Mundo ficciónIniciar sesiónPara fugir de um pai violento e de um passado de miséria, Marília aceitou o conselho da irmã: assumir sua identidade e um emprego em uma mansão onde nunca deveria estar. Agora, ela é a babá dos filhos de Marcelo Bragança, um CEO viúvo, frio e implacável. Marília é inexperiente e carrega um segredo que pode destruí-la a qualquer momento. Marcelo só queria alguém que colocasse ordem em sua casa, mas acaba obcecado pela doce e misteriosa babá. Em um jogo perigoso de sedução e mentiras, Marília descobrirá que o luxo tem seu preço, e que o desejo pelo patrão pode ser o seu maior erro... ou sua única salvação.
Leer másEu estava tirando as roupas do varal quando olhei para o céu e tive certeza de que ia chover mais tarde. O vento vinha diferente, meio grosso, trazendo cheiro de sal e de coisa guardada. Passei a mão na camiseta ainda úmida e pensei na Tina lá na cidade, andando de porta em porta atrás de um emprego de verdade, desses com carteira assinada, com salário que não acaba antes do mês. Fiquei imaginando ela entrando em loja chique, com o jeito decidido e confiante, que só minha irmã tem, fingindo que não está cansada por dentro.
Há alguns metros dali, umas crianças jogavam bola descalças, gritando alto, levantando poeira. Meninos com roupa gasta, joelho ralado, mais acostumados com a rua do que com casa. Cresci vendo esses mesmos meninos virarem homens antes da hora e desaparecerem no mundo, como se a vila fosse um sapato apertado demais. Olhei para o mar logo depois, aquele azul que parece calmo, mas engana. Suspirei pensando no Jonas, meu irmão, e no caminho torto que ele sempre escolhe. Fiquei me perguntando se ele voltaria naquele dia ou se ia continuar por aí, se enroscando em mesa de bar e jogo de azar, trazendo problema no bolso em vez de dinheiro. Terminei de tirar as roupas e entrei em casa com o cesto encostado no quadril. O chão ainda estava morno do sol da manhã. Comecei a dobrar tudo em cima da mesa, separando o que era meu, o que era da Tina, do Jonas, e o que era do meu pai. Foi aí que escutei a voz dele, primeiro distante, depois mais perto, grossa, embolada. Meu coração apertou na mesma hora. Eu conhecia aquele tom melhor do que queria. Meu pai bêbado era outro homem, um que não cabia dentro das lembranças boas. O medo subiu como formiga pelo meu corpo inteiro. Desde a última vez eu nunca mais consegui ouvir a voz dele sem tremer por dentro. Tina não estava ali para se meter no meio, para virar muralha entre ele e eu. Fiquei parada com uma camisa nas mãos, sem saber se largava tudo ou se fingia que não tinha escutado. As pernas decidiram por mim. Fui direto para o banheiro e tranquei a porta, como se aquele pedaço de madeira fosse capaz de me salvar dele. Ele entrou chamando meu nome, arrastando as palavras. — Mari! Cadê você, maldita? Bateu em alguma coisa na sala, xingou baixo, abriu a porta dos quartos. Cada passo dele parecia dentro da minha cabeça. Eu me encolhi no canto do banheiro, sentindo o cheiro de sabão barato misturado com o meu próprio medo. Quando ele tentou abrir a porta e não conseguiu, começou a bater com força. — Abre essa porta! Fiquei muda, apertando os braços em volta do corpo, rezando para a Tina aparecer como sempre fazia. A porta gemeu, a fechadura cedeu, e ele entrou com os olhos vermelhos, meio perdidos. Olhou para mim como se eu fosse outra pessoa. — Você é igualzinha a ela… igualzinha — resmungou. — Isso me tira do sério. Antes que eu conseguisse levantar, ele me puxou pelos cabelos e me arrastou até a sala. O chão parecia longe, tudo girando. Ele me sacudiu, perguntando por que eu tinha que parecer tanto com a minha mãe, como se eu tivesse escolhido meu próprio rosto. Senti a mão dele descer para a minha saia e meu corpo inteiro congelou. Foi quando a porta abriu de uma vez, com uma violência que já denunciava que minha irmã estava ali. — Solta ela, pai! Tina entrou como tempestade. Empurrou ele com tanta força que ele caiu de lado no sofá. Levantou de novo, furioso, e minha irmã se colocou na minha frente, braços abertos, me escondendo atrás do próprio corpo. — Vai embora daqui — ela gritou. — Some dessa casa! Ele respondeu com xingamento, levantou a mão e acertou o