelo molhado de suor enquanto escutava metade do discurso do treinador. Meu joelho esquerdo latejava levemente, mas isso já era mais do que normal. No fim da temporada, praticamente todo jogador vive no limite entre jogar lesionado ou descansar. E descansar nunca era uma opção. Não quando o campeonato estava tão apertado.
Voltamos para o segundo tempo sob o mesmo barulho ensurdecedor. O adversário veio mais agressivo e então as faltas começaram. Empurrões. Carrinhos. Provocações.
Jogo grande sempre acabava virando uma guerra.
Aos quinze minutos, recebi uma bola perto da entrada da área e arranquei em velocidade. O zagueiro veio atrasado na dividida. Só senti o impacto forte e a dor no meu tornozelo veio antes mesmo de eu cair no chão. A dor atravessou minha perna inteira como uma descarga elétrica.
— CARALHO! — gritei automaticamente.
O estádio inteiro fez aquele som coletivo de susto enquanto eu permanecia caído segurando minha perna.
Inspira.
Expira
Respira.
Mas a dor piorava cada vez que eu tentava mover o pé.
Merda.
Vi os médicos entrarem em campo e virem correndo em minha direção enquanto Murilo se aproximava.
— Tá doendo muito, irmão?
— Pra caralho.
Fechei os olhos por um segundo enquanto o médico apertava meu tornozelo. Quase dei um soco nele.
— Calma, calma… — Ele falou. — Pode ter sido só uma torção.
Só.
Porque uma torção na final do campeonato era praticamente um presente que ninguém queria receber. Ainda tínhamos umas três partidas pela frente e eu, com certeza, ficaria de fora.
A torcida começou a vaiar o jogador que me acertou enquanto eu era ajudado a levantar. Tentei apoiar o pé no chão, mas foi um erro gigantesco. A dor fez minha visão escurecer por meio segundo.
— É melhor não forçar — o médico avisou.
Passei o braço pelos ombros dele e de Murilo enquanto me levavam em direção ao túnel. O barulho da torcida ia ficando cada vez mais distante.
E eu já conseguia imaginar as manchetes nos jornais do dia seguinte.
“Caio Ferraz preocupa após lesão.”
“Será que o craque vai se recuperar da lesão.”
“Lesão do camisa 10 preocupa a todos.”
Exatamente tudo o que eu precisava.
No vestiário, fizeram os primeiros atendimentos rápidos. Gelo, compressão e anti-inflamatório. Eu estava irritado demais pra conversar.
— Melhor levar pro hospital e fazer imagem agora — o médico falou. — Só pra garantir.
Bufei.
— Tá achando que quebrou?
— Acho que você vale milhões pro clube e ninguém quer correr risco.
Engraçadinho.
Quarenta minutos depois, eu estava sentado numa cadeira de rodas num hospital particular cercado por segurança enquanto uma enfermeira preenchia ficha médica.
Humilhante.
— O senhor consegue mexer os dedos? — ela perguntou.
— Consigo.
— Ótimo.
Nada parecia ótimo naquela noite. Passei a mão no rosto cansado enquanto esperava a radiografia. Hospitais sempre tinham o mesmo cheiro de antisséptico.
O resultado do exame saiu quase uma hora depois. Nada quebrado. Só uma torção forte.
— Vai precisar de fisioterapia intensiva essa semana — o médico explicou mostrando a radiografia. — Se responder bem, talvez consiga jogar o clássico.
Talvez.
A palavra que todo atleta odiava.
Saí do hospital perto de duas da manhã mancando e de péssimo humor. No caminho pra casa, meu celular não parava de vibrar: empresário, assessoria, jornalistas e até a minha mãe. Ignorei todos. Eu só queria dormir.
Cheguei na cobertura exausto. Joguei as chaves no aparador e fui direto para o quarto. Meu tornozelo latejava no ritmo da minha irritação.
Futebol podia ser uma merda às vezes. As pessoas viam glamour, mas ninguém via a dor e o medo. Porque todo jogador sabia que bastava uma lesão errada pra tudo mudar.
Anos atrás, aquilo teria parecido um sonho, agora, parecia só… cansativo.
Fui dormir tarde e acordei pior ainda. Graças ao remédio, a dor estava um pouco mais suportável, mas o inchaço continuava. Depois de um banho rápido, coloquei um moletom, boné e segui pro CT ainda mal-humorado.
O centro de treinamento parecia mais movimentado do que o normal quando cheguei. Havia funcionários andando de um lado pro outro, a comissão técnica no campo, os jogadores da base estavam correndo perto do estacionamento.
Passei direto pela recepção enquanto alguns funcionários me cumprimentavam.
— Bom dia, craque.
— Fala, Caio.
Acenei sem muita animação, afinal, meu humor antes das dez da manhã era um problema de conhecimento de todos naquele clube.
Entrei no corredor do departamento médico sentindo o cheiro característico de álcool e pomada muscular.
— Nosso menino tá vivo — Murilo falou ao me ver.
— Pela metade.
— Drama do caralho pra uma torçãozinha.
