Mundo ficciónIniciar sesiónCheguei na sala dele às oito em ponto no que seria o meu primeiro dia como assistente pessoal. O que eu não esperava era que, ao invés de me explicar as minhas atribuições na nova função, ele já estaria lá, com um frasco do tal Relux em cima da mesa dele, provavelmente para fazer um outro tipo de teste.
-Olha aqui, doutor Mauro...
-Mauro, por favor…
-Olha aqui, DOUTOR Mauro, eu não aceitei esse emprego para servir de cobaia para…
-Ei, ei, baixe o seu tom. Quem você tá pensando que é? O chefe aqui sou eu!
Fiquei surpresa com a resposta daquele insuportável. Eu achei que ele estivesse caidinho por mim, comendo nas minhas mãos. Pelo visto, eu estava enganada.
-Você quer ou não quer esse emprego, essa oportunidade que eu estou te dando?
-Claro que eu quero... mas tudo tem um limite - respondi.
-O que é que estou pedindo demais? Você tá se achando muito, só porque é, aparentemente, “imune” ao meu perfume. Mas você não deve ser “imune” coisa nenhuma. Alguma peça ainda falta encaixar. Eu vou descobrir o que é que está acontecendo. Podemos pôr a mão na massa agora?
Eu não esperava aquela reação dele. Deu vontade de recusar aquela porra daquela nova função, mas eu não podia perder aquela oportunidade. Nunca mais teria uma chance assim, então eu precisava aceitar. Mas, e se eu arriscasse e me impusesse mais? Bom, concluí que não queria pagar pra ver.
Mauro pegou um frasco pequeno, genérico, contendo uma formulação diferente do perfume Relux que ele usava habitualmente. Aparentemente, ele tinha tentado alguma variação da fragrância para ver se o “erro” teria sido consertado.
- E então? - ele disse, com aquela avidez que eu já conheci na primeira tentativa.
- Nada - respondi seca, mas tentando não ultrapassar o limite da civilidade.
Ele bufou, decepcionado, e deu um soco na mesa. Eu nunca tinha visto ele perder as estribeiras assim. Ele sentou-se e lançou um olhar penetrante em direção aos meus olhos. Dessa vez, parecia que ele ultrapassava a superfície e tentava me ler em profundidade, como se quisesse enxergar minha alma. Fiquei totalmente desconcertada e desviei o olhar algumas vezes.
- Você já fez avaliação psiquiátrica, psicológica? - ele perguntou.
Eu não acreditava no que ele estava perguntando. Era o fim da picada. Ele estava realmente ficando louco.
- Nunca fiz. Nunca precisei - respondi, irritada.
- E um check up geral? Como estão seus hormônios?
- Tem um tempinho que não faço.
- Pois é o que vamos fazer. Vou trazer os melhores profissionais aqui para te avaliar e mandar coletar seu sangue. Deixa só eu fazer umas ligações.
Umas duas horas depois, o psiquiatra apareceu. Segundo Mauro, era um dos melhores do país. A tiracolo, veio um psicólogo, também renomado. Passei por uma longa e exaustiva “entrevista”, fiz uns testes neuropsicológicos, respondi questionários... Tudo acabou só no final do dia. Foi maçante. A coleta do sangue, pelo menos, foi algo rápido. Eu só topei tudo aquilo porque, alguma hora, o Mauro ia aceitar que ele não era unânime e bola pra frente, para finalmente podermos trabalhar na nossa real função na empresa.
No dia seguinte, os resultados já estavam na mesa do Mauro:
- Tudo normal - ele disse, decepcionado, como se estivesse torcendo para que eu tivesse algum distúrbio psiquiátrico grave que justificasse a falha do perfume.
- Como eu imaginava… - respondi, seca.
- Eu não entendo. Não é possível.
- Doutor Mauro…
- Mauro, por favor.
- Mauro, até os melhores medicamentos não conseguem 100% de eficácia. É normal. Deve ter mais gente por aí que não é afetada pelo seu perfume.
- Eu criei o Relux há 10 anos e nunca conheci uma mulher que não fosse afetada por ele. E olha que eu já fiquei com muitas, de perder as contas.
- Tudo tem uma primeira vez.
- Eu já sei o que faremos!







