A viagem de volta da escola foi silenciosa, mas um silêncio diferente, quase cheio de barulho. Eu olhava pela janela do carro e parecia que cada prédio carregava uma história própria. Vidros espelhados, gente apressada atravessando a rua, cheiro de padaria misturado com fumaça de ônibus. Nada daquilo existia na minha vila, onde o som mais alto era o motor dos barcos e o grito das gaivotas.
— Está se adaptando à cidade? — o motorista perguntou, me observando pelo retrovisor.
Demorei um segundo para responder, porque ainda estava tentando me adaptar até ao meu próprio nome falso.
— Ainda estou… é tudo muito novo pra mim.
Ele sorriu de lado, simpático.
— Eu sou o Digo. Rodrigo só no documento. Se precisar de qualquer coisa, fala comigo.
— Obrigada, Digo.
Criei coragem e perguntei algo que estava martelando desde que olhei meu guarda-roupa improvisado.
— Você sabe onde tem lugar pra comprar roupa barata por aqui? Tipo… bem barata mesmo?
Ele parou no semáforo e me olhou com atenção.
— Minha esposa compra num brechó bom. Posso te levar quando quiser.
— Quem sabe numa folga — respondi, sem querer abusar da boa vontade.
— Folga? — ele riu. — Enquanto os meninos estão na escola você tá livre, menina. Aproveita esse tempo pra cuidar de você.
Assenti, aliviada por ouvir aquilo.
— De onde você é? — perguntou.
— Barra Grande, na Bahia.
— Dizem que a Bahia é um paraíso.
Suspirei, pensando na areia quente grudando no pé e no cheiro de peixe às cinco da manhã.
— Pra turista é lindo. Pra quem mora lá… falta oportunidade. A maioria vive da pesca, do que aparece. O turismo ajuda para quem vive do artesanato e... comércios. Fora de temporada é complicado. Eu morava numa vila pequena, na praia.
Ele concordou com a cabeça, como quem entende mais do que diz.
Me inclinei um pouco para frente.
— Posso te pedir para guardar um segredo?
— Um segredo? Claro.
— Onde tem autoescola por aqui?
Ele franziu a testa.
— Você não sabe dirigir?
Mordi o lábio.
— Tô com medo de perder o emprego. Me confundi quando perguntaram se eu já tinha carta de motorista.
Digo pensou um pouco, tamborilando no volante.
— Posso te ensinar nas folgas. E conheço um cara de uma autoescola, que pode te ajudar com os testes e os documentos.
— Você tá salvando minha vida, Digo. — falei, quase rindo de nervoso.
— Trabalhar pros Bragança não é mole. Já vi babá fugir antes do primeiro mês, principalmente por causa dos gêmeos.
Fiquei pensativa.
— Eles passam algum tempo com o pai?
— Olha, dá pra contar nos dedos — ele respondeu sem rodeio. — Marcelo vive viajando. Às vezes passa fim de semana inteiro fora.
— Os meninos devem sentir falta dele, então.
— Desde que a esposa morreu, ele se fechou. Até para os filhos.
Tentei imaginar aquele homem, de olhar duro, carregando um luto tão pesado por dentro.
Quando chegamos à casa, procurei Norma.
— Foi tudo bem?
— Eles entraram direitinho. Esperei o portão fechar, como a senhora pediu.
— Ainda bem. Esses pestinhas fugiram algumas vezes e o patrão quase derrubou a escola.
— E agora? Faço o quê?
— Pode usar o tempo como quiser. Mas trate de resolver os documentos. O patrão perguntou sobre isso mais cedo.
O aviso me gelou por dentro. Subi para o quarto, peguei meus documentos verdadeiros, o dinheiro contado e saí. Passei por Digo, que ofereceu carona, mas preferi caminhar. Precisava pensar com as pernas.
Andei olhando aquelas casas elegantes, sentindo que eu destoava como chinelo em festa chique. Entrei numa lojinha e perguntei por telefone público. A moça me olhou como se eu tivesse pedido para falar com o imperador.
— Orelhão? Quase não tem mais, querida. Precisa ligar para alguém?
— Preciso sim.
— Usa meu celular se for algo urgente.
Agradeci como quem recebe água no deserto. Liguei para a dona Severina, a vizinha na vila.
— Cristina tá por aí?
— Não vejo essa menina tem dois dias — ela respondeu. — E seu pai te procurou pela vila inteira.
Meu coração apertou.
— Ele tá bem?
— Vi ele cedo, mas depois sumiu. Onde você tá, garota? O que aconteceu?
— Estou longe… depois eu ligo de novo para a senhora. Obrigada por tudo.
Desliguei e devolvi o celular com as mãos tremendo.
— Está tudo bem? — a mulher perguntou.
— Acho que sim. Obrigada por... emprestar seu celular.
— Disponha.
Agradeci e sai da loja. Andei por mais algum tempo procurando algum lugar onde eu pudesse fazer compras básicas. Segui indicação de uma garota e peguei um ônibus para um bairro com lojas mais em conta. Comprei duas calças, três blusas e um sapato simples. Cada nota que saía da minha carteira parecia um pedaço de coragem indo embora. Eu precisava falar com Cristina, arrumar os documentos dela, dar um jeito nessa mentira antes que ela me engolisse.
Voltei a tempo de buscar os meninos. Deixei as sacolas no quarto e avisei Norma.
— Mais tarde o patrão quer falar com você — ela disse, casual, como quem comenta previsão do tempo.
— Está bem. — falei, sentindo meu estômago se revirar.
Busquei os gêmeos, que saíram da escola pulando como dois cabritos elétricos. Banho, videogame, jantar, tarefa. A rotina deles virou a minha.
Quando estavam prontos para dormir, criei coragem para perguntar o que estava me incomodando desde a noite passada.
— Meninos, por que vocês não querem que eu fique?
Noah me encarou.
— Como você sabe disso?
— Acabei ouvindo vocês ontem.
— É falta de educação ouvir conversa dos outros.
— Foi sem querer — insisti. — E só quero entender.
Ele suspirou.
— Não é nada pessoal. A gente só não gosta de babá.
— Talvez vocês precisem de uma pra organizar as coisas.
— Essa "organização" atrapalha — ele retrucou.
— Atrapalha no quê?
Noah olhou para Bento, que observava tudo do outro quarto.
— Você não ia entender.
— Eu preciso muito desse emprego — confessei. — Não dificultem tanto pra mim.
— Por que precisa?
— Você é criança, não entenderia.
— Tenho quase oitoanos, Cristina. Entendo mais do que você pensa.
Sorri, vencida.
— Conto se você prometer não dificultar tanto para mim aqui.
— Vou pensar — ele respondeu, com aquela cara de adulto em miniatura.
Apaguei as luzes e desci as escadas procurando Norma.
Na sala, Marcelo estava sentado lendo jornal, a postura reta, o silêncio em volta dele quase físico. Levantou os olhos quando me viu.
— Me acompanhe até o escritório. — disse ele.
Senti o coração bater na garganta, e o acompanhei.