Mundo ficciónIniciar sesiónO dia seguinte passou mais tranquilo do que eu imaginava.
Depois da decisão de Lorenzo na noite anterior, eu acordei esperando algum tipo de tensão imediata, alguma regra nova, algum olhar mais duro tudo naquela casa parecia exigir mais atenção do que o normal. Cada passo ecoava mais alto. Cada porta parecia pesada demais. Até o tempo parecia obedecer a uma regra invisível. Mas a casa seguiu seu curso como se nada tivesse acontecido.
E, ainda assim, algo estava diferente.
Aurora parecia mais solta. Ela me acompanhava pela casa sem hesitação, sentava ao meu lado sem ser convidada, entregava pequenos objetos como se fossem pedidos silenciosos de atenção. Desenhava sentada no chão, espalhando folhas e lápis ao redor, enquanto eu organizava algumas coisas simples. Sempre que eu me afastava, sentia o olhar dela me acompanhar, como se tivesse medo de que eu desaparecesse sem aviso.
Passei a manhã com ela no jardim, repetindo atividades simples. Desenho, leitura, pequenas caminhadas. Em alguns momentos, eu esquecia completamente que estava trabalhando. Parecia apenas… estar. E isso me assustava um pouco. Porque aquela casa não era um lugar onde as pessoas simplesmente estavam. Tudo ali tinha função. Tudo tinha limite.
No almoço, Lorenzo não apareceu novamente. Disseram que estava em reuniões fora. Aurora comeu comigo, sentada na mesma cadeira do dia anterior, tranquila. A ausência dele tornou o ambiente mais leve, quase enganador.
Choveu a tarde, ficamos no quarto dela, organizando brinquedos que claramente não eram usados há muito tempo. Alguns ainda tinham etiquetas. Outros pareciam nunca ter sido tocados.
— Vamos separar os que você mais gosta — falei, mais para criar rotina do que esperando resposta.
Aurora me observava com atenção enquanto eu falava, como se registrasse cada palavra, cada gesto.
O céu começou a escurecer cedo. As luzes da casa foram acesas quase ao mesmo tempo, como se alguém tivesse apertado um único botão invisível. Tudo funcionava com precisão demais.
Preparei Aurora para o jantar com calma. Troquei sua roupa, penteei seus cabelos e deixei que escolhesse o vestido. Ela caminhou até o guarda-roupa, olhou algumas opções e apontou para um vestido azul claro, simples, sem detalhes exagerados.
— Boa escolha — comentei.
Ela me olhou rapidamente e voltou a atenção para o vestido.
O jantar sempre foi servido às sete em ponto, a mesa era grande demais. Longa, polida, imponente. Feita para reuniões importantes, não para uma criança de cinco anos e duas pessoas que mal se conheciam , funcionários se movimentavam em silêncio, puxando cadeiras, organizando pratos, ajustando talheres. Tudo parecia ensaiado.
Aurora segurou minha mão antes de se sentar, como se pedisse permissão. Sentei ao lado dela, ninguém disse nada.
Lorenzo chegou alguns minutos depois. A presença dele mudou o ambiente instantaneamente. Ele caminhou até a mesa com passos firmes, postura impecável, como se nunca estivesse fora de controle. Parou ao notar onde Aurora estava sentada, o olhar passou pela filha, depois por mim.
— Boa noite — disse, ao se aproximar da mesa.
— Boa noite — respondi.
Ele se sentou sem comentar a disposição dos lugares, mas eu percebi. Ele sempre percebia. O jantar começou em silêncio, como quase tudo naquela casa. Aurora comia com calma, mais tranquila do que no café da manhã. Não parecia nervosa, nem tensa.
Lorenzo observava pelo canto dos olhos, tentando disfarçar. Ainda assim, eu via. O olhar dele passava por Aurora, voltava para mim, demorava mais do que deveria. Era um olhar que perfurava, que incomodava, quase queimava.
— Dormiu bem? — perguntou a ela.
Aurora assentiu levemente.
— Serena contou uma história — falei, quase sem perceber.
Ele me olhou.
— Ela costuma ter dificuldade para dormir.
— Hoje não teve — respondi.
Algo mudou no rosto dele. Não foi um sorriso, nem relaxamento. Foi apenas… atenção.
Aurora continuou comendo até, em determinado momento, derrubar um pouco de suco na toalha. Ela congelou. Olhou para mim, apreensiva, como se esperasse uma repreensão. Peguei um guardanapo e limpei o líquido com calma.
— Tudo bem — disse. — Acontece.
O corpo dela relaxou quase imediatamente, Lorenzo observou a cena em silêncio.
— Ela costuma ficar agitada com pequenos acidentes — comentou.
— Talvez porque ache que precisa ser perfeita — respondi, antes de pensar.
Ele me encarou com atenção renovada.
— Perfeição sempre foi uma exigência nesta casa.
Não soube dizer se aquilo era uma constatação… ou um aviso.
Pouco depois, levei Aurora para escovar os dentes. Ela fez tudo sem resistência, obediente, tranquila. Era estranho pensar que aquela mesma menina havia sido descrita como difícil, fechada, distante. No quarto, sentou-se na cama enquanto eu organizava algumas coisas.
— Hora de dormir — falei, baixinho.
Ela subiu sozinha, abraçando o coelho de pelúcia com força. Apaguei a luz principal e deixei apenas o abajur aceso.
— Hora da história? — perguntei.
Aurora não respondeu, mas bateu levemente na cama, ao meu lado. Sentei-me e comecei a ler. Um livro simples, sem exagerar na voz, sem encenação. Apenas palavras calmas. Ela me observava, os olhos ficando pesados aos poucos. Quando terminei, já dormia.
Fiquei ali mais tempo do que o necessário, observando a respiração tranquila. Gostava daquele momento. Antes de ir embora, antes de quebrar o silêncio. Ao sair do quarto, dei de cara com Lorenzo no corredor. Ele estava encostado na parede, braços cruzados, expressão fechada. Parecia ter estado ali o tempo todo. As coisas aconteciam com uma rotina tão rigida que até se repetiam.
— Amanhã, jante conosco novamente — disse.
— Jantar?
— Teremos uma visita amanhã — acrescentou. — Um sócio. E o filho dele.
— Aurora fica nervosa com estranhos.
— Eu sei.
— Então talvez seja melhor se ela...
— Eu quero que ela esteja — interrompeu.
A forma como disse deixou claro que não havia espaço para discussão.
— Tudo bem — respondi.
Ele deu alguns passos, depois parou.
— Serena.
Olhei para ele.
— Este trabalho exige discrição. O que acontece nesta casa… fica aqui.
— Eu sei.
— Ainda não sabe — corrigiu. — Mas vai aprender.
Ele se afastou, deixando a frase suspensa no ar. Voltei para o meu quarto com a sensação clara de que algo havia mudado. Não apenas na rotina da casa, mas na forma como Lorenzo me observava. Antes de dormir, pensei no jantar. No olhar dele. No fato de que, em nenhum momento, ele perguntou se eu concordava.
Apaguei a luz, o silêncio ainda estava ali, porém agora, parecia atento.







