Mundo de ficçãoIniciar sessãoSerena aceita um trabalho como babá de Aurora Vellardi, uma menina silenciosa desde a morte da mãe. Inteligente, observadora e solitária, Aurora vive cercada por regras, horários e distância emocional. O pai da criança, Lorenzo Vellardi, é um bilionário viúvo conhecido por sua frieza, precisão e absoluto controle. Nada naquela casa acontece por acaso — nem sentimentos, nem vínculos, nem erros. Serena não chega para desafiar regras. Mas sua presença altera o equilíbrio de um sistema que sempre funcionou à base de limites rígidos. Aurora se aproxima. O silêncio da menina muda. E isso é suficiente para chamar a atenção de Lorenzo. Não como desejo. Como risco. À medida que decisões passam a ser tomadas para conter o que não pode ser nomeado, Serena percebe que sua permanência na mansão deixa de ser apenas um trabalho — e passa a ser um teste constante de obediência, distância e resistência. Entre ordens calculadas, vigilância silenciosa e ajustes que apertam cada vez mais, a convivência se transforma em um jogo perigoso, onde ninguém diz o que sente, mas todos sabem o que está em jogo. Porque naquela casa, não é o amor que ameaça o controle. É o que surge quando alguém tenta mantê-lo a qualquer custo.
Ler maisA primeira decisão oficial veio antes do almoço.Não foi anunciada.Não foi discutida em conjunto.Simplesmente aconteceu.Eu descobri quando Lorenzo entrou na sala com o telefone ainda na mão e disse, como quem comenta o clima:— Vamos sair hoje à tarde.Levantei os olhos devagar.— Para onde?— Entrevista — respondeu. — Não ao vivo. Gravada.Aurora estava sentada no chão, empilhando blocos. Parou no meio do movimento.— Entrevista de quem? — perguntei.— Minha — respondeu ele. — Mas você estará presente.A frase não veio como pedido.Veio como informação.— Isso não estava combinado — disse.— Eu sei.— Então por que—— Porque o leilão criou uma narrativa que precisa ser conduzida — interrompeu. — Se não fizermos isso, alguém fará por nós.Aurora derrubou a torre de blocos. O barulho foi seco, abrupto.Ela não tentou reconstruir.Apenas empurrou as peças para longe.— Você está decidindo coisas que me envolvem sem me consultar — falei.Lorenzo me encarou com atenção calculada.— Est
A calmaria nunca durou muito naquela casa.Mas, naquela manhã, ela parecia falsa desde o início.A mansão acordou antes de mim. Não pelo som, mas pela movimentação contida. Passos mais frequentes no corredor. Portas sendo abertas e fechadas com cuidado excessivo. Vozes baixas demais para serem normais.Levantei com a sensação de que algo já tinha começado sem mim.Do quarto, vi dois carros estacionados além do portão principal. Não eram da imprensa comum. Não havia logotipos. Não havia câmeras evidentes.E isso me preocupou mais.Quando desci, Lorenzo estava em pé na sala, o telefone encostado ao ouvido, o corpo tenso de uma forma que eu ainda não tinha visto. Não era frieza. Era contenção.Aurora estava sentada no chão, com um quebra-cabeça incompleto diante dela. As peças espalhadas pareciam abandonadas no meio do caminho.Ela não brincava.Esperava.— Não — disse Lorenzo, firme. — Isso não está em negociação.Fez uma pausa.— Vocês estão confundindo acesso com direito.Outra pausa.
O impacto não veio em ondas.Veio em avalanche.Ainda antes de amanhecer, o nome de Lorenzo Vellardi já ocupava os primeiros espaços em colunas sociais, sites financeiros, blogs especializados em poder e influência. Não como manchete principal — ainda não —, mas como presença recorrente, insistente, impossível de ignorar.E, pela primeira vez, não estava sozinho nas imagens.Quando acordei, o celular vibrava em silêncio sobre a mesa de cabeceira.Não atendi.Não precisava.Bastava ver as notificações se acumulando, uma sobre a outra, como camadas de algo que eu ainda não tinha coragem de encarar de frente.Mensagens de números desconhecidos.Alertas automáticos.Capturas de tela enviadas sem contexto.Levantei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse confirmar que aquilo não era sonho.No espelho, meu rosto parecia o mesmo. Olhos cansados. Cabelo ainda preso de forma descuidada. Nada naquela imagem justificava a quantidade de atenção que, eu sabia, estava recaindo sobre ela
O convite chegou com antecedência suficiente para não permitir recusa.Não era um daqueles convites genéricos, enviados em massa, que se perdem entre compromissos. Era pesado. Literalmente. Papel espesso, timbre em relevo, um envelope que parecia exigir atenção antes mesmo de ser aberto. Um leilão beneficente anual, daqueles que concentram todos os nomes que importam — e, principalmente, os que precisam parecer importar.Lorenzo não costumava recusar esse tipo de evento. Não porque gostasse, mas porque entendia o valor simbólico deles. O que tornava aquele convite diferente era uma palavra específica, posicionada de forma estratégica no rodapé:Acompanhante.Ele não comentou quando me mostrou o envelope. Apenas o deixou sobre a mesa da sala, aberto, alinhado com cuidado, como se o papel pudesse explicar sozinho o que estava sendo proposto.— Vai ser grande — disse, depois de alguns segundos.Não soou como aviso.Soou como diagnóstico.— Público — respondi.— Muito.A noite chegou sem
A primeira pergunta não veio em forma de ataque.Veio disfarçada de curiosidade, o que a tornava muito mais perigosa.Era uma mensagem curta, enviada para um número que eu nunca tinha divulgado, nem usado fora daquele círculo restrito que supostamente ainda me protegia.Você pretende acompanhar o senhor Vellardi em outros eventos?Não havia assinatura, não havia tom agressivo, não havia sequer urgência. Mas havia intenção.Apaguei a mensagem sem responder, com a sensação incômoda de que aquilo era apenas um teste. Um primeiro toque, leve demais para ser negado depois, mas direto o suficiente para medir até onde eu estava disposta a ir.Durante o café da manhã, Lorenzo já estava sentado à mesa quando me aproximei. Tinha relatórios abertos à sua frente, o tablet apoiado ao lado da xícara de café intacta. Ele não parecia apressado, mas também não parecia exatamente ali.Aurora desenhava no chão, concentrada, cercada de lápis espalhados. Produzia sons baixos, ritmados, que não formavam pa
Nada foi anunciado.Essa foi a primeira regra.Nenhum comunicado oficial. Nenhuma nota à imprensa. Nenhuma explicação antecipada. O plano não dependia de palavras, nem de justificativas públicas. Dependia de algo muito mais difícil de controlar: presença.Lorenzo saiu naquela manhã como sempre saía. Pontual. Impecável. Inatingível. O mesmo ritmo calculado, a mesma postura que não deixava margens para leitura emocional.A diferença era simples — e suficiente para alterar tudo.Dessa vez, eu estava no carro com ele.Não no banco da frente.Não como acompanhante declarada.Não como alguém apresentada ou anunciada.Apenas ali.O silêncio dentro do carro era funcional, não constrangedor. O tipo de silêncio que existe quando cada gesto já foi pensado antes de acontecer.— Não fale — disse ele, enquanto o motorista fechava a porta. — Não explique. Não sorria para câmeras.Não havia rigidez no tom. Nem urgência. Apenas instrução.— E se perguntarem? — perguntei.Ele ajustou o botão da manga d










Último capítulo