Diante de Outros

O dia começou como sempre.

Aurora acordou no horário de sempre, tomou café comigo, passou a manhã entre livros e desenhos. Nada saiu do eixo. Nada precisou ser corrigido. Se alguém observasse de fora, diria que tudo funcionava exatamente como deveria.

E talvez fosse isso que tornava tudo tão estranho.

Lorenzo saiu cedo novamente. Soube disso por comentários soltos, por portas que se abriram e fecharam sem que eu visse. Mas havia algo fora do lugar, não em Aurora, não na rotina. Em Lorenzo.

Percebi isso quando ele voltou no meio da tarde. Eu estava no jardim com Aurora, sentada no chão enquanto ela desenhava. Não notei sua presença de imediato. Só senti aquela mudança sutil no ar, como se o espaço tivesse se ajustado para acomodar alguém.

Levantei o olhar, ele estava parado a alguns metros de distância. Não falava, não se aproximava, só observava.

Aurora continuou desenhando, alheia. Eu permaneci sentada, mas endireitei a postura sem perceber. Um reflexo estranho, automático. Lorenzo sustentou o olhar por tempo demais, não havia reprovação ali. Nem cobrança direta. Era outra coisa. Um tipo de atenção desconfortável, como se estivesse tentando entender algo que não deveria estar acontecendo. Ele se aproximou depois de alguns segundos.

— Ela passou o dia bem? — perguntou.

— Sim.

— Sem resistência?

— Nenhuma.

Ele assentiu levemente, mas não pareceu satisfeito. O olhar voltou para Aurora, depois para mim, como se estivesse comparando duas imagens que não se encaixavam.

— Ela não costuma ficar tanto tempo concentrada — comentou.

— Talvez porque se sinta segura.

As palavras saíram simples, mas algo mudou no rosto dele. Não foi expressão, foi tensão.

— Segurança precisa ser controlada — disse.

— Segurança precisa existir — respondi, sem desafio.

Ele me encarou por um instante a mais do que o necessário. Depois desviou o olhar.

O restante da tarde passou sem incidentes, mas Lorenzo permaneceu na casa, não interveio, não chamou Aurora, não se aproximou novamente. Ainda assim, eu sabia que ele estava ali.

Sentia.

À noite, preparei Aurora para o jantar. Tudo seguiu no mesmo horário, no mesmo ritmo conhecido — mas a presença dos visitantes alterava o ar de um jeito difícil de ignorar.

Quando entramos na sala, Lorenzo já estava à mesa, acompanhado por um homem alguns anos mais velho e um garoto que parecia ter a idade de Aurora. O homem se levantou assim que nos viu.

— Lorenzo — disse, sorrindo. — Finalmente conhecendo a famosa Aurora.

Aurora parou ao meu lado, observando em silêncio.

— Aurora — chamou Lorenzo, com um tom mais firme do que o necessário. — Este é o senhor Ferrara. E este é o filho dele, Matteo.

O garoto acenou de forma tímida.

— Oi — disse.

Aurora não respondeu, mas apertou minha mão por um segundo antes de se sentar. Lorenzo percebeu, sempre percebia.

Ele puxou a cadeira para a filha e só então voltou a se acomodar. Ajustou os talheres com mais força do que o habitual.

— Boa noite — disse o visitante, agora olhando para mim.

— Boa noite — respondi.

— Você deve ser a babá — comentou, com naturalidade demais. — Lorenzo falou muito bem do seu trabalho.

Lorenzo ergueu os olhos rápido demais.

— Eu apenas disse que Aurora está mais tranquila — corrigiu.

— O que já diz muita coisa — respondeu o homem, sorrindo de novo.

O jantar começou.

Aurora comia em silêncio, concentrada. Matteo falava pouco, mas parecia curioso. Lorenzo não tocou na comida de imediato.

Observava.

O olhar passava pela filha, por mim, pelos visitantes, e retornava ao prato intocado. Um movimento constante, tenso, quase imperceptível para quem não estivesse atento.

— Ela sempre foi tão quieta? — perguntou o senhor Ferrara, dirigindo-se a Lorenzo.

— Desde o acidente — respondeu ele. — Antes disso, falava bastante.

— Imagino que seja difícil — comentou o homem. — Mas ela parece bem… confortável agora.

Lorenzo não respondeu de imediato.

Aurora derrubou um pouco de molho sobre a roupa e congelou. Os olhos se arregalaram, buscando reação.

Peguei um guardanapo.

— Está tudo bem — disse, calmamente. — Acontece, vamos resolver isso rapidinho

Ela relaxou quase no mesmo instante.

— Impressionante — comentou o visitante. — Ela confia muito em você.

O comentário caiu pesado demais.

— Serena sabe lidar com crianças — respondeu Lorenzo, rápido. — É profissional.

— Claro — concordou o homem. — Mas não é comum ver esse tipo de vínculo tão rápido.

Lorenzo levou o copo à boca pela primeira vez.

— Vínculos precisam de medida — disse, sem olhar para mim.

O jantar seguiu com conversas sobre negócios. Eu permaneci em silêncio, atenta apenas a Aurora. Lorenzo, no entanto, parecia cada vez mais deslocado, como se algo naquela dinâmica estivesse fugindo do controle.

— E você pretende ficar muito tempo aqui? — perguntou o visitante, de repente.

Antes que eu respondesse, Lorenzo falou:

— O contrato é claro.

— Eu ia dizer que ainda não sei — completei, mantendo o tom neutro. — Depende das necessidades da Aurora.

O olhar de Lorenzo veio rápido.

— Serena — disse, baixo. — Amanhã, durante a visita, quero que você permaneça apenas como apoio. Nada além disso.

O visitante ergueu a sobrancelha, curioso.

— Visita?

— Compromissos da casa — respondeu Lorenzo, curto.

— Esse sempre foi meu papel — falei.

— Não exatamente — disse ele, com um tom que encerrou qualquer continuação.

A frase ficou suspensa.

— O senhor quer que eu mude algo no meu trabalho? — perguntei, mantendo a postura.

Lorenzo me encarou por um instante longo demais para ser casual.

— Quero que mantenha distância emocional — respondeu.

O silêncio à mesa foi imediato.

— Eu cuido da Aurora — disse. — Isso envolve vínculo.

— Envolve limite.

— Limite para quem? — perguntei.

Ele demorou a responder.

— Para mim.

O senhor Ferrara pigarreou, desconfortável.

— Bem… talvez seja melhor mudarmos de assunto — sugeriu.

Assenti e me voltei para Aurora.

— Vamos escovar os dentes — disse, levantando.

Lorenzo assentiu.

Coloquei Aurora para dormir, li uma história curta, permaneci até que a respiração ficasse lenta e constante. Quando saí do quarto, encontrei Lorenzo no corredor.

Ele não disse nada, passei por ele sem falar.

Mais tarde, ao voltar para o meu quarto, vi que Lorenzo ainda estava à mesa, sozinho, os pratos intactos à frente.

Pela primeira vez desde que cheguei ali, tive certeza:

não era eu quem estava ultrapassando limites.

Era ele.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App