Proibido ficar

  Troquei a roupa molhada por outra que a Norma me emprestou e fui encontrá-la na área externa. A casa parecia ainda maior vista de fora, com um jardim que cheirava a grama recém-cortada e folhas frescas. Os meninos estavam sentados perto da piscina, agora mais calmos, mas tagarelando como dois rádios ligados no mesmo volume.

  — Venham aqui — Norma chamou. — Quero apresentar vocês. 

  Eles se aproximaram me olhando dos pés à cabeça, como se eu fosse um bicho novo no quintal.

  — Essa é a Cristina, a nova babá de vocês.

  Bento me encarou primeiro, os olhos curiosos, quase gentis. Noah cruzou os braços e soltou:

  — Vai ser só mais uma que não dura.

  Norma estalou a língua.

  — Chega, Noah. Respeito. Agora os dois para o banho e se preparem para o jantar.

  Os meninos saíram correndo para dentro da casa como se o chão estivesse pegando fogo. Fiquei olhando aquele rastro de energia desaparecer dali. 

  Sozinha comigo, Norma mudou o tom.

  — Escuta, Cristina. Os horários deles são sagrados. Aulas particulares de manhã, escola à tarde, reforço duas vezes por semana. Você vai acompanhar tudo, ver tarefa, agenda, uniforme, remédio do Bento. Precisa garantir que comam direito, que não se metam em confusão… e acredite, eles encontram perigo até onde não existe.

  Eu balançava a cabeça, mas por dentro me perguntava se cabia tanta responsabilidade numa pessoa só. Eu mal sabia cuidar de mim.

  — E preciso dos seus documentos para formalizar — ela continuou. — Para que você receba todos os seus direitos. 

  Senti o estômago afundar.

  — Eu… acabei esquecendo. Mas peço para minha família mandar pelo correio.

  — Consiga o quanto antes — ela respondeu, me olhando com atenção demais.

  Assenti tentando não deixar o nervosismo escapar pelos poros.

  Norma me levou primeiro para o espaço de estudos dos garotos, uma sala clara cheia de livros, mapas na parede, duas mesas iguais, mas com bagunças diferentes. Depois seguimos para a cozinha, enorme, com panelas brilhando como espelho.

  — Bento tem algumas alergias — explicou. — Nada grave se a gente cuidar. A alimentação dele é mais restrita. E Noah come até parede se deixar. 

  Sorri sem jeito.

  Por fim conheci os quartos. Eram tão grandes que caberia minha antiga casa inteira dentro de um deles. Um era decorado com carros e motos, miniaturas alinhadas como exército, pôster de pista de corrida. O outro tinha pranchas desenhadas na parede, fotos de mar, conchas numa estante.

  — Eles dormiam juntos — Norma contou. — Mas pediram quartos separados. Fizemos uma reforma, colocamos uma parede no meio, dois banheiros… mas deixamos uma porta ligando os quartos. Ideia deles. Dizem que precisam “se visitar” de madrugada.

  Fiquei imaginando que tipo de mundo cabia dentro da cabeça daqueles dois.

  Os meninos apareceram já de banho tomado, cabelo molhado, cheirando a sabonete caro.

  — Aguardem o jantar — Norma avisou. — Cristina, eles comem sempre no mesmo horário. Você fica por perto para garantir que comeram direito. Desça com eles em cinco minutos.

  — Entendi. 

  Assim que Norma saiu, senti quatro olhos grudarem em mim.

  — Então — arrisquei — quem é quem?

  Eles deram risadinhas cúmplices.

  — Adivinha — um deles provocou.

  Analisei os dois com calma.

  — Do que vocês gostam?

  — Pra que quer saber? — o outro perguntou desconfiado.

  — Quero conhecer vocês.

  — Não pode conhecer a gente — respondeu o primeiro, sério demais para uma criança.

  — Por que não?

  Ele coçou o nariz.

  — Se conhecer, não será bom pra gente. 

  O irmão cutucou.

  — Não precisava falar isso.

  Respirei fundo. Aquilo era uma muralha invisível.

  — Vamos fazer um trato — sugeri. — Vocês me contam o que gostam e eu conto uma coisa que eu gosto e que vocês vão achar engraçado.

  Eles se olharam, conspirando em silêncio.

  — Tá — disse um deles. — Eu gosto de carro. Quero ser piloto de corrida quando for grande. 

  Lembrei do quarto cheio de pistas e plaquinhas com nome de Noah. Tive certeza, mas fingi não saber.

  — E você? — perguntei ao outro.

  — Eu gosto de coisa mais... calma. Gosto de Surf. Fiz aula nas férias e não caí nenhuma vez.

  Sorri, sentindo que ele me entregava um pedacinho secreto.

  — Então deixa eu tentar. O do surf é o Bento. O dos carros é o Noah.

  Os dois arregalaram os olhos.

  — Como você sabe?

  — Vocês são iguais, mas não são. Bento tem uma pintinha perto da boca. Noah tem uma cicatriz embaixo do queixo.

  Eles ficaram de boca aberta.

  — Bruxaria — Noah resmungou.

  Ri baixinho.

  — Só prestei atenção.

  Ele balançou a cabeça, meio contrariado.

  — Então, é a sua vez de contar o que gosta. 

  Encarei o menino.

  — Não vão me zoar?

  Eles balançaram suas cabeças. 

  — Não dá para zoar algo que a gente nem sabe o que é. — respondeu Noah. 

