Mundo de ficçãoIniciar sessãoAssim que cheguei à rodoviária, comprei uma passagem e esperei por algum tempo pelo ônibus. Quando ele chegou, entrei encostei a cabeça no vidro, fiquei vendo o mundo mudar como se alguém estivesse trocando o cenário com a mão. A estrada virou avenida, a avenida virou um emaranhado de prédios que pareciam crescer para cima sem pedir licença a ninguém. Eu nunca tinha visto tanta gente junta num lugar só. Gente correndo, falando no celular, com roupa que parecia saída de vitrine. Fiquei me perguntando se todo mundo ali tinha uma vida arrumada ou se era só fantasia de quem olha de fora.
Depois de tantas horas na estrada, o ônibus entrou no Rio como quem entra num barulho que não termina nunca. Buzina de carro, moto costurando entre as faixas, vendedor gritando promoção na calçada. Meu coração batia mais alto que o motor. Eu apertava a mochila no colo como se dentro dela estivesse o resto da minha coragem. Pensei na Tina e no papel amassado com o endereço. A gente não teve tempo de conversar direito. Eu não sabia que emprego era aquele, se iam me aceitar, se eu ia dar conta. Só sabia que precisava tentar. Olhei para minhas mãos, as unhas curtas, a calça jeans meio desbotada, e me perguntei se alguém ali acreditaria que eu servia para alguma coisa. Quando o ônibus parou no terminal, desci meio tonta. O ar tinha cheiro diferente, mistura de gasolina com mar e comida frita. Fiquei parada um instante, deixando o fluxo de gente me empurrar. Criei coragem e cheguei perto de uma mulher que vendia água. — A senhora sabe onde fica esse endereço aqui? — mostrei o papel. Ela apertou os olhos, leu devagar e apontou para o outro lado. — Pega aquele ônibus ali, desce no décimo ponto e pergunta de novo. É um bairro nobre, de gente rica. Gente rica. A palavra ficou martelando na minha cabeça o caminho inteiro. Eu me sentia um botão solto no meio de um casaco que não era meu. No segundo ônibus, sentei perto da janela e vi a cidade mudar outra vez. As casas simples foram ficando para trás, dando lugar a muros altos, portões de ferro, árvores enfileiradas como soldados. Desci no ponto indicado com as pernas bambas. Andei conferindo o número nas casas, cada uma maior que a outra. Quando parei em frente ao endereço do papel, tive vontade de voltar correndo para a rodoviária. A casa era enorme, parede clara, jardim arrumado, portão que parecia boca fechada de gigante. — E se eu não estiver vestida para um lugar assim? — pensei alto, olhando para minha camiseta simples. Antes que eu decidisse qualquer coisa, um homem apareceu perto do portão. Era jovem, forte, com uniforme escuro. O tipo de pessoa que a gente respeita sem nem saber por quê. — Posso ajudar? — ele perguntou. Engoli seco. — Eu… eu me chamo Cristina. Vim por causa do emprego. Falar aquele nome que não era meu me deu um frio estranho na barriga. Ele abriu um sorriso educado. — Ah, então é você. Estavam esperando, mas me disseram que só viria semana que vem. Sou Pedro, segurança da casa. Bem-vinda. Agradeci com a voz pequena, agarrando a alça da mochila como quem segura boia no meio do mar. Ele abriu o portão e me orientou a entrar por uma porta lateral, onde ficava a portaria. O porteiro, um senhor de bigode ralo, anotou meu nome num caderno grosso e me explicou o caminho até a entrada principal. Tudo ali parecia grande demais para caber em mim. Assim que pisei na entrada da casa, senti um cheiro de flores que nunca tinha sentido antes. Piso brilhando, parede clara, um silêncio caro. Fiquei com medo até de respirar errado. Uma mulher apareceu na porta. — Você deve ser a Cristina — ela disse, me olhando de cima a baixo. — Sou Norma, governanta. Seja bem-vinda. — Obrigada — respondi, quase num sussurro. Antes que ela falasse mais alguma coisa, um vozeiro infantil cortou o ar. Dois meninos surgiram correndo feito vento, um atrás do outro, rindo alto. Cada um com uma pistola de brinquedo que esguichava água. Não deu tempo nem de desviar. Um jato gelado acertou minha blusa, outro pegou na Norma. Ela revirou os olhos com prática de quem já viu aquele filme muitas vezes. — Bem, esses pestinhas são seus agora. Fiquei parada, pingando, sem entender nada. — Meus? Como assim? Norma me olhou com uma sobrancelha levantada. — Ué… você não é a nova babá? Olhei para os dois garotos que continuavam correndo ao redor, molhando tudo que viam, o mundo inteiro. Um deles gritou: — Bento, mira nela de novo! O outro riu e mirou a pistola na minha direção. Foi ali, no meio daquela bagunça chique e barulhenta, que eu entendi qual era o tal emprego. Eu, Marília — ou Cristina, dependendo de quem perguntasse — tinha atravessado dois estados para cuidar de dois furacões de sete anos que nem sabiam que estavam mudando minha vida inteira. Engoli o susto junto com a água que escorria pelo meu rosto e pensei, meio desesperada e curiosa, que talvez aquele fosse só o primeiro dos muitos mergulhos que eu ainda teria que dar. — Antes de tudo, preciso te levar para o seu quarto, para que você possa... se trocar. — avisou Norma, olhando para minha roupa molhada. Ainda ouvindo os garotos gritando, Norma e eu entramos na casa, que era luxuosa e intimidante. — O Marcelo, nosso patrão, não está em casa agora. Ele costuma chegar tarde e sair muito cedo. É o pai dos garotos, Bento e Noah. Eu assenti, absorvendo as informações enquanto tentava imaginar como era a rotina daquele lugar. Atravessamos a casa inteira, até chegamos em um corredor com quatro portas — Esse será seu quarto. Aquele ali é o meu — disse, apontando para a porta ao lado. — Aquele é da Janete, a cozinheira. E aquele é da Vanda, a arrumadeira. As faxineiras moram em suas casas e vem todos os dias, em escala. A sua tarefa é apenas tomar conta dos garotos. Caso tenha dificuldade, posso pedir que contrate uma assistente. — Acho que não será necessário. — falei. Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse me avaliando. — Não quero assustar você, menina. Mas esses garotos são terríveis. As babás acabam... indo embora. Só este ano, você é a quinta que contratamos. Ela abriu a porta e me deu a chave. Depois deu uma última olhada em mim. — Você... só trouxe isso? Tem roupa suficiente? — disse ela. — Não se preocupe. Eu tenho roupas. Qualquer coisa, posso comprar mais depois. — Certo. Então se troque, para que eu possa te apresentar para os meninos, e mais tarde, para o patrão. Assenti devagar, atenta. Não eram muitas informações, mas fiquei apreensiva com a tarefa que me foi designada. Cuidar de crianças. O que eu sabia de criança? Quase nada. Norma me deixou sozinha. O quarto era grande. Maior do que anterior, onde Tina e eu dormíamos. Isso me fez pensar nela, e fiquei me perguntando se ela estava bem, se apareceria logo para ficarmos juntas, ou pelo menos mais perto uma da outra. E com uma certa ironia, comecei a sentir falta de casa, apenas da pobreza e todos os problemas que me acompanharam a vida toda.






