O homem ficou me olhando como se eu tivesse brotado do piso encerado do corredor. O tipo de olhar que pesa nos ombros da gente, que mede, que desconfia sem abrir a boca.
— Quem é você? E o que faz parada no corredor?
A voz dele era grave, controlada, dessas que parecem acostumadas a mandar e a serem obedecidas.
— Sou… a nova babá — respondi, sentindo a garganta seca. — Cristina. Eu me chamo Cristina...
Ele me analisou dos pés à cabeça, sem pressa nenhuma, como se estivesse conferindo se eu combinava com a decoração da casa.
— E o que está fazendo aqui no corredor?
Apertei a pasta contra o peito.
— Vim conferir se os meninos estavam dormindo. Norma pediu que eu... confirmasse que eles estavam... descansando.
Ele franziu a testa.
— Eu não sabia que você já estaria em serviço. Me informaram que a nova babá começaria só na próxima semana.
O chão pareceu escorregar um pouco debaixo dos meus pés.
— Eu também achei que levaria mais tempo… mas deu para começar de imediato.
Ele me estudou de novo, com aquele silêncio que faz a gente querer explicar até o que não foi perguntado. Depois soltou o ar devagar.
— Boa noite, Cristina.
Entendi que aquilo era ordem disfarçada de educação.
— Boa noite, senhor.
Passei por ele com cuidado, quase pedindo licença ao próprio ar. Desci as escadas sentindo as bochechas quentes, como se tivesse feito algo errado sem saber o quê. Só quando alcancei o último degrau consegui respirar, deixando o ar entrar nos meus pulmões e sairem livremente.
Encostei na parede do hall e soltei o ar num suspiro comprido. Então reparei numa coisa que não tinha tido tempo de notar direito: o homem era bonito. Bonito de um jeito sério, não de revista. Eu tinha imaginado como alguém de cabelo grisalho, barriga de empresário cansado, e encontrei alguém muito mais jovem, com ombros largos e cara de quem dorme pouco por escolha.
A conversa dos meninos voltou na minha cabeça como eco. “Não pode ficar.” “Quanto mais tempo, pior.” Senti um nó apertar por dentro. Talvez eu estivesse ocupando um lugar que ninguém queria me dar. Talvez fosse melhor procurar outro emprego antes de criar raiz onde não tinha terra.
Fui para o quarto segurando a pasta agarrada a mim. O espaço era simples, mas limpo, com uma cama macia que parecia ser o suficiente para me fazer esquecer o mundo por algumas horas. Antes de me permitir deitar, tomei um banho rápido. A água quente escorrendo pelo corpo me lembrou o quanto eu estava longe de casa, do cheiro de sabão barato, do barulho do mar batendo no fundo da vila.
Vesti uma camisa e fiquei olhando minha mochila jogada no canto. Tão pouca coisa para caber uma vida inteira. Lamentei por não ter conseguido trazer mais roupas. Precisava comprar algumas coisas urgente, nem que fosse o básico para não parecer sempre a mesma pessoa repetida todos os dias.
Sentei na cama e abri a pasta que a Norma me deu. Eram trinta e oito páginas de rotina, regras, telefones, observações em vermelho. Fui lendo devagar, tentando gravar cada detalhe: alergias do Bento, horários do Noah, professores, remédios, manias que ninguém escreve em manual nenhum. Na última página tinha uma lista de emergências — hospital, pediatras que cuidavam deles desde bebês, contato do pai, de uma tia, até dos avós.
Fechei os olhos por um instante e a imagem do homem no corredor voltou inteira, e nítida demais. O jeito como ele me olhou, sem pressa, sem gentileza, quase com desdém. Senti um arrepio correr pela nuca. Nenhum homem tinha me olhado assim antes.
Não que eu fosse bonita de capa de revista, longe disso, mas os homens da vila sempre me lançaram aquele olhar meio admirado, meio inconveniente, que deixava meu pai furioso quando estava sóbrio. Ele me mantinha quase trancada em casa, como se eu fosse coisa dele e não pessoa minha.
Aquele olhar do patrão era diferente. Frio, avaliando, como se eu fosse peça substituível. Aquilo me deu medo e, ao mesmo tempo, uma vontade estranha de provar que eu não era só mais uma.
