Mundo de ficçãoIniciar sessãoEle borrifou o perfume generosamente pelo seu corpo todo, borrifou no ar e borrifou até em mim. Não havia como eu não sentir aquele cheiro marcante. Era um cheiro tipicamente de perfume masculino, com toque amadeirado, mas era isso… era apenas um cheiro bom.
– E então? – ele perguntou, claramente ávido pela resposta.
– Não sinto nada diferente. É muito boa a fragrância.
Mauro estava visivelmente incomodado. Ele tentou borrifar mais, na esperança vã de que algo acontecesse. Dava para perceber que ele fitava meus olhos em busca da tal mudança que ele tanto percebia no olhar das mulheres “atingidas” pelo efeito do perfume.
– Será que você não tem algum problema olfativo?
– Não que eu saiba. Na verdade, sou muito sensível a odores.
– Tem alguma coisa errada. Vamos fazer o seguinte, eu vou no laboratório, eu preciso averiguar isso, e você volta amanhã, já para começar a trabalhar comigo, ok?
Eu estava perplexa com aquilo. O cara tinha uma multinacional para dar conta e estava preocupado com o porquê de uma mulher não se jogar aos pés dele, devido a um perfume que ele sequer vendia. Alguém provavelmente devia pagar o pato fazendo o serviço que ele deveria estar fazendo. Um mimado mesmo.
– Mais uma coisa – ele disse, com a mandíbula tensionada.
– O que?
– Não comente com ninguém isso ainda.
– Isso o que?
– O fato de você não reagir.
Pobrezinho, o ego do macho estava ferido. Na verdade ele devia ter um ego muito frágil, porque era um cara absurdamente bonito, bilionário e ainda assim dependia de um perfume para se sentir capaz de conquistar as mulheres. Talvez ele nunca tivesse ouvido um não.
Voltei para o meu humilde andar, para a mesa que eu ainda precisava desfazer, e lá estava a Alessandra me esperando. Mas não era só a Alessandra que estava atenta. Todas as mulheres do setor olhavam para mim, com curiosidade.
– Alê, você por acaso comentou com alguém sobre a minha promoção?
– Eu não. Mas eu não era a única que sabia disso, né, amiga? O RH todo já sabe. E fofoca se espalha rápido.
Algo me dizia que a Alessandra estava mentindo. Ela era minha amiga, mas ela adorava uma fofoca. Não sabia manter a boca fechada.
– Mas e aí? Me conta. O que rolou lá? - ela perguntou.
– Não tô autorizada a contar, pelo menos por enquanto - respondi.
– Como assim? Você não vai contar nem pra mim?
– Não posso. Sinto muito.
– Eu achei que você confiasse em mim, que fossemos amigas.
Não esperava que a Alessandra fosse ficar tão chateada. Mas, de fato, eu não estava confiando muito que ela fosse manter segredo.
– Amiga, não é que eu não confie em você. A única coisa que não confio é na sua capacidade de manter o bico fechado. É maior do que você.
Posteriormente, descobri, da pior forma, que não era só na capacidade dela de manter segredo que eu não confiava, mas nela como pessoa, como amiga, como um todo. Contudo, até aquele momento, ela era minha amiga do coração. A decepção viria mais tarde.
Comecei a arrumar minhas coisas e fiquei distraída. Quando levantei a cabeça, tempos depois, percebi que os olhares direcionados a mim, antes de curiosidade, agora eram de julgamento. Eu não tinha feito a correlação, mas Alessandra tinha acabado de circular pela sala. No entanto, eu realmente não tinha visto nada demais, porque ela já costumava fazer isso. Ela tinha fama de fofoqueira no setor, mas todos gostavam dela. Eram só “fofocas do bem”, pelo menos até onde eu sabia. Mas só até aquele momento.
Em meio àqueles olhares desconcertantes, Mauro apareceu na sala. Ele estava descabelado e suado, o que era inédito, pois ele sempre andava impecável, todo engomadinho. Pelo menos a entrada inesperada dele e o comportamento fora do habitual ajudou a desviar, por alguns segundos, aqueles olhares. Infelizmente, isso não durou muito, pois ele foi direto até a minha mesa e falou, esbaforido:
– Preciso te perguntar uma coisa.







