Diante de Outros

O dia começou como sempre.

Mila acordou no horário de sempre, tomou café comigo, passou a manhã entre livros e desenhos. Nada saiu do eixo. Nada precisou ser corrigido. Se alguém observasse de fora, diria que tudo funcionava exatamente como deveria.

E talvez fosse isso que tornava tudo tão estranho.

Dominic saiu cedo novamente. Soube disso por comentários soltos, por portas que se abriram e fecharam sem que eu visse. Mas havia algo fora do lugar, não em Mila, não na rotina. Em Dominic.

Percebi isso quando ele voltou no meio da tarde. Eu estava no jardim com Mila, sentada no chão enquanto ela desenhava. Não notei sua presença de imediato. Só senti aquela mudança sutil no ar, como se o espaço tivesse se ajustado para acomodar alguém.

Levantei o olhar, ele estava parado a alguns metros de distância. Não falava, não se aproximava, só observava.

Mila continuou desenhando, alheia. Eu permaneci sentada, mas endireitei a postura sem perceber. Um reflexo estranho, automático. Dominic sustentou o olhar por tempo demais, não havia reprovação ali. Nem cobrança direta. Era outra coisa. Um tipo de atenção desconfortável, como se estivesse tentando entender algo que não deveria estar acontecendo. Ele se aproximou depois de alguns segundos.

— Ela passou o dia bem? — perguntou.

— Sim.

— Sem resistência?

— Nenhuma.

Ele assentiu levemente, mas não pareceu satisfeito. O olhar voltou para Mila, depois para mim, como se estivesse comparando duas imagens que não se encaixavam.

— Ela não costuma ficar tanto tempo concentrada — comentou.

— Talvez porque se sinta segura.

As palavras saíram simples, mas algo mudou no rosto dele. Não foi expressão, foi tensão.

— Segurança precisa ser controlada — disse.

— Segurança precisa existir — respondi, sem desafio.

Ele me encarou por um instante a mais do que o necessário. Depois desviou o olhar.

O restante da tarde passou sem incidentes, mas Dominic permaneceu na casa, não interveio, não chamou Mila, não se aproximou novamente. Ainda assim, eu sabia que ele estava ali.

Sentia.

À noite, preparei Mila para o jantar. Tudo seguiu no mesmo horário, no mesmo ritmo conhecido — mas a presença dos visitantes alterava o ar de um jeito difícil de ignorar.

Quando entramos na sala, Dominic já estava à mesa, acompanhado por um homem alguns anos mais velho e um garoto que parecia ter a idade de Mila. O homem se levantou assim que nos viu.

— Dominic — disse, sorrindo. — Finalmente conhecendo a famosa Mila.

Mila parou ao meu lado, observando em silêncio.

— Mila — chamou Dominic, com um tom mais firme do que o necessário. — Este é o senhor Ferrara. E este é o filho dele, Matteo.

O garoto acenou de forma tímida.

— Oi — disse.

Mila não respondeu, mas apertou minha mão por um segundo antes de se sentar. Dominic percebeu, sempre percebia.

Ele puxou a cadeira para a filha e só então voltou a se acomodar. Ajustou os talheres com mais força do que o habitual.

— Boa noite — disse o visitante, agora olhando para mim.

— Boa noite — respondi.

— Você deve ser a babá — comentou, com naturalidade demais. — Dominic falou muito bem do seu trabalho.

Dominic ergueu os olhos rápido demais.

— Eu apenas disse que Mila está mais tranquila — corrigiu.

— O que já diz muita coisa — respondeu o homem, sorrindo de novo.

O jantar começou.

Mila comia em silêncio, concentrada. Matteo falava pouco, mas parecia curioso. Dominic não tocou na comida de imediato.

Observava.

O olhar passava pela filha, por mim, pelos visitantes, e retornava ao prato intocado. Um movimento constante, tenso, quase imperceptível para quem não estivesse atento.

— Ela sempre foi tão quieta? — perguntou o senhor Ferrara, dirigindo-se a Dominic.

— Desde o acidente — respondeu ele. — Antes disso, falava bastante.

— Imagino que seja difícil — comentou o homem. — Mas ela parece bem… confortável agora.

Dominic não respondeu de imediato.

Mila derrubou um pouco de molho sobre a roupa e congelou. Os olhos se arregalaram, buscando reação.

Peguei um guardanapo.

— Está tudo bem — disse, calmamente. — Acontece, vamos resolver isso rapidinho.

Ela relaxou quase no mesmo instante.

— Impressionante — comentou o visitante. — Ela confia muito em você.

O comentário caiu pesado demais.

— Clara sabe lidar com crianças — respondeu Dominic, rápido. — É profissional.

— Claro — concordou o homem. — Mas não é comum ver esse tipo de vínculo tão rápido.

Dominic levou o copo à boca pela primeira vez.

— Vínculos precisam de medida — disse, sem olhar para mim.

O jantar seguiu com conversas sobre negócios. Eu permaneci em silêncio, atenta apenas a Mila. Dominic, no entanto, parecia cada vez mais deslocado, como se algo naquela dinâmica estivesse fugindo do controle.

— E você pretende ficar muito tempo aqui? — perguntou o visitante, de repente.

Antes que eu respondesse, Dominic falou:

— O contrato é claro.

— Eu ia dizer que ainda não sei — completei, mantendo o tom neutro. — Depende das necessidades da Mila.

O olhar de Dominic veio rápido.

— Clara — disse, baixo. — Amanhã, durante a visita, quero que você permaneça apenas como apoio. Nada além disso.

O visitante ergueu a sobrancelha, curioso.

— Visita?

— Compromissos da casa — respondeu Dominic, curto.

— Esse sempre foi meu papel — falei.

— Não exatamente — disse ele, com um tom que encerrou qualquer continuação.

A frase ficou suspensa.

— O senhor quer que eu mude algo no meu trabalho? — perguntei, mantendo a postura.

Dominic me encarou por um instante longo demais para ser casual.

— Quero que mantenha distância emocional — respondeu.

O silêncio à mesa foi imediato.

— Eu cuido da Mila — disse. — Isso envolve vínculo.

— Envolve limite.

— Limite para quem? — perguntei.

Ele demorou a responder.

— Para mim.

O senhor Ferrara pigarreou, desconfortável.

— Bem… talvez seja melhor mudarmos de assunto — sugeriu.

Assenti e me voltei para Mila.

— Vamos escovar os dentes — disse, levantando.

Dominic assentiu.

Coloquei Mila para dormir, li uma história curta, permaneci até que a respiração ficasse lenta e constante. Quando saí do quarto, encontrei Dominic no corredor.

Ele não disse nada, passei por ele sem falar.

Mais tarde, ao voltar para o meu quarto, vi que Dominic ainda estava à mesa, sozinho, os pratos intactos à frente.

Pela primeira vez desde que cheguei ali, tive certeza:

não era eu quem estava ultrapassando limites.

Era ele.

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