CAPÍTULO 7

O problema da Alessandra não era só ela estar ficando com Mauro. Quer dizer, era também. Eu não era santa. Tinha visto os dois naquela situação ridícula, dentro da sala dele, e alguma coisa em mim tinha queimado de um jeito que eu não queria admitir nem sob ameaça. Mas a parte que doía de verdade era outra: ela era minha amiga e tinha escondido aquilo por quase um ano.

— Amiga, precisamos conversar sobre isso — ela disse, toda desajeitada, enquanto eu pegava minha bolsa.

— Eu vim só buscar minhas coisas. Com licença. Não quis atrapalhar.

Saí o mais rápido que consegui. Alessandra veio atrás de mim pelo corredor, tentando acompanhar meu passo.

— Eu devia ter te contado.

Parei e virei para ela.

— Ter contado? Então essa não foi a primeira vez?

Ela mordeu o lábio, culpada demais para conseguir mentir direito.

— Não.

— Ótimo.

— A gente está tendo um caso.

Fiquei olhando para ela, tentando decidir se ria, se xingava ou se fingia que aquela frase não tinha batido em mim.

— Há quanto tempo?

— Onze meses.

— Onze?

— Esse mês fez onze.

Eu respirei fundo. Onze meses. Quase um ano. Quase um ano dela me ouvindo reclamar do Mauro, do efeito que ele causava na empresa, da arrogância dele, das mulheres babando em volta, e em nenhum momento achou importante dizer que também era uma delas.

— Mas é só ficando, né? — perguntei.

— Por enquanto, sim — ela respondeu, e os olhos dela brilharam de um jeito triste. — Mas eu sinto que ele me quer de verdade. Acho que quando fizer um ano ele vai assumir alguma coisa.

Na hora, eu não soube dizer se aquela esperança era dela ou do Relux falando por ela. Talvez os dois. Talvez Mauro tivesse criado um perfume para despertar desejo e, junto com isso, um monte de ilusão de brinde.

— Alessandra, ele te disse isso?

— Não exatamente.

— Então cuidado.

Ela fechou a cara.

— Agora você vai me dar conselho?

— Alguém precisa.

Nos despedimos com aquela promessa falsa de continuar a conversa depois. Falsa porque nenhuma das duas queria continuar. Ela queria acreditar no romance dela. Eu queria fingir que não me importava.

No dia seguinte, preparei-me para ouvir algum comentário de Mauro. Uma explicação, uma desculpa, qualquer coisa minimamente adulta. Mas ele não falou nada. Pior: parecia mais confiante, como se eu ter visto aquela cena tivesse aumentado a autoestima dele. Ridículo. Homem cafajeste ainda acha que flagrante é currículo.

No meio da manhã, ele apareceu na minha mesa com um tom quase casual.

— Você janta comigo hoje?

Levantei os olhos devagar.

— Como é?

— Um jantar. Sem Relux, sem teste, sem laboratório. Como pessoas normais.

— Pessoas normais não convidam a assistente para jantar depois de serem flagradas com a amiga dela em cima da mesa.

Ele respirou fundo.

— Eu não tenho compromisso com a Alessandra.

— Mas ela acha que tem futuro com você.

— Eu sempre deixei claro que era casual.

— Claro. Porque homem adora achar que “eu avisei” absolve qualquer merda.

Ele ficou sério.

— Com você é diferente.

Eu ri. Não uma risada bonita. Uma risada de deboche mesmo.

— Diferente porque eu disse não?

— Diferente porque eu sinto coisas que não senti antes.

— Isso se chama rejeição. Só é novo para você.

Mauro me encarou, e por um segundo achei que ele fosse mandar eu baixar o tom de novo. Mas não mandou. Só ficou ali, me olhando como se eu tivesse acertado alguma coisa no centro dele.

— Aceita. Um jantar. Sem compromisso.

— Não quero.

A decepção passou pelo rosto dele rápido. Depois ele voltou ao modo chefe. Sério, formal, quase frio. Sinceramente, eu preferia assim. Ao menos dava para trabalhar de verdade e aprender alguma coisa naquele cargo, em vez de viver dentro da crise existencial aromática do herdeiro da Noir.

O dia foi quase normal. Mexi em planilhas, organizei agenda, respondi e-mails, acompanhei reunião. Mauro não falou do perfume, não falou de jantar, não falou da Alessandra. Só havia um problema: de vez em quando, a imagem dele daquele dia voltava à minha cabeça. Não a cena inteira. Só ele, desalinhado, pele quente, cabelo bagunçado, aquela presença absurda que parecia ocupar mais espaço do que deveria. Eu expulsava a lembrança, ela voltava. Expulsava de novo, voltava pior.

Não era tesão. Não podia ser. Tesão pelo Mauro? Aquele babaca inseguro com complexo de deus perfumado? Eu só precisava beijar alguém normal. Era isso. Meus hormônios estavam fazendo protesto.

Alguns dias se passaram nesse quase equilíbrio. Mauro trabalhando como chefe. Eu fingindo que não reparava nele. Alessandra fingindo que estava tudo bem. A empresa fingindo que não comentava cada respiração nossa.

Até que, numa manhã, cheguei ao meu novo posto e encontrei um “presente” em cima da mesa. Não era bilhete elegante, flor ou caixa de chocolate. Era um cartaz colado no vidro, com letras grossas e tortas:

“VADIA VIGARISTA.”

Fiquei parada, sem entender. O sangue subiu para o rosto, depois desapareceu. Olhei em volta. Ninguém parecia saber de nada, ou todo mundo fingia bem demais.

Fui até Larissa, na recepção.

— Você viu quem deixou isso na minha mesa?

Ela arregalou os olhos ao ler.

— Meu Deus. Não. Eu juro que não vi.

Parecia sincera. Ou assustada. Talvez os dois.

Voltei para a mesa tentando entender quem, naquela empresa, me odiava o suficiente para fazer aquilo. Eu não tinha inimigos. Pelo menos não declarados.

Foi quando Mauro apareceu, segurando uma pasta preta e com aquela expressão de quem vinha anunciar mais uma loucura.

— Tenho uma proposta irrecusável para você.

Olhei para o cartaz, depois para ele.

— Se envolver perfume, eu jogo essa pasta na sua cara.

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