Medidas Corretivas

A manhã começou diferente, não pelo horário, não pela rotina.

Mas porque, pela primeira vez desde que cheguei àquela casa, Aurora não quis sair do quarto. Ela estava sentada na cama, abraçando o coelho, os olhos fixos na porta. Quando me aproximei, estendeu a mão como sempre fazia — mas não se levantou.

— Vamos? — perguntei.

Aurora balançou a cabeça. Foi um não silencioso, firme.

— Está tudo bem — falei. — Podemos ir devagar.

Helena apareceu atrás de mim. 

— Não é uma escolha — disse, olhando para o tablet. — O horário já passou.

Aurora encolheu os ombros.

— Ela não está se sentindo bem — respondi.

— Não há registro de mal-estar — disse Helena. — Isso é resistência comportamental.

Ajoelhei na frente de Aurora.

— Quer me dizer o que está acontecendo? — perguntei, sabendo que ela não responderia com palavras.

Ela apertou o coelho com força, Helena pigarreou.

— Serena, precisamos manter consistência.

— Consistência sem escuta não é método — respondi.

— Não é você quem decide o método.

Lorenzo entrou nesse momento, não parecia surpreso. Parecia informado.

— O que houve? — perguntou.

— Aurora se recusa a sair do quarto — respondeu Helena. — Já estamos fora do cronograma.

Lorenzo observou a filha por alguns segundos, não se aproximou e nem falou com ela.

— Aurora — disse. — Levante-se.

Ela não se moveu, foi a primeira vez que isso aconteceu. O silêncio ficou pesado.

— Vou dar um minuto — falei. — Só um.

Lorenzo virou o rosto lentamente na minha direção.

— Não — disse. — Agora.

Aurora começou a tremer.

— Lorenzo — falei, sem elevar a voz. — Isso não vai—

— Serena — interrompeu ele. — Afaste-se.

Não me movi.

— Ela está assustada.

— Ela está testando limites.

— Não — respondi. — Ela está reagindo.

Lorenzo deu um passo à frente.

— Você está ultrapassando de novo.

— E o senhor está ignorando.

Helena se colocou ao lado dele.

— Posso assumir daqui — disse.

Aurora soltou um som baixo. Um ruído curto, tenso, preso na garganta. Não era uma palavra, mas também não era silêncio.

Lorenzo congelou por meio segundo, foi pouco, mas foi real.

— Saia — disse ele, para mim. — Agora.

Aurora se levantou rápido e se colocou na minha frente, os braços abertos, como se pudesse me proteger. O gesto foi instintivo e devastador.

Helena anotou algo.

Lorenzo fechou a mão devagar.

— Isso é inaceitável — disse. — Essa dinâmica termina hoje.

— O que o senhor quer dizer? — perguntei.

— Que vamos corrigir o erro.

— Qual erro?

— A liberdade excessiva.

Aurora começou a chorar. Sem som. Apenas lágrimas.

— Vou levá-la ao banheiro — falei.

— Não — disse Lorenzo. — Helena.

Helena se aproximou de Aurora.

— Venha comigo — disse, estendendo a mão.

Aurora não se mexeu.

— Eu vou com ela — falei.

— Não — repetiu Lorenzo. — Você não.

O corte foi limpo.

— A partir de agora — continuou ele — você não fica mais sozinha com Aurora.

O mundo pareceu se contrair.

— O senhor está me afastando dela? — perguntei.

— Estou reorganizando funções — respondeu. — Você será redistribuída.

— Para onde?

— Ainda não decidi.

Helena tocou levemente o braço de Aurora.

— Vamos — disse.

Aurora gritou.

Não foi uma palavra, foi um som bruto, desesperado, que atravessou o corredor.

Helena recuou por reflexo.

Lorenzo empalideceu.

— Aurora — disse, agora mais firme. — Pare.

Ela não parou, foi a primeira quebra real. A criança que não falava, gritava. Ajoelhei no chão sem pensar.

— Aurora — disse, segurando o rosto dela com cuidado. — Olha pra mim.

Ela me olhou, o grito cessou. O choro continuou.

— Está tudo bem — falei. — Respira comigo.

Ela tentou, Lorenzo observava como se estivesse vendo algo que não previa.

— Isso é consequência — disse Helena, baixo. — Do vínculo.

Lorenzo respirou fundo.

— Saia — disse ela para mim. — Agora.

Levantei devagar, Aurora tentou me segurar, mas Lorenzo foi mais rápido. Segurou os ombros da filha com firmeza controlada.

— Está tudo bem — disse ele, para ela. — Está tudo sob controle.

Não estava, Helena me conduziu até o corredor.

— A decisão foi tomada — disse. — Você será afastada por tempo indeterminado das funções diretas.

— Isso vai machucar ela — respondi.

— A curto prazo — disse Helena. — Mas garante estabilidade.

— Não — respondi. — Garante obediência.

Ela não respondeu.

No fim do dia, não vi Aurora. Lorenzo não falou comigo.

Recebi apenas um comunicado seco:

Nova organização entra em vigor imediatamente.

À noite, arrumei minhas coisas no quarto, sem saber se estava sendo demitida ou mantida em espera. Quando fechei a mala, Lorenzo apareceu na porta.

— Você não vai embora — disse.

— Então por que estou sendo retirada?

— Porque você se tornou um ponto de tensão.

— Para quem?

— Para o sistema.

— Ou para o senhor?

Ele sustentou meu olhar.

— Não confunda.

— Não estou.

O silêncio se estendeu.

— Amanhã — disse ele — você começa em outra função.

— Qual?

— Observação.

— De quem?

— De si mesma.

Ele se afastou, sentei na cama, sentindo pela primeira vez que não era apenas observada, eu estava contida, o que Lorenzo havia feito não era um ajuste.

Era uma ruptura consciente.

E rupturas, eu sabia, cobram preço.

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