A Babá e o Dono do Mundo
A Babá e o Dono do Mundo
Por: M.L. Paula
O silencio da Casa

A primeira coisa que pensei ao entrar naquela mansão foi que casas também podiam morrer. Não tinha poeira, nem desordem, nem nada fora do lugar. Tudo estava limpo demais, organizado demais, silencioso demais. O tipo de silêncio que não traz paz — apenas vazio.

A mulher que me trouxe até ali, a governanta, caminhava à frente com passos firmes. Não sorria, não puxava conversa. Apenas me guiava por corredores largos, decorados com quadros caros e cores neutras. Tudo em tons de bege, cinza e madeira escura.

— A senhorita pode deixar a bolsa ali — disse ela, apontando para uma mesa impecável.

Obedeci. Respirei fundo. Eu precisava daquele trabalho. Mais do que orgulho, mais do que conforto, mais do que qualquer plano que já tivesse feito para minha vida. Aos vinte e um anos, eu já tinha aprendido que sobrevivência vinha antes de sonhos.

— Aurora está no jardim — informou a governanta. — Ela costuma passar a manhã lá.

— Ela… gosta de conversar? — perguntei, esperando um sopro de vida na casa.

A mulher hesitou antes de responder.

— Aurora não fala desde a morte da mãe.

Engoli em seco. Seguimos até uma porta de vidro que dava para um jardim amplo, perfeitamente cuidado. Flores coloridas contrastavam com a rigidez da casa. No centro, sentada no chão, havia uma garotinha. Ela tinha os cabelos claros presos de qualquer jeito e um vestido simples, apesar de todo o luxo ao redor. Estava concentrada em alinhar pequenas pedras, uma ao lado da outra, com uma atenção quase adulta.

— Aurora — chamou a governanta, em tom neutro. — Esta é a nova babá.

A menina não levantou os olhos.

— Vou deixá-las sozinhas — completou a mulher, já se afastando.

Por um segundo, pensei em chamá-la de volta. Mas fiquei. Ajoelhei devagar, mantendo uma distância respeitosa.

— Oi — falei, sem forçar. — Eu sou a Serena.

Aurora continuou organizando as pedras. Observei em silêncio por alguns segundos, tentando entender o ritmo dela. Depois, peguei uma pedrinha caída mais distante e a coloquei no final da fileira, imitando o que ela fazia. Nada.

Peguei outra. E outra. Até que, de repente, a mãozinha dela parou. Aurora ergueu os olhos lentamente. Os olhos eram grandes, atentos, curiosos. Não assustados. Apenas avaliando.

— Está tudo bem se eu ficar aqui? — perguntei, com um sorriso leve.

Ela não respondeu. Mas empurrou uma pedrinha na minha direção. Meu coração deu um salto pequeno e silencioso.

— Obrigada — murmurei.

Ficamos assim por alguns minutos. Eu copiando seus gestos. Ela me observando. Não havia palavras, mas havia algo se formando ali. Um acordo invisível.

Foi então que senti. Não ouvi passos, não ouvi portas, apenas senti. Um arrepio percorreu minha espinha, como se o ar tivesse mudado de temperatura. Levantei o olhar instintivamente, ele estava parado na porta, alto, impecável e imóvel.

O homem usava uma camisa social escura, mangas dobradas até os antebraços, e tinha uma postura tão rígida que parecia parte da arquitetura da casa. Seu olhar não estava em mim — estava em Aurora. Mas quando ela se virou para ele, algo aconteceu. Aurora se levantou deu dois passos, depois três e segurou a minha mão. 

O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros, o homem finalmente desviou o olhar da filha para mim e então eu soube que aquele era Lorenzo Vellardi.

O bilionário. O viúvo. O homem que não sorria.

— Quem é você? — perguntou.

A voz era baixa, firme, sem emoção aparente.

— Serena — respondi, levantando devagar. — A nova babá.

Ele me analisou sem pudor. Não como um homem observa uma mulher, mas como alguém avalia um objeto que ainda não decidiu se serve.

— Aurora não toca em estranhos — disse.

— Eu não forcei — falei, num tom calmo. — Ela quis.

Os olhos dele se estreitaram minimamente. Um detalhe pequeno, mas perceptível. Aurora apertou minha mão com mais força.

— Há quanto tempo estão aqui? — ele perguntou.

— Poucos minutos.

Lorenzo ficou em silêncio. Longo demais.

— Você já foi informada das regras da casa?

— Ainda não.

— Então preste atenção — disse ele. — Aqui, horários são respeitados. Rotinas não são questionadas. E envolvimento emocional não é bem-vindo.

Engoli em seco, mas mantive o queixo erguido.

— Meu trabalho é cuidar da Aurora — respondi. — É isso que pretendo fazer.

Ele me encarou por mais alguns segundos. Depois, voltou-se para a filha.

— Aurora, venha.

Ela não se mexeu. O silêncio ficou pesado.

— Aurora — ele repetiu, com um tom levemente mais firme.

Ela continuou ali, ao meu lado. Lorenzo respirou fundo. Pela primeira vez, vi algo quebrar em seu rosto. Não raiva. Não frustração. Algo mais profundo.

— Você começa hoje — disse ele, finalmente, olhando para mim. — E vai ficar.

Meu coração acelerou.

— Ficar…?

— Aqui — completou. — Na mansão.

Aurora encostou a cabeça no meu braço.

— Mas saiba de uma coisa, Serena — ele continuou, a voz fria novamente. — Esta casa não é um lar. E eu não tolero erros.

Ele se virou e saiu, deixando para trás o eco de sua presença. Fiquei ali, no jardim, com a mão de Aurora presa à minha, sentindo que algo tinha acabado de começar.

E que nada naquele lugar seria simples.

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