rosto dela. O barulho me atravessou inteira. Eu me levantei sem pensar e puxei a Tina pelo braço. Saímos correndo para fora, o coração batendo na garganta. No quintal, ela parou de repente, segurando meu rosto com as duas mãos. — Mari, me escuta. Você vai pular a janela do quarto, pegar o que der e vai embora agora. Enfiou um papel amassado na minha mão. — Esse é o endereço de um trabalho. Você vai se passar por mim, entendeu? Diz que é Cristina. — Eu não vou sem você — falei, quase chorando. — Não quero te deixar aqui. Ela balançou a cabeça. — Me deram duas opções de emprego. Iria escolher uma. Ficarei com outro emprego que me ofereceram. É perto desse endereço, prometo que vou logo depois. Mas você precisa sair primeiro, antes que ele... faça algo com você. Abracei minha irmã com força, sentindo o cheiro de suor e de sabão dela, aquele cheiro de casa que sempre foi mais seguro que parede. — Promete que vai mesmo? — Prometo, irmã. — Ela sorriu de um jeito corajoso que só a Tina sabe fazer. — Eu não vou conseguir te proteger para sempre aqui. Essa é a sua chance. A voz do meu pai ecoou de novo. Ela colocou um bolo de dinheiro na minha mão. — Passagem e comida. Você vai pro Rio de Janeiro. Já estarão esperando por você. E lembre-se, você é Cristina lá. Não deu tempo de discutir. Dei a volta no terreno, pulei a janela do quarto e comecei a enfiar na mochila tudo que encontrei: uma blusa, meu caderno, uma foto velha, a calça jeans que era da Tina antes de ser minha. Vesti a camiseta mais limpa, calcei o tênis e, quando ouvi o meu pai se aproximando outra vez, pulei para fora como se o chão estivesse pegando fogo. Corri sem olhar para trás. O ar queimava no peito, as pernas tremiam, mas eu só pensava em chegar no ponto de ônibus antes que ele me alcançasse. Quando avistei a placa torta no meio da estrada, quase caí. Me escondi atrás dela, com a vista do mar lá longe, azul demais para um dia tão feio. Fiquei ofegante, contando os minutos como quem conta batida de coração. O ônibus demorou, mas apareceu levantando poeira. Entrei sem olhar para ninguém e me sentei na janela. A vila começou a ficar pequena, com as casas virando caixinhas, o mar virando risco. Pensei na Tina sozinha com ele, no papel amassado dentro do bolso, no nome que eu ia fingir ser. As lágrimas vieram sem pedir licença. Encostei a testa no vidro e deixei a estrada me levar, sem saber se estava fugindo de casa ou tentando nascer de novo.O sol do quase meio-dia fazia a água da piscina brilhar. Eu estava sentada na espreguiçadeira, fingindo que observava apenas os meninos, mas, na verdade, tentando organizar o caos dentro de mim. Bento e Noah mergulhavam, competindo para ver quem ficava mais tempo submerso, surgindo depois com os cabelos grudados na testa e o riso alto que parecia ecoar pela casa inteira. Eu sorria para eles, mas meu sorriso não tinha a mesma leveza. Ainda sentia o gosto do beijo da noite anterior, ainda sentia o peso das mãos de Marcelo na minha nuca, ainda sentia o medo crescendo silencioso, como uma maré que sobe sem fazer barulho. Ele apareceu sem que eu percebesse. Apenas senti a sombra mudar ao meu lado e, quando virei o rosto, ele já estava ali, se sentando na cadeira ao lado da minha, com a postura relaxada que me deixava nervosa. Usava uma camisa clara de linho, as mangas dobradas até os antebraços, óculos escuros escondendo os olhos que eu já sabia que me observavam com uma intensidade di
Quando os últimos convidados foram embora, o jardim parecia um campo depois de uma batalha colorida. Copos esquecidos sobre as mesas, guardanapos amassados, restos de balões murchos rolando pela grama. A música já tinha sido desligada, mas o eco das risadas ainda parecia preso no ar. Os gêmeos estavam exaustos. Eu mesma os levei para o banho, ajudei a trocar de roupa e ouvi as frases desconexas que se misturavam com bolo e presentes, até que os dois simplesmente apagaram, ainda com o sorriso mole no rosto. Fiquei alguns minutos observando-os dormir, os cílios longos projetando pequenas sombras nas bochechas coradas. Era por eles que eu permanecia firme. Era por eles que eu ainda estava ali. Desci novamente e ajudei a equipe do buffet na arrumação. Eles insistiam que eu não precisava fazer isso, que já tinham tudo sob controle, mas eu precisava ocupar as mãos. Precisava que o corpo ficasse cansado o suficiente para calar a minha mente. Carreguei bandejas, recolhi talheres, do
