Mundo de ficçãoIniciar sessãoLorenzo não demonstrou nenhuma mudança no dia seguinte, essa constatação veio cedo demais.
Aurora acordou no horário habitual, tomou café comigo e seguiu a manhã com livros e desenhos. Não houve interrupções, nenhuma ordem fora do padrão, nenhuma palavra fora do lugar. Lorenzo apareceu apenas o suficiente para desejar bom dia à filha.
— Bom dia, Aurora.
Ela ergueu os olhos por um instante, assentiu levemente e voltou a comer. Não houve insistência, nem tentativa de aproximação. Lorenzo não parecia frustrado com isso, parecia satisfeito. Ele saiu logo depois, como se aquela breve presença fosse suficiente para manter tudo sob controle. Foi isso que me deixou alerta.
No meio da manhã, enquanto eu ajudava Aurora a montar um quebra-cabeça, senti a mudança antes mesmo de vê-la. Não foi barulho. Nem anúncio. Foi aquele ajuste invisível que acontece quando alguém entra em um espaço com intenção clara, levantei o olhar.
Lorenzo estava parado a poucos metros de distância, acompanhado por uma mulher que eu nunca tinha visto. Ela não parecia deslocada. Nem curiosa. Nem desconfortável. Tinha postura reta, olhar firme e uma expressão neutra demais para ser casual. Usava roupas discretas, sem qualquer detalhe chamativo. Tudo nela parecia calculado para não chamar atenção e ainda assim chamar.
— Serena — disse Lorenzo. — Esta é Helena.
A mulher estendeu a mão.
— Prazer.
— Prazer — respondi.
O aperto de mão foi rápido, firme, profissional.
— Helena vai assumir a coordenação da rotina da casa — continuou Lorenzo, como se estivesse apresentando um novo item de mobília. — Incluindo a sua atuação aqui.
A frase caiu sem peso na voz dele. Como se fosse óbvia.
— Coordenação? E a governanta? — perguntei.
— Organização — corrigiu ele. — Alinhamento. Limites. Comunicação.
Helena não desviou o olhar de mim em nenhum momento.
— Meu papel é garantir que tudo funcione dentro dos parâmetros definidos pelo senhor Vellardi — explicou. — Isso inclui horários, interações e procedimentos.
— Já sigo o que foi definido em contrato — respondi.
— Contratos estabelecem bases — respondeu Lorenzo. — A convivência exige ajustes contínuos.
Aurora levantou o olhar naquele momento, observava a mulher com atenção silenciosa. Não havia curiosidade infantil ali, havia percepção.
— Isso muda algo para ela? — perguntei, indicando Aurora.
— Não — respondeu Lorenzo. — Apenas para você.
A separação foi clara, deliberada, Helena deu um pequeno passo à frente.
— A partir de hoje, vou acompanhar sua rotina com Aurora — disse. — Não como intervenção, mas como observação.
— Observação de quê? — perguntei.
— De limites — respondeu Lorenzo.
Aurora se levantou do chão e veio até mim, segurando minha mão com força inesperada. Não disse nada. Apenas segurou.
— Aurora — disse Lorenzo, num tom firme. — Volte para o livro.
Ela hesitou, o olhar passou por mim e depois por ele, soltou minha mão devagar e voltou ao lugar. Helena anotou algo em um tablet.
— Vamos revisar seus horários — disse ela. — Permanências prolongadas sem função definida não são recomendadas.
— A hora de dormir entra nisso? — perguntei.
— Entra tudo o que ultrapassa o tempo funcional — respondeu Lorenzo.
A palavra funcional se impôs no espaço.
— Entendido — respondi.
Não porque concordasse, mas porque compreendi exatamente o que estava acontecendo.
O restante da manhã seguiu sob vigilância, Helena não interferia diretamente, não levantava a voz, não dava ordens explícitas. Apenas observava, anotava, sugeria ajustes sutis.
— Talvez seja melhor manter a porta aberta — comentou, quando eu sentei ao lado de Aurora para ler.
— Aurora se distrai menos assim — respondi.
— Mesmo assim — disse ela. — Padronização ajuda.
Lorenzo não estava presente. Mas tudo ali era feito para ele.
À tarde, Helena sugeriu alterações nos horários. Reduziu intervalos. Encurtou momentos de permanência conjunta. Retirou pequenas escolhas que antes eram naturais.
Aurora começou a reagir, não chorou, nem se queixou, mas passou a me observar mais. Quando tentei sentar ao lado dela durante um desenho, Helena pigarreou.
— Talvez seja melhor observá-la de pé — disse.
— Por quê? — perguntei.
— Para evitar dependência excessiva.
A frase foi dita com naturalidade técnica.
— Aurora precisa de referência — respondi.
— Precisa de estrutura — corrigiu ela.
No fim da tarde, Lorenzo apareceu novamente. Observou a cena por alguns minutos sem dizer nada.
— Está tudo conforme o esperado? — perguntou.
— Sim — respondeu Helena. — Serena está colaborando.
Lorenzo assentiu.
— Ótimo.
Não olhou para mim.
À noite, no jantar, Helena sentou-se à mesa por orientação direta de Lorenzo. A presença dela era silenciosa, mas ocupava espaço demais. Aurora comeu menos do que nos dias anteriores.
— Está tudo bem? — perguntei, em voz baixa.
Ela assentiu, mas não parecia convencida.
— Serena — disse Lorenzo, sem olhar. — Menos intervenções.
A frase não foi dura. Foi exata.
Assenti.
— A adaptação costuma gerar pequenas resistências — comentou Helena. — Mas passa.
— Sempre passa — respondeu Lorenzo.
Quando levei Aurora para dormir, Helena me acompanhou até a porta do quarto.
— Vou observar este momento a partir de amanhã — disse. — Para manter consistência.
Aurora me olhou por cima do ombro, confusa.
— Está tudo bem — falei para ela. — Boa noite.
Ela assentiu, mas não relaxou.
Ao sair do quarto, encontrei Lorenzo no corredor.
— Isso não é pessoal — disse ele, sem rodeios.
— Nunca é — respondi.
Ele me encarou por um instante.
— É necessário.
— Para quem? — perguntei.
— Para manter tudo sob controle.
— E se o controle causar o efeito oposto? — arrisquei.
Ele sustentou meu olhar.
— Então ajustamos de novo.
Sem emoção, sem hesitação, ele se afastou.
Fiquei parada por alguns segundos, entendendo com clareza o que havia mudado. Lorenzo não estava confuso, não estava instável, não estava em conflito.
Ele estava reagindo de forma estratégica e aquela mulher ali não era um erro, era um instrumento. Aurora sentiu isso antes de mim, quando voltei ao quarto para pegar algo esquecido, encontrei-a sentada na cama, acordada.
Ela me olhou em silêncio, não disse nada, mas naquele olhar havia algo novo. E eu soube, com uma certeza desconfortável, que aqueles ajustes não eram temporários. E que, dali em diante, nada mais seria simples.







