Mundo de ficçãoIniciar sessãoA primeira regra nova não foi anunciada, ela simplesmente aconteceu. Percebi logo pela manhã, quando Helena apareceu no corredor antes mesmo de eu chegar até Aurora.
— Hoje vou acompanhar vocês desde o início — disse, consultando o tablet. — Pequenos ajustes de observação.
Não era um pedido, nem uma explicação.
Assenti e segui.
Aurora já estava acordada, sentada na cama, abraçando o coelho. Quando me viu, esboçou um sorriso rápido que desapareceu assim que notou Helena atrás de mim. Ela desviou o olhar.
— Bom dia — falei, mantendo o tom normal.
Aurora assentiu, mas não se levantou como costumava fazer. Helena fez uma anotação.
— Vamos manter o ritmo — disse. — Sem atrasos.
Durante o café, Aurora comeu pouco. Olhava mais para mim do que para o prato. Sempre que eu tentava dizer algo além do necessário, Helena interrompia com comentários técnicos.
— Ela já sabe segurar o copo sozinha.
As palavras eram neutras. O efeito, não.
Lorenzo apareceu no fim do café, observou em silêncio. Não corrigiu Helena, não interveio e não perguntou nada. Apenas registrou.
— Tudo conforme? — perguntou.
— Dentro do esperado — respondeu Helena. — Ainda em fase de ajuste.
— Ótimo.
Ele se inclinou para beijar a testa de Aurora. Um gesto rápido, preciso.
— Comporte-se bem.
Ela assentiu.
Quando ele saiu, o ambiente não relaxou, Helena permaneceu. A manhã seguiu com pequenas restrições. Nada grande o suficiente para virar conflito, mas tudo calculado demais para passar despercebido.
— Talvez seja melhor você observar daqui — disse Helena, quando Aurora começou a desenhar sentada no chão. — Sem interferir.
— Ela costuma se concentrar mais assim — respondi.
— Estamos testando outras abordagens.
Aurora segurou o lápis com força excessiva, o desenho saiu torto. Ela empurrou o papel para longe e cruzou os braços.
— Quer tentar outra coisa? — perguntei, suavemente.
Antes que ela respondesse, Helena falou:
— Não estimule frustração com alternativas imediatas.
Respirei fundo.
— Aurora — falei. — Está tudo bem errar.
Helena anotou algo.
— Evite reforços emocionais fora de contexto.
O “contexto”, percebi, era Lorenzo.
No início da tarde, Aurora começou a se fechar, não chorava, não reclamava, mas parou de me procurar. E isso era pior.
Quando Lorenzo retornou, Helena o chamou discretamente para conversar. Fiquei longe o suficiente para não ouvir, perto o bastante para perceber a linguagem corporal. Helena falava, Lorenzo escutava e assentia.
Depois, ele se aproximou de mim.
— Helena vai ajustar algumas rotinas — disse. — Confie no processo.
— Aurora não está reagindo bem — respondi.
— Reações fazem parte — disse ele. — Resultados levam tempo.
— Crianças não são planilhas — falei, antes de pensar.
Ele me encarou, não havia raiva ali, havia cálculo.
— São responsabilidades — respondeu. — E eu não delego responsabilidades sem supervisão.
— Supervisão ou contenção? — perguntei.
Ele não respondeu.
À noite, Aurora recusou o jantar, empurrou o prato e se encolheu na cadeira.
— Está tudo bem — falei, me aproximando.
— Não intervenha — disse Helena, sem levantar a voz.
Lorenzo observava.
— Aurora — chamou ele. — Você precisa comer.
Ela balançou a cabeça, negativa.
— Está tudo bem — repeti. — Podemos...
— Não — interrompeu Lorenzo. — Aqui seguimos rotina.
A palavra aqui soou mais dura do que o necessário, Aurora segurou o coelho com força.
— Vou levá-la para o quarto — falei.
— Ainda não — respondeu ele. — Ela precisa terminar.
O silêncio se estendeu, Aurora começou a tremer, não chorou, mas seus olhos encheram de algo próximo demais disso.
— Lorenzo — disse, sem elevar a voz. — Isso não é sobre disciplina.
Ele se levantou.
— É exatamente sobre isso.
Helena permaneceu imóvel, Aurora soltou um som baixo. Quase um suspiro. Quase uma palavra.
Não saiu, mas foi o suficiente para me mover, ajoelhei ao lado dela, ignorando Helena.
— Está tudo bem — disse. — Eu estou aqui.
Lorenzo deu um passo à frente.
— Serena.
Levantei o olhar.
— Não ultrapasse.
— Já ultrapassamos — respondi. — Só o senhor ainda não percebeu.
O silêncio caiu pesado, Aurora se levantou da cadeira e se escondeu atrás de mim e ninguém a mandou voltar.
Lorenzo ficou imóvel por alguns segundos. Depois falou, baixo:
— Helena, amanhã revisamos tudo.
Ela assentiu.
— Serena — continuou ele. — Você vai se retirar agora.
— Vou colocar Aurora para dormir — respondi.
— Eu disse agora.
Aurora apertou minha roupa, o olhar de Lorenzo passou por ela. Depois voltou para mim, havia algo novo ali. Não era emoção, Mas falha.
— Vá — disse ele, por fim.
Levei Aurora para o quarto, ela não dormiu fácil. Segurou minha mão até os dedos doerem, quando finalmente adormeceu, encontrei Lorenzo no corredor.
Helena não estava ali.
— Isso não se repete — disse ele.
— Não — respondi. — Não se repete mesmo.
— Você cruzou uma linha.
— Eu protegi uma criança.
— Essa criança é minha responsabilidade.
— Então comece a agir como se fosse.
O silêncio se alongou.
— Amanhã — disse Lorenzo — faremos mudanças maiores.
— Em mim? — perguntei.
— Em tudo.
Ele se afastou, eu fiquei ali, sentindo com clareza o que estava acontecendo. Lorenzo não estava perdendo o controle, ele estava apertando demais.
E sistemas rígidos, eu sabia, não quebram de uma vez.
Eles racham.