A festa começou antes mesmo de o relógio marcar o horário oficial. O jardim, que de manhã ainda era um canteiro de fios e escadas, agora parecia cenário de filme infantil. Balões em arco na entrada, mesas decoradas com temas coloridos, toalhas vibrantes, arranjos de flores misturados com brinquedos em miniatura. Um painel enorme com o nome de Noah e Bento em letras douradas brilhava sob a luz suave do fim de tarde. Havia música animada tocando em volume moderado, risadas espalhadas e o cheiro doce de algodão-doce misturado com pipoca estourando ao fundo. Eu demorei alguns segundos parada diante do espelho antes de descer. O vestido que Marcelo tinha escolhido para mim na loja caía com leveza pelo meu corpo, o tecido fluido acompanhando cada pequeno movimento. Era de um tom suave, elegante, nada muito chamativo, mas ainda assim bonito o suficiente para me fazer sentir diferente de mim mesma. A pulseira que Bento me deu estava firme no pulso, delicada, era a coisa mais preciosa que
No dia seguinte, a casa acordou antes do sol, e eu também. Quando desci, já havia gente entrando e saindo pelos fundos, caixas sendo descarregadas, balões gigantes passando pelo corredor como planetas coloridos prestes a invadir a sala principal. O jardim estava irreconhecível. Estruturas metálicas sendo montadas, uma mesa comprida coberta por tecido branco, arranjos ainda pela metade. O cheiro de grama recém-cortada misturado com doce de confeitaria pairava no ar. Faltavam poucas horas para a festa dos gêmeos, e tudo parecia pulsar numa ansiedade elétrica. Eu me joguei no trabalho como quem mergulha para não pensar. Conferi novamente lista de convidados infantis, ajudei a decidir onde ficariam os brinquedos infláveis, segurei escada para um rapaz pendurar luzes entre as árvores. Quando alguém perguntava qualquer coisa, eu respondia rápido, quase automática. Não parei um minuto. Não quis parar. Se eu parasse, pensava. E se pensasse, lembrava do escritório, do contrato, do pedido d
Norma ainda me encarava com seus olhos castanhos e cansados. — Você escutou? O patrão quer falar com você, no escritório. — Escutei, Norma. Mas aconteceu alguma coisa? — perguntei. — Não. Acho que não. Ele não me disse nada, querida. — Certo. Já estou indo... Olhei para a equipe que ainda se movimentava de um lado para o outro. E para os meninos que observavam tudo, curiosos. O ensaio mental que eu tinha feito mais cedo voltou com força: se ele perguntar quem era que estava no portão comigo, eu digo que é minha irmã; se perguntar por que ela parecia nervosa, eu digo que é coisa de família; se perguntar qualquer coisa além disso… eu improviso. Só que improvisar nunca foi meu forte quando estou tensa. A porta do escritório estava entreaberta. Bati de leve. — Pode entrar — a voz dele veio firme, controlada. Entrei. O escritório tinha cheiro de madeira encerada e café recém-passado. A luz da tarde atravessava as persianas, desenhando faixas douradas sobre a mesa
Os dias seguintes passaram numa velocidade estranha, como se a casa tivesse decidido fingir que nada tinha acontecido naquela madrugada. Eu fiz o mesmo. Marcelo saiu antes de qualquer um acordar todas as manhãs. Quando eu descia com os meninos para o café, a cadeira dele já estava vazia, o jornal dobrado ao lado do prato intocado. À noite, quando eu finalmente me recolhia para o quarto, ouvia o som distante do portão se abrindo, o carro entrando, passos contidos pelo corredor. Ele chegava quando todos já estavam dormindo. E não cruzávamos, nem por acaso. Nem por descuido. Aquilo doía mais do que eu gostaria de admitir. Eu tinha passado dias dizendo a mim mesma que o beijo não podia ter acontecido. Que tinha sido um erro. Que era melhor manter distância. E agora que ele realmente mantinha distância, algo em mim se ressentia. Como se eu tivesse sido deixada no meio de uma frase que nunca terminou. Ele se arrependeu. Era o que minha cabeça repetia. Ele percebeu que ultrapassou o li





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