Mundo de ficçãoIniciar sessão
Eu estava tirando as roupas do varal quando olhei para o céu e tive certeza de que ia chover mais tarde. O vento vinha diferente, meio grosso, trazendo cheiro de sal e de coisa guardada. Passei a mão na camiseta ainda úmida e pensei na Tina lá na cidade, andando de porta em porta atrás de um emprego de verdade, desses com carteira assinada, com salário que não acaba antes do mês. Fiquei imaginando ela entrando em loja chique, com o jeito decidido e confiante, que só minha irmã tem, fingindo que não está cansada por dentro.
Há alguns metros dali, umas crianças jogavam bola descalças, gritando alto, levantando poeira. Meninos com roupa gasta, joelho ralado, mais acostumados com a rua do que com casa. Cresci vendo esses mesmos meninos virarem homens antes da hora e desaparecerem no mundo, como se a vila fosse um sapato apertado demais. Olhei para o mar logo depois, aquele azul que parece calmo, mas engana. Suspirei pensando no Jonas, meu irmão, e no caminho torto que ele sempre escolhe. Fiquei me perguntando se ele voltaria naquele dia ou se ia continuar por aí, se enroscando em mesa de bar e jogo de azar, trazendo problema no bolso em vez de dinheiro. Terminei de tirar as roupas e entrei em casa com o cesto encostado no quadril. O chão ainda estava morno do sol da manhã. Comecei a dobrar tudo em cima da mesa, separando o que era meu, o que era da Tina, do Jonas, e o que era do meu pai. Foi aí que escutei a voz dele, primeiro distante, depois mais perto, grossa, embolada. Meu coração apertou na mesma hora. Eu conhecia aquele tom melhor do que queria. Meu pai bêbado era outro homem, um que não cabia dentro das lembranças boas. O medo subiu como formiga pelo meu corpo inteiro. Desde a última vez eu nunca mais consegui ouvir a voz dele sem tremer por dentro. Tina não estava ali para se meter no meio, para virar muralha entre ele e eu. Fiquei parada com uma camisa nas mãos, sem saber se largava tudo ou se fingia que não tinha escutado. As pernas decidiram por mim. Fui direto para o banheiro e tranquei a porta, como se aquele pedaço de madeira fosse capaz de me salvar dele. Ele entrou chamando meu nome, arrastando as palavras. — Mari! Cadê você, maldita? Bateu em alguma coisa na sala, xingou baixo, abriu a porta dos quartos. Cada passo dele parecia dentro da minha cabeça. Eu me encolhi no canto do banheiro, sentindo o cheiro de sabão barato misturado com o meu próprio medo. Quando ele tentou abrir a porta e não conseguiu, começou a bater com força. — Abre essa porta! Fiquei muda, apertando os braços em volta do corpo, rezando para a Tina aparecer como sempre fazia. A porta gemeu, a fechadura cedeu, e ele entrou com os olhos vermelhos, meio perdidos. Olhou para mim como se eu fosse outra pessoa. — Você é igualzinha a ela… igualzinha — resmungou. — Isso me tira do sério. Antes que eu conseguisse levantar, ele me puxou pelos cabelos e me arrastou até a sala. O chão parecia longe, tudo girando. Ele me sacudiu, perguntando por que eu tinha que parecer tanto com a minha mãe, como se eu tivesse escolhido meu próprio rosto. Senti a mão dele descer para a minha saia e meu corpo inteiro congelou. Foi quando a porta abriu de uma vez, com uma violência que já denunciava que minha irmã estava ali. — Solta ela, pai! Tina entrou como tempestade. Empurrou ele com tanta força que ele caiu de lado no sofá. Levantou de novo, furioso, e minha irmã se colocou na minha frente, braços abertos, me escondendo atrás do próprio corpo. — Vai embora daqui — ela gritou. — Some dessa casa! Ele respondeu com xingamento, levantou a mão e acertou o rosto dela. O barulho me atravessou inteira. Eu me levantei sem pensar e puxei a Tina pelo braço. Saímos correndo para fora, o coração batendo na garganta. No quintal, ela parou de repente, segurando meu rosto com as duas mãos. — Mari, me escuta. Você vai pular a janela do quarto, pegar o que der e vai embora agora. Enfiou um papel amassado na minha mão. — Esse é o endereço de um trabalho. Você vai se passar por mim, entendeu? Diz que é Cristina. — Eu não vou sem você — falei, quase chorando. — Não quero te deixar aqui. Ela balançou a cabeça. — Me deram duas opções de emprego. Iria escolher uma. Ficarei com outro emprego que me ofereceram. É perto desse endereço, prometo que vou logo depois. Mas você precisa sair primeiro, antes que ele... faça algo com você. Abracei minha irmã com força, sentindo o cheiro de suor e de sabão dela, aquele cheiro de casa que sempre foi mais seguro que parede. — Promete que vai mesmo? — Prometo, irmã. — Ela sorriu de um jeito corajoso que só a Tina sabe fazer. — Eu não vou conseguir te proteger para sempre aqui. Essa é a sua chance. A voz do meu pai ecoou de novo. Ela colocou um bolo de dinheiro na minha mão. — Passagem e comida. Você vai pro Rio de Janeiro. Já estarão esperando por você. E lembre-se, você é Cristina lá. Não deu tempo de discutir. Dei a volta no terreno, pulei a janela do quarto e comecei a enfiar na mochila tudo que encontrei: uma blusa, meu caderno, uma foto velha, a calça jeans que era da Tina antes de ser minha. Vesti a camiseta mais limpa, calcei o tênis e, quando ouvi o meu pai se aproximando outra vez, pulei para fora como se o chão estivesse pegando fogo. Corri sem olhar para trás. O ar queimava no peito, as pernas tremiam, mas eu só pensava em chegar no ponto de ônibus antes que ele me alcançasse. Quando avistei a placa torta no meio da estrada, quase caí. Me escondi atrás dela, com a vista do mar lá longe, azul demais para um dia tão feio. Fiquei ofegante, contando os minutos como quem conta batida de coração. O ônibus demorou, mas apareceu levantando poeira. Entrei sem olhar para ninguém e me sentei na janela. A vila começou a ficar pequena, com as casas virando caixinhas, o mar virando risco. Pensei na Tina sozinha com ele, no papel amassado dentro do bolso, no nome que eu ia fingir ser. As lágrimas vieram sem pedir licença. Encostei a testa no vidro e deixei a estrada me levar, sem saber se estava fugindo de casa ou tentando nascer de novo.






