Eu estava tirando as roupas do varal quando olhei para o céu e tive certeza de que ia chover mais tarde. O vento vinha diferente, meio grosso, trazendo cheiro de sal e de coisa guardada. Passei a mão na camiseta ainda úmida e pensei na Tina lá na cidade, andando de porta em porta atrás de um emprego de verdade, desses com carteira assinada, com salário que não acaba antes do mês. Fiquei imaginando ela entrando em loja chique, com o jeito decidido e confiante, que só minha irmã tem, fingindo que não está cansada por dentro. Há alguns metros dali, umas crianças jogavam bola descalças, gritando alto, levantando poeira. Meninos com roupa gasta, joelho ralado, mais acostumados com a rua do que com casa. Cresci vendo esses mesmos meninos virarem homens antes da hora e desaparecerem no mundo, como se a vila fosse um sapato apertado demais. Olhei para o mar logo depois, aquele azul que parece calmo, mas engana. Suspirei pensando no Jonas, meu irmão, e no caminho torto que ele sempre escol
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