Continuei lendo até as letras começarem a embaralhar. Quando virei a última folha, o sono me puxou sem pedir licença. Apaguei com a pasta aberta no colo, ainda ouvindo ao longe o silêncio grande daquela casa que agora também era minha, mesmo que ninguém ali tivesse me escolhido de verdade.
No dia seguinte, acordei com um som fino cortando o sonho no meio, aquele apito de despertador que parece faca mal afiada. Demorei uns segundos para entender onde eu estava. O teto branco, o cheiro de amaciante caro, nada combinava com o quarto abafado da vila. Antes que eu organizasse meus pensamentos, bateram de leve na porta.
— Cristina?
Abri ainda com o cabelo amassado e o coração meio perdido. Era Norma, impecável às seis da manhã, como se tivesse sido passada a ferro junto com o uniforme.
— Em quinze minutos você acorda os meninos — ela disse, prática. — Café, uniforme, e depois escola.
Fiz uma cara que entregou tudo.
— Escola? Eu pensei que eles estudavam em casa… com tanta aula particular e tal.
Norma deu um meio sorriso, daqueles de quem já explicou isso mil vezes.
— Eles frequentam escola regular. Sua função é acompanhá-los. O motorista leva, mas em alguns dias você mesma pode ir com um dos carros da casa.
Senti o chão dar uma entortada discreta.
— Um dos… carros?
— Sim.
Engoli seco.
— Então… tem um detalhe. Eu não sei dirigir.
Ela me olhou como quem acabou de ouvir que o mar resolveu virar deserto.
— A vaga era para quem tinha habilitação.
Meu estômago afundou. Lembrei da minha irmã, orgulhosa, mostrando a carteira de motorista escondida do meu pai como se fosse medalha de guerra. Eu tinha decidido que podia me virar, que dava conta de tudo. Não imaginei que “tudo” incluía dirigir carro de gente rica no meio do Rio de Janeiro.
— Deve ter acontecido uma confusão — inventei, sentindo a mentira nascer torta. — Mas eu posso tirar a carta. Rápido, sem problema. Se isso for realmente necessário.
Norma cruzou os braços, avaliando se eu era problema ou solução.
— Posso providenciar umas aulas. A casa tem contatos. Mas se o patrão descobrir que você entrou sem esse requisito, pode virar um problema para você.
O nome invisível dele pesou no ar entre a gente.
— Será que… isso pode ficar só entre nós por enquanto? — pedi, praticamente num sussurro. — Eu juro que resolvo o mais rápido possível.
Ela me observou por um tempo que pareceu maior do que era. Depois suspirou, vencida pelo cansaço ou pela piedade, não sei.
— Quinze minutos, Cristina. Os meninos não acordam sozinhos e não devem nunca se atrasar.
Assenti como se tivesse acabado de receber missão secreta. Fechei a porta e encostei a testa na madeira fria. Quinze minutos para virar adulta profissional responsável por duas miniaturas de furacão.
Troquei de roupa correndo, prendi o cabelo de qualquer jeito e fui até o quarto dos gêmeos com a coragem emprestada que me restava. Bati de leve. Nada. Bati de novo.
— Meninos? Hora de acordar.
Entrei devagar. Noah estava atravessado, metade para fora do cobertor. No outro quarto, Bento dormia abraçado num travesseiro como se fosse gente.
— Bom dia, dupla dinâmica — arrisquei, tentando parecer confiante.
Noah abriu um olho só, avaliando se valia a pena voltar para o planeta.
— Você ainda tá aqui — ele resmungou.
— Estou. E vocês têm escola.
Bento sentou na cama com o cabelo em pé, sorriso mole de quem acorda acreditando na vida.
— Ela ficou mesmo, Noah. É corajosa.
— Ou suicida — o outro respondeu, mas sem a maldade de ontem, mais com preguiça mesmo.
Enquanto eu separava os uniformes, pensei no tamanho da mudança que tinha virado minha vida em menos de vinte e quatro horas. Ontem eu era filha de pescador numa vila esquecida do mapa. Hoje eu era babá de dois herdeiros, quase motorista clandestina e alvo do olhar gelado de um homem que parecia ser feito de mármore caro.
Ajudei Bento a abotoar a camisa enquanto Noah discutia com o espelho sobre a injustiça das segundas-feiras. Eles cheiravam a sabonete importado e infância barulhenta.
— Você sabe dirigir? — Noah perguntou do nada, como se tivesse ouvido meus pensamentