Mundo de ficçãoIniciar sessãoDormir naquela casa foi bem mais difícil do que eu esperava. O quarto que me deram era grande, até demais, confortável, silencioso demais. Lençóis claros, móveis escuros, uma janela enorme voltada para o jardim. Tudo parecia pensado para alguém que precisava de espaço para ser sozinho — não para alguém que queria se sentir acolhida.
Fiquei deitada por um tempo, encarando o teto, ouvindo o nada, não havia som de carro, nem vozes, nem vida. Quando finalmente dormi, foi um sono leve, inquieto. Acordei antes mesmo do despertador tocar. Levantei devagar, me arrumei em silêncio e saí do quarto com cuidado, como se a casa pudesse perceber qualquer movimento em falso.
Na cozinha, o cheiro de café já tomava o ar. Uma das funcionárias organizava a mesa com precisão quase militar.
— Bom dia — arrisquei.
— Bom dia — respondeu, educada, mas distante. — A senhorita Serena, certo?
Assenti.
— O senhor Lorenzo costuma descer às sete. Aurora toma café às sete e meia.
— Certo.
Tudo ali era horário. Tudo era regra, nada parecia espontâneo. Aurora apareceu pouco depois, acompanhada por outra funcionária. Usava um pijama claro e carregava um pequeno coelho de pelúcia preso ao braço, assim que me viu, parou. Olhou para mim por alguns segundos. Depois, caminhou até a cadeira ao meu lado e se sentou sem dizer nada, ainda.
A mulher hesitou, olhando para a menina, depois para mim.
— Ela costuma sentar do outro lado — comentou.
— Tudo bem — respondi, com um sorriso discreto.
Aurora colocou o coelho sobre a mesa e começou a balançar os pés, distraída. Pegou o copo de suco de laranja sozinha, bebeu um gole, depois outro.
Lorenzo entrou na cozinha pouco depois, o ambiente mudou imediatamente. Ele estava impecável, como se nunca tivesse dormido. Terno escuro, expressão fechada, presença dominante. Sentou-se à mesa sem olhar para ninguém, até perceber onde a filha estava sentada. Os olhos dele passaram por Aurora, depois, por mim.
Ficaram ali um segundo a mais do que deveriam, o suficiente para me deixar um pouco acanhada.
— Bom dia — disse, seco.
— Bom dia — respondi.
Aurora continuou comendo, tranquila. Pela primeira vez, não parecia desconfortável com a presença do pai, Lorenzo observou aquilo em silêncio, não disse nada. Porém eu vi
Depois do café, levei Aurora para o jardim. O sol da manhã deixava o lugar menos frio, mais humano. Sentamos na grama, e eu tirei alguns lápis de cor da mochila.
— Gosta de desenhar? — perguntei.
Ela não respondeu, mas pegou um dos lápis. Desenhou em silêncio, concentrada. Eu não perguntei o que era. Apenas fiquei ali, ao lado dela, desenhando também. Em algum momento, senti que não estávamos sozinhas. Levantei o olhar.
Lorenzo observava da varanda, com uma xícara de café na mão. Não parecia irritado. Nem curioso. Parecia… atento demais. Durante o dia, fomos seguindo uma rotina simples. Brincamos, lemos um livro ilustrado, caminhamos pelo jardim. Aurora não falou, mas reagia. Com o olhar. Com pequenos gestos. Com presença. Ela me seguia pela casa como se já me conhecesse.
No almoço, Lorenzo não apareceu. Disseram que estava em reuniões.
À tarde, levei Aurora para o quarto dela. Um quarto bonito, organizado, mas pouco usado. Muitos brinquedos intactos. Livros sem marcas de dedos.
— Vamos arrumar isso aqui depois — comentei, mais para mim do que para ela.
Ela sentou na cama e me observou dobrar algumas roupas. O dia passou rápido, quando o céu começou a escurecer, preparei o banho dela. Aurora entrou na banheira sem resistência, brincou com a espuma, deixou que eu lavasse seu cabelo. Era tudo muito fácil com ela. Natural. Como se nunca tivesse sido difícil, apenas negligenciado.
Depois do banho, coloquei o pijama, penteei seus cabelos e a levei para o quarto.
— Hora de dormir — falei, baixinho.
Ela subiu na cama e se acomodou, abraçando o coelho. Apaguei a luz principal, deixando apenas o abajur aceso.
— Quer uma história?
Aurora não respondeu. Mas bateu levemente na cama, indicando que eu sentasse. Comecei a ler um livro simples, com voz calma, sem exagerar. Aurora me observava com atenção, os olhos ficando pesados aos poucos. Quando terminei, ela já estava quase dormindo.
— Boa noite, Aurora — sussurrei.
Ela fechou os olhos. Fiquei ali mais alguns segundos, apenas observando a respiração tranquila, antes de me levantar. Ao sair do quarto, dei de cara com Lorenzo. Ele estava encostado na parede do corredor, os braços cruzados, expressão ilegível.
— Ela dormiu — falei, em voz baixa.
— Eu vi — respondeu.
Estremeci com a rigidez da resposta.
— Costuma ser difícil?
— Sempre foi — disse. — Até agora.
O silêncio entre nós não era confortável. Nem hostil. Apenas carregado.
— Você fez algo diferente? — ele perguntou.
— Não — respondi. — Apenas fiquei.
Ele me observou com atenção renovada. Como se estivesse recalculando algo.
— Amanhã, jante conosco — disse.
— Jantar?
— Aurora precisa se acostumar com rotina em família — explicou. — E você faz parte disso agora.
Aquilo não soou como convite. Soou como decisão.
— Certo — respondi, sem discutir.
Ele assentiu e se afastou, descendo o corredor. Fiquei parada por alguns segundos, sentindo o peso daquela casa, daquela rotina que começava a se formar sem que eu tivesse escolhido.
Voltei para o meu quarto.
Antes de fechar a porta, olhei pelo corredor uma última vez. A casa ainda não respirava, mas, pela primeira vez, parecia estar tentando.