Mostrei o dedo do meio e ele gargalhou.
— A nova fisioterapeuta chegou hoje — comentou um dos preparadores ao lado. — Veio de um time lá de São Paulo. Dizem que ela é muito boa.
— Tomara que faça milagre com esse aí — Murilo respondeu apontando pra mim.
Tentei ignorar os dois até que a porta se abriu no fim do corredor e então uma voz feminina perguntou:
— Quem é o primeiro atendimento?
Meu corpo congelou.
Aquela voz.
Meu coração pareceu errar a batida.
Não era possível.
Virei o rosto devagar na direção da porta e o ar simplesmente sumiu dos meus pulmões.
Era a garota daquela noite.
AMANDANão consegui dormir.Mesmo depois de chegar ao apartamento da minha mãe, tomar um banho quente e garantir três vezes que ela realmente estava bem, o sono simplesmente não veio.Meu corpo estava exausto.Minha mente, não.Enquanto minha mãe dormia no quarto ao lado, fiquei sentada na varanda com uma caneca de chá já frio entre as mãos.A cidade estava silenciosa.Pela primeira vez em meses, eu me permiti pensar no futuro.E foi exatamente esse o problema.Porque, até então, eu vivia um dia de cada vez.Escondia a gravidez.Trabalhava.Voltava para casa.Ia às consultas.Repetia tudo outra vez.Agora...Caio fazia parte da minha rotina.E isso mudava completamente as regras.Levei a mão à barriga.O bebê deu um movimento tão leve que, por um instante, achei que fosse apenas impressão.Sorri automaticamente.— Você escolheu uma hora curiosa para aparecer...Murmurei.As lágrimas vieram sem que eu percebesse.— Seu pai é um idiota...Ri baixinho.— Um idiota bonito.Gentil.Engraça
CAIOFiquei parado no corredor enquanto Amanda entrava no quarto da mãe.A porta permaneceu entreaberta.Não o suficiente para ouvir a conversa.Só o bastante para enxergar, de vez em quando, o sorriso aliviado das duas.Respirei fundo.Pela primeira vez desde que ela entrou correndo no meu carro, senti meu peito aliviar.A mãe dela estava bem.Era isso que importava.Uma enfermeira passou ao meu lado empurrando uma maca, e aproveitei para me afastar um pouco da porta. Não queria que Amanda pensasse que eu estava tentando escutar alguma coisa.Encostei na parede do corredor e tirei o celular do bolso.Havia mais de vinte mensagens.O treinador perguntando como tinha sido a ação beneficente.Murilo enviando uma foto minha cercado pelas crianças com a legenda:"Papai do ano."Revirei os olhos e ri sozinho.Digitei uma única resposta."Idiota."A resposta chegou quase instantaneamente."Leva a fisioterapeuta para jantar logo e para de enrolar."Balancei a cabeça.Aquele cara realmente nã
AMANDAMeu coração parecia querer escapar pela garganta.Eu mal conseguia prender o cinto de segurança.As mãos tremiam tanto que precisei tentar duas vezes.Caio percebeu.Sem dizer nada, inclinou-se na minha direção.— Posso?Assenti.Ele puxou o cinto com cuidado e o encaixou no fecho antes de fechar a porta do carro.Um gesto simples.Mas feito com tanta delicadeza que meus olhos arderam.Ele deu a volta pelo capô, entrou no banco do motorista e ligou o carro.— Para onde?Respirei fundo.— Hospital Santa Helena.Assim que saímos do estacionamento, peguei o celular e liguei para minha mãe.Chamou.Chamou de novo.Nada.Minha ansiedade aumentou.— Atende...Murmurei.Caio olhou rapidamente para mim antes de voltar a atenção para a rua.— Ela mora sozinha?Assenti.— Desde que meu pai morreu.— O que aconteceu?Balancei a cabeça.— Não sei direito.Ela só disse que estava passando mal.A ligação caiu.Meu peito apertou.— Ela parecia assustada.Caio aumentou um pouco a velocidade, s
CAIOA volta para o centro de treinamento foi muito mais silenciosa do que a ida.A maioria dos jogadores dormia no ônibus, exausta depois de passar horas correndo atrás de crianças que pareciam ter energia infinita.Murilo ocupava duas poltronas mais à frente, completamente apagado, com a cabeça encostada na janela.Lucas respondia mensagens no celular.E Amanda...Amanda estava sentada na fileira ao meu lado, do outro lado do corredor.O rosto apoiado na janela.Os olhos perdidos na paisagem que passava.Ela parecia cansada.Muito mais do que deveria.Durante o evento, vi várias vezes ela levar discretamente a mão às costas, como se tentasse aliviar algum incômodo.Também percebi que quase não almoçou.Enquanto todo mundo repetia o prato, ela mal terminou metade da refeição.Aquilo voltou a me preocupar.Quando o ônibus parou em um semáforo, tomei coragem.— Amanda.Ela virou lentamente a cabeça.— Oi?— Posso fazer uma pergunta?Ela sorriu de canto.— Você pergunta isso antes de to





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