Mundo ficciónIniciar sesiónEu devia ter ido embora. Esse foi meu primeiro pensamento quando Mauro abriu aquela porta e me chamou para entrar. Mas fui. Porque eu precisava daquele emprego, porque a promoção aumentaria meu salário e porque, no fundo, eu também queria entender que palhaçada era aquela de eu ter sido escolhida por não olhar para ele como uma idiota apaixonada.
A primeira sala parecia um museu particular da Noir. Havia frascos de perfume expostos em totens iluminados, cada um com uma plaquinha indicando nome, ano e composição. Alguns eram antigos, de linhas que eu lembrava vagamente de comerciais da minha infância. Outros pareciam tão caros que dava medo até de respirar perto. — Isso aqui não é aberto ao público — ele disse. — Percebi. Pobre não pisa em lugar assim. Ele me olhou. — Você sempre responde desse jeito? — Só quando estou desconfortável. — E está? — Um pouco. Fui promovida sem explicação, trazida para uma sala escondida e ainda não sei se isso aqui é treinamento ou seita. Mauro riu baixo. Pelo menos senso de humor o insuportável tinha. — É uma tradição da família. Meu pai começou esse acervo. Eu mantive. — Muito bonito. — Mas não te trouxe aqui para ver frascos antigos. Claro que não. Nada podia ser simples. Ele atravessou a sala e abriu outra porta. Assim que entrei, parei. Dessa vez, o ambiente não tinha nada de museu. Parecia um quarto de motel caro e cafona ao mesmo tempo. Luz baixa, sofá enorme, cama redonda, espelhos demais. Tudo ali era íntimo demais para uma conversa profissional. — Com todo respeito, doutor Mauro, eu não sou uma dessas mulheres com quem o senhor costuma se divertir. Ele arregalou os olhos. — O quê? Não. Não é isso. — Tem certeza? Porque o cenário não ajuda. — Eu sei que parece estranho. — Estranho é pouco. Isso aqui grita processo trabalhista. Ele respirou fundo. — Só espera. — É o tipo de frase que geralmente antecede uma merda. Mauro foi até um armário embutido e tirou um frasco pequeno, escuro e elegante. Tinha a marca da Noir, mas eu nunca tinha visto aquele modelo em loja nenhuma. Ele segurou o frasco como se aquilo fosse uma relíquia. Ou uma arma. Naquele quarto, honestamente, dava para ser qualquer um dos dois. — Esse é o Relux. — Nunca ouvi falar. — Porque nunca foi lançado. — Linha nova? — Não. — Teste de mercado? — Também não. Ele respirou fundo antes de continuar. — Esse perfume foi criado para uso exclusivo meu. Olhei para ele. — Claro que foi. — O que isso quer dizer? — Nada. Só combina com você ter um perfume que ninguém mais no mundo pode usar. Ele ignorou a provocação, mas percebi a mandíbula dele mexer de leve. — Pouquíssimas pessoas sabem da existência dele. E eu preciso que continue assim. A conversa estava ficando cada vez mais absurda. Eu já tinha passado da fase de achar que aquilo era uma promoção estranha. Agora parecia mesmo que eu tinha sido jogada dentro de uma loucura de rico. — Tá. E o que eu tenho a ver com o perfume secreto do dono da empresa? Mauro apoiou o frasco sobre uma bancada e ficou sério. Pela primeira vez desde que eu tinha entrado naquela sala, ele pareceu menos arrogante e mais perturbado. Homem bonito arrogante era fácil de odiar. Homem bonito perturbado começava a virar problema. — A Noir sempre pesquisou fragrâncias capazes de mexer com atração — ele disse. — Feromônios? — Algo nessa linha. Eu quase ri, mas ele continuava sério demais. Esse era o pior. Se estivesse brincando, eu teria rido e ido embora. Mas não. Mauro Ventura estava parado na minha frente tentando me convencer de que tinha um perfume capaz de mexer com o desejo das mulheres. — O Relux é a versão mais forte. Foi criado para despertar atração imediata. Fiquei olhando para ele, esperando a parte em que ele diria que era brincadeira. Ela não veio. — Você está me dizendo que criou um perfume para fazer mulher se interessar por você? — Estou dizendo que ele funciona. — Isso é ridículo. — Funciona — ele repetiu, mais firme. — Ou você é só bonito e cercado de mulheres que querem agradar o chefe bilionário. O maxilar dele tensionou. — Eu sei reconhecer o efeito. — Ah, claro. O especialista mundial em olhar feminino. — Todas mudam — ele me interrompeu. — Todas. Sem exceção. Até você aparecer. Franzi a testa. — Como assim? — Eu tenho ido ao seu setor nas últimas semanas. Usei o Relux todas as vezes. E todas as mulheres reagiram. Menos você. Senti um frio estranho na barriga. — Então foi por isso que me chamou? — Sim. — Não pelas minhas competências? — Não inicialmente. — Que ótimo. Sempre sonhei em ser promovida por decepcionar o ego de um homem. — Não é sobre ego. — Parece bastante sobre ego. Ele se aproximou um pouco. Não o suficiente para me tocar, mas perto o bastante para eu sentir o perfume dele. Era bom, claro. Amadeirado, quente, caro, com alguma coisa que parecia ficar no ar depois que ele respirava. Mas era só isso. Um perfume bom. Nada mais. Pelo menos era o que eu repetia para mim enquanto tentava não reparar na boca dele. — Eu preciso entender por que você é imune. A palavra me incomodou. — Imune? — É o termo mais próximo. — Ou talvez seu perfume milagroso seja uma fraude. — Não é. — Como você sabe? Ele pegou o frasco novamente. — Porque eu já testei vezes demais para estar errado. Revirei os olhos. — Parabéns pela estatística. Mauro ignorou. — Posso testar agora? Olhei para a cama redonda, para a luz baixa, para os espelhos, para o frasco na mão dele e depois para a porta atrás de mim. — Testar como? — Só vou borrifar o perfume. Nada mais. — E se eu disser não? — Você continua com a promoção. Não vou te obrigar. Aquilo me surpreendeu. Eu esperava chantagem, pressão, alguma frase de chefe babaca. Mas ele só ficou ali, esperando. Pensei no salário novo. Pensei nas contas atrasadas. Pensei que, no fim das contas, era só um perfume. — Tá — respondi. — Pode testar. Mas se você tentar qualquer gracinha, eu grito. — Não vou tentar nada. — Homem dizendo isso nesse quarto é sempre uma promessa fraca. A boca dele quase sorriu, mas ele se controlou. Mauro borrifou o Relux no próprio pescoço, nos pulsos, na camisa e depois no ar entre nós. O cheiro tomou a sala. Forte, elegante, quente. Quente demais. Ele ficou me encarando, como se esperasse meu corpo denunciar alguma coisa antes da minha boca. Eu encarei de volta. Nada aconteceu. Ou quase nada. Não veio desejo súbito, nem vontade de me jogar em cima dele, nem alteração divina no meu corpo. Só aquele perfume cercando tudo e Mauro perto demais, bonito demais, me olhando como se eu fosse uma resposta que ele precisava abrir à força. — E então? — ele perguntou. — Então o quê? — O que você sente? Olhei para ele, para o frasco, depois de novo para ele. — Sinto que você gastou muito dinheiro à toa. O rosto de Mauro perdeu a cor. E, naquele segundo, eu entendi que minha promoção não era uma oportunidade. Era um problema.






