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Algo me compelia a continuar naquele emprego mesmo sendo mal remunerada e sem perspectiva de crescimento profissional. Não era só pelo fato de o mercado de trabalho ser escasso. Se fosse por isso, eu teria ao menos procurado outras oportunidades. Acontece que algo em mim dizia que a virada iria acontecer. Era ali que eu tinha que estar, na “Noir Parfum”, uma das maiores multinacionais da indústria de cosméticos.
Desde que me entendo por gente, a minha mãe era encantada pela Noir. Quem não era? Eles conseguiam, e ainda conseguem, atender ao público menos favorecido financeiramente e também os consumidores endinheirados. Pois bem, minha mãe era uma mulher simples de classe média, mãe solo, que batalhou muito para me dar uma vida digna. Simples, mas digna. Ela morria de vontade de ter um dos perfumes da linha de luxo da Noir, mas o valor de um frasco é estratosférico. Caro, mas caro mesmo. Um valor maior do que as maiores marcas de luxo do mundo. Eu sempre fiquei intrigada com o motivo pelo qual os perfumes da Noir são tão superestimados. O que eles tem que os outros não tem? A resposta talvez seja um marketing muito bem feito que induziu as pessoas a acreditarem em uma lenda urbana absurda: a de quem possuísse os perfumes da linha de luxo aumentaria as chances de seduzir sexualmente quem elas tivessem interesse, com base naquela história de feromônios. Tudo balela, óbvio. Até os meus colegas da empresa acreditavam nessa história pra boi dormir. E o motivo? Por causa dele, o gostoso intragável do Mauro, dono da porra toda. Um mimado mulherengo, que só tava ali porque tinha herdado o trono do pai e aprendido cedo demais a ser obedecido. Ele não precisava levantar a voz. Bastava entrar em uma sala, ajeitar o punho da camisa, olhar por dois segundos a mais do que o necessário, e pronto: todo mundo parecia esquecer o próprio nome. Ele simplesmente conseguia toda e qualquer mulher que ele quisesse, de modelos internacionais a atrizes de Hollywood. Eu atribuo isso ao fato de ele ser um puta de um gostoso (e de saber muito bem disso). Bonito de rosto, de corpo, um deus grego mesmo. A discreta tatuagem de uma flor de lótus no pescoço dele aumentava ainda mais esse charme: só um homem com a masculinidade intacta consegue portar uma imagem associada a feminilidade na propria pele, porque é seguro de si. Por outro lado, por dentro ele era podre, ao meu ver. Sinto muito, mas a beleza física dele não compensava fato de que eu o achava insuportável. Eu estava prestes a desistir da carreira na Noir, quando recebi a notícia que iria mudar minha vida para sempre: a minha promoção a assistente pessoal do Mauro. Eu não entendi o porque disso, já que, na hierarquia daquela empresa gigante, eu estava muitos degraus abaixo do poderoso chefão. Eu era apenas uma auxiliar administrativa de operações. Minha única função era ficar lançando dados em planilhas, entre outras tarefas repetitivas que qualquer idiota faria. Não fazia sentido. E foi isso que tentei explicar pra doida da Alessandra: -Amiga, eu tô te falando. Corre pro RH agora - ela me disse. -Eu tenho certeza quase absoluta que você entendeu tudo errado - respondi. - Não tem sentido eu sair de onde tô pra ir direto trabalhar com o dono da Noir. E do jeito que você é doidinha, capaz da notícia ser uma demissão e não uma promoção. -Pois vai logo lá, menina. Eu fui ao RH. A Alessandra estava certa. Não era demissão, era mesmo uma promoção… e não qualquer promoção. Eu iria trabalhar diretamente com o Mauro, como assistente pessoal do todo poderoso. Pelo visto era mesmo urgente a demanda do grande e poderoso Mauro Ventura. Alguma coisa tinha acontecido para, do nada, eu ser convocada para trabalhar com ele, ainda mais como assistente, que é tipo um braço direito. A pessoa que estava lá (provavelmente uma mulher bonita, porque isso é bem a cara dele), deve ter tido algum imprevisto, e aí alguém do RH cometeu algum erro. Eu ainda não estava acreditando. E lá estava ele. A sala era toda suntuosa, enorme, luxuosa. Ele fazia questão de esfregar não só a beleza absurda dele, mas também toda a sua riqueza. Nada disso me comovia. Eu tinha um ranço imenso desse homem. Mas, profissionalmente, aquela era uma oportunidade única. Óbvio que eu não iria recusar, até porque sei separar bem o pessoal do profissional. - Bom dia, doutor Mauro - fiz questão de usar o doutor, porque era assim que todos o chamavam, apesar de ele não ter doutorado. - Por favor, me chame só de Mauro. Sente-se - a voz aveludada, mas firme. - Olha só, eu acho que houve algum engano. Eu sou lá do setor de operações e… Ele me interrompeu: - Eu sei. Fui eu que mandei contrata-la, especificamente você. - Mas por que eu? Eu achava que o senhor nem me conhecia. - “Você”, por favor. -... que você nem me conhecia. Por que eu? - É por isso que mandei chama-la. Venha comigo.






