Mundo ficciónIniciar sesiónFiquei até com medo do que seria essa pergunta que ele queria fazer, já que todos os olhares estavam em direção a nós. Rapidamente, sugeri a ele que conversássemos em particular.
- Não precisa, eu já tenho que voltar para o laboratório - ele respondeu
Eu estava aflita. Não sabia como explicar que eu estava morta de vergonha do que quer que ele pudesse falar ali. Mas não ia ter jeito, eu teria que encarar o possível constrangimento. Não preciso nem dizer que o meu ranço dele estava na estratosfera.
-Pois diga, doutor Mauro - falei de uma forma ligeiramente debochada pra tentar extravasar o meu constrangimento e minha raiva.
-Você já se apaixonou?
Eu esperava qualquer tipo de pergunta, menos essa. Como assim? O cara sai do laboratório, que fica em outro prédio anexo ao nosso, para vir me perguntar, esbaforido e na frente de todo mundo, se eu já tinha me apaixonado? Ele só podia estar enlouquecendo. O pior de tudo é que, pelo volume em que ele falou, deu pro setor inteiro ouvir. A expressão de surpresa e incredulidade dos meus colegas não negava.
Não consegui articular nenhuma palavra, tamanho o surrealismo daquela situação toda. Ao ver minha reação, Mauro completou:
-Eu só preciso saber isso. Porque pode ser que você não saiba o que é se apaixonar e talvez esteja apaixonada, mas não percebeu.
-O senhor me desculpe, mas…
-Senhor não.
Fiz questão de frisar o “senhor” em tom ainda mais alto. Quem esse homem pensava que ele era para vir até a minha mesa, na frente de todos os meus colegas, e perguntar se já tinha me apaixonado? Não dei essa intimidade a ele. Nós só tinhamos conversado uma vez, pelo amor de Deus! Com essa pergunta, ele ultrapassou a fronteira entre minha versão gentil e paciente (por causa da promoção) e minha versão puta e ácida.
-O SENHOR me desculpe, DOUTOR Mauro, mas isso é muito pessoal. Não me sinto à vontade para falar com O SENHOR sobre isso.
-Entendo. Tudo bem. Acho que passei do ponto mesmo. Me desculpe. Eu estou meio transtornado com essa situação toda. Não estou me reconhecendo.
As mulheres da sala alternavam os olhares de mim para o Mauro. Para mim, olhavam com uma mistura de surpresa e inveja. Para o Mauro, o mesmo olhar de desejo, paixão, obsessão, hipnose ou seja lá o que fosse aquilo. Vendo a interação das mulheres com o Mauro após saber dessa coisa toda do perfume, eu mudei o olhar sobre a situação. O cara estava praticamente forçando as mulheres a gostarem dele. Seria isso um tipo de assédio? Mas ao mesmo tempo, ele não estava forçando ninguém a nada. Na verdade, tudo era tão bizarro que eu não sabia o que pensar.
-Vou voltar ao laboratório. Amanhã na minha sala - concluiu Mauro.
Ele saiu e, assim que entrou no elevador e as portas se fecharam, umas cinco colegas do setor vieram me cercar, ávidas por informações.
-Como você fez isso? - perguntou a Alessandra.
-Eu nunca vi ele agir assim com ninguém - questionou Dalila, outra colega do setor.
Tive que me fazer de desentendida, porque o canalha do Mauro pediu segredo e, apesar de tudo, eu ainda precisava daquela oportunidade. Mas eu não iria mais ser a mocinha gentil e boazinha que apareceu lá na sala dele pela primeira vez. Não! Ele agora ia ter que lidar com minha versão debochada e impaciente. Era o que ele merecia. E eu não estava mais com medo de fazer isso. Era óbvio que ele estava comendo nas minhas mãos.







