Mundo de ficçãoIniciar sessãoA sala dele era tão gigantesca que eu não tinha reparado na entrada que dava para uma outra sala. Essa outra sala parecia mais com um museu. Havia frascos de perfumes de linhas antigas da Noir, já descontinuadas, dispostos em totens independentes. Em cada totem, havia uma plaquinha indicando o nome do perfume, a composição do aroma e o ano de lançamento.
- Nossa, dout… Mauro. Eu não sabia disso aqui, é muito bacana. -É porque não é aberto ao público. Isso aqui é mais como uma tradição de família que eu tô só continuando. -Muito legal. -Mas eu não te trouxe aqui pra mostrar a exposição. Mauro me conduziu até uma outra porta que levava a uma outra sala. Dessa vez, não pude crer no que vi. A sala era uma espécie de quarto de motel: cama redonda, iluminação avermelhada, leds cafonas. -Com todo respeito, doutor Mauro, eu não sou uma dessas mulheres com quem o senhor fica. Eu estava perplexa. Era isso então: ele mandou me chamar porque deve ter se interessado por mim e agora ia aplicar o “teste do sofá”. -O que? Ah, não, não. Não é isso que você tá pensando. Espere. Ele foi até o armário e tirou o frasco de um perfume que, apesar de conter a marca da Noir, eu nunca tinha visto. Pelo design do frasco, não me parecia ser de alguma linha antiga. -Esse é o Relux. -Esse eu não conhecia. -É porque nunca foi lançado. -É uma linha nova? -Não. -Ah, tá em fase de teste então? -Também não. Esse perfume foi criado por mim, com ajuda da minha equipe, após muitas tentativas, muita pesquisa. - Eu não tô entendendo… - Ele foi criado pra uso único e exclusivo meu. Claro. Um cara arrogante como o Mauro só poderia fazer algo do tipo: uma coisa que só ele pudesse usufruir, porque ele era o bonzão, o maioral, o único da espécie. Obviamente não expus o que estava pensando. Eu precisava daquele emprego. - Ah, legal - foi o que eu consegui dizer. - O que eu vou contar muita pouca gente sabe, mas eu preciso entender. E, por favor, não me julgue. "Esse bonde já partiu", pensei. Já o julgo por quatro anos, desde quando entrei na empresa. - Sabe a linha Narcisus? - Claro. É a mais famosa e mais vendida da Noir. -Ela tem feromônios, tanto na versão masculina quanto na feminina. Não existem estudos robustos sobre a eficácia disso, mas há alguns indicativos de que ajudam na conquista amorosa... -Mas as pessoas acreditam que sim. - Isso. E é o que importa. Agora, o Relux é a versão aperfeiçoada do Narcisus. Custou uma fortuna, mas digamos que é a kryptonita das mulheres. Ele tem cem por cento de eficácia, sem tirar nem pôr. Nunca houve uma mulher que tenha resistido ao efeito do Relux... Só podia ser brincadeira. Ele realmente queria que eu acreditasse nessa história de carochinha? Isso era impossível. -... até você aparecer. E foi por isso que eu te chamei aqui - ele completou. -Como assim? -Por que você acha que tenho aparecido com mais frequencia no seu setor? Eu não tinha me dado conta, mas era verdade. No último mês o Mauro tinha aparecido no setor de operações mais vezes do que ele já tinha aparecido o ano inteiro. -Por sua causa - ele completou. -Como assim? -O olhar. Eu já capto facilmente quando o olhar das mulheres muda no momento em que me aproximo delas. Todas sentem o efeito do perfume e o olhar se transforma. Claro que, antes do Relux eu já despertava interesse porque, modéstia parte, sei que sou bonito - ele concluiu com um sorriso carregado de malícia. Aquilo me irritou de uma forma... Como poderia alguém ser tão arrogante e mesmo assim as mulheres se interessarem? Eu realmente não conhecia nenhuma mulher que não o desejasse. Era bizarro. -Então eu a trouxe aqui para fazermos o teste, tirarmos a prova. Isso tem me incomodado muito. Eu sabia que haveria um teste. Não era o teste do sofá, mas aquilo tudo era muito bizarro. -E então? -Então o que? -Posso testar? -P… pode É cada situação que a gente se coloca por causa de dinheiro. Puta merda.