  — Você tem razão. — falei, assentindo — Eu gosto de desenhos. Fico desenhando tudo que vejo. 

  Noah riu. 

  — Não é coisa de criança?

  — Depende. Adultos também desenham. Nunca ouviram falar de pintores famosos?

  — Mas é diferente. Eles pintam. 

  — Para pintar, precisa desenhar, Noah. 

  Um sino agudo soou pela casa. Bento levantou num pulo.

  — Jantar! Estou faminto. 

  Fui atrás deles ainda confusa com aquele ritual. Na sala de jantar, uma mesa enorme parecia esperar um batalhão. Eles se sentaram lado a lado e eu fiquei em pé, imitando uma mulher de avental que devia ser a cozinheira.

  Enquanto os dois comiam, fiquei pensando por que levantavam tanta defesa. Talvez fizessem isso com todas as babás. Talvez por isso nenhuma tivesse ficado. Senti um aperto ao imaginar que comigo poderia ser igual. E se me mandassem embora? Para onde eu iria?

  Depois do jantar, eles correram para a sala de jogos. Passaram uma hora entre videogame e risadas altas. Fui orientada a olhar os cadernos, conferir agendas, tarefas. Fiz tudo com cuidado, tentando entender a letra torta de cada um.

  — Hora de dormir — avisei, olhando para o relógio de parede.

  Eles resmungaram, mas obedeceram. Escovaram os dentes, vestiram pijama. Estavam cansados, dava para ver. Quando se deitaram, apaguei a luz e fiquei um instante ouvindo a respiração deles atravessar a parede nova que dividia os quartos.

  Voltei para a cozinha encontrar Norma.

  — Não se engane com essa calmaria — ela disse. — Esses dois aprontam até dormindo.

  Sorri sem graça.

   — Pode jantar ali — apontou para a mesa menor. — O patrão deve chegar a qualquer momento. Ele  costuma comer sozinho… quando come. Talvez ele chegue mais tarde, a gente nunca sabe ao certo, então ficamos de prontidão, até... ele chegar e dormir. 

   — E a mãe deles?

  Norma suspirou, o rosto se fechando.

  — Patrícia morreu há alguns anos. Estava grávida. Ela e o bebê… acidente de carro.

  Senti o chão dar uma leve afundada.

  — Desculpa… eu não sabia.

  — Em algum momento você ia ter que saber. Mas esse assunto é proibido perto dos meninos. Aqui dentro quase não se fala disso.

  Assenti em silêncio. Enquanto mastigava a comida que mal tinha gosto, pensei naqueles dois garotos correndo pela casa enorme, no pai que quase não aparecia e em mim, fingindo ser quem não era. Tive a sensação estranha de que todo mundo ali estava vivendo com um nome emprestado, tentando não quebrar por dentro.

  Terminei de jantar meio sem sentir o gosto da comida. Tudo ali parecia grande demais para caber na minha boca, na minha história, no meu corpo. Norma voltou com uma pasta azul debaixo do braço e colocou na mesa como quem entrega um manual de sobrevivência.

  — Aqui tem tudo — disse ela, abrindo e folheando com dedos rápidos. — Horários, telefones da escola, das aulas particulares, lista das alergias do Bento, remédios, rotina de banho, de dormir. Até o que eles detestam comer.

  Peguei a pasta com cuidado, folheando com cuidado. 

  — Obrigada, dona Norma. De verdade.

  — Não me chama de dona — ela respondeu, mas sem grosseria. — E outra coisa: antes de se deitar, confirma se os dois estão dormindo. Às vezes eles viram morcego depois das dez. 

  Assenti.

  Eu ainda estava tentando decorar o mapa daquela casa que parecia não ter fim. Subi as escadas com a pasta apertada contra o peito. O corredor dos quartos dos meninos estava com luz baixa, aquele tipo de claridade que deixa tudo meio secreto. A porta que ligava um quarto ao outro estava entreaberta e dava para ouvir as vozes deles, fininhas, atravessando a parede nova.

  Fiquei parada, sem querer, escutando.

  — Você acha que ela fica? — um perguntou.

  Reconheci o tom mais manso. Bento.

  — Não pode ficar — respondeu o outro, mais firme. Noah. — Quanto mais tempo, pior. Você sabe disso. 

  — Mas ela parece legal… — Bento insistiu. — Descobriu até quem era quem de nós dois. As outras sempre trocavam a gente.

  — Não importa — Noah retrucou. — Legal ou não, é melhor ir embora logo.

  Meu coração apertou como pano torcido. Eu nem tinha começado e já tinha prazo de validade na cabeça deles. Encostei a testa na parede fria, tentando entender por que duas crianças tinham tanto medo de gente que ficava.

  — Se ela for embora também — Bento murmurou — acho que vou ficar chateado com você. 

  — Fica — Noah respondeu baixinho. — Melhor com chateado do que com saudade.

  Engoli seco. Quis entrar, dizer que eu estava ali, que não era inimiga, que também tinha medo de ir embora e não ter para onde voltar. Mas antes que eu criasse coragem, ouvi passos atrás de mim, firmes, ecoando no corredor.

  Me virei num susto e dei de cara com um homem parado a poucos metros. Alto, terno escuro meio afrouxado, gravata torta, cara de quem atravessou o dia inteiro sem sentar um minuto. Ele me olhava com uma mistura de cansaço e surpresa, como se eu fosse um móvel novo que apareceu fora do lugar. 

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