Mundo de ficçãoIniciar sessãoSer retirada não foi imediato, foi organizado.
Helena apareceu no meu quarto antes do café, com o tablet na mão e a mesma expressão neutra de sempre.
— A partir de hoje, sua atuação será restrita a horários específicos — disse. — Não haverá contato direto com Aurora sem autorização.
— Isso é temporário? — perguntei.
— É necessário — respondeu. — O tempo será avaliado.
A escolha das palavras não era casual, nada ali era.
Desci para o café sabendo exatamente onde podia sentar. Onde não devia. O espaço ao lado de Aurora estava ocupado.
Helena sentou-se ali.
Aurora não tocou na comida.
O olhar dela me procurou uma única vez. Quando encontrou, desviou rápido demais. Lorenzo entrou alguns minutos depois. Não comentou a nova disposição. Não perguntou se todos estavam confortáveis.
— Bom dia — disse, apenas.
— Bom dia — respondi.
Aurora não respondeu.
— Está tudo conforme o esperado? — perguntou ele, dirigindo-se a Helena.
— Sim — respondeu ela. — A resistência diminui quando o padrão é mantido.
Lorenzo assentiu e começou a comer.
Aurora empurrou o prato.
— Aurora — disse ele. — Coma.
Ela não se moveu.
— Retire o prato — disse Helena.
— Não — falei, antes de pensar.
Os dois olharam para mim.
— Ela não está recusando por desafio — continuei. — Está reagindo.
— Reações passam — respondeu Lorenzo. — Há coisas que não.
— Como vínculos? — perguntei.
Ele não respondeu, o prato foi retirado.
Aurora abaixou a cabeça.
O resto da manhã transcorreu sob um silêncio funcional demais para ser natural. Eu cumpria tarefas menores, organizar materiais, conferir horários, ajudar sem tocar. Observar sem intervir.
Helena estava sempre por perto.
— Evite contato visual prolongado — disse, quando percebeu Aurora me olhando.
Postura neutra, como se alguém pudesse desligar presença.
No início da tarde, ouvi o som. Não era choro, era um ruído baixo, repetido, vindo do quarto de Aurora. Um som contido, preso, que não se transformava em nada.
Helena apareceu logo depois.
— Isso é esperado — disse. — Reorganização gera ruídos emocionais.
— Ela não está bem — respondi.
— Ela está sendo ajustada.
A palavra me atravessou.
— Crianças não se ajustam — falei. — Elas adoecem.
Helena me encarou.
— Não ultrapasse.
À noite, Lorenzo chamou Helena para uma conversa privada. Fiquei do lado de fora. Não ouvi palavras. Apenas o tom, decisivo.
Pouco depois, Helena voltou.
— O senhor Vellardi determinou novas medidas — disse. — Você ficará afastada das funções internas por alguns dias.
— Está me suspendendo?
— Está te isolando.
— Por quê?
— Porque a presença também é estímulo.
— E a ausência?
— É correção.
Quando Lorenzo apareceu, não explicou.
— Isso não é punição — disse. — É prevenção.
— Do quê? — perguntei.
— Do que não deve crescer.
— O senhor está tratando afeto como falha — respondi.
— Estou tratando interferência como risco.
— E se o risco for o que ela precisa?
Ele me encarou.
— Não projete.
— Não ignore.
O silêncio caiu.
— Você permanece na casa — disse ele. — Mas fora do eixo.
— E se eu me recusar?
— Não se recusará.
Não foi ameaça, foi constatação. Naquela noite, não coloquei Aurora para dormir.
Fiquei sentada no quarto, ouvindo o mesmo som baixo atravessar a parede. Um som que não pedia ajuda, que não pedia nada, apenas existia.
Mais tarde, Helena passou pelo corredor.
— Isso tende a cessar — disse.
— Ou a se internalizar — respondi.
Ela não respondeu.
Antes de dormir, Lorenzo apareceu à porta do meu quarto.
— Você está dificultando — disse.
— Eu estou vendo — respondi.
— Ver não é agir.
— Às vezes é a única coisa que impede o erro.
— Erros se corrigem — respondeu ele.
— Traumas não.
A palavra ficou no ar, Lorenzo não se mexeu.
— Amanhã — disse — tomaremos uma decisão maior.
— Sobre mim?
— Sobre tudo.
Ele saiu.
Deitei sem apagar a luz. Pela primeira vez desde que cheguei ali, tive clareza absoluta:
não se tratava mais de regras.
Tratava-se de quem seria quebrado primeiro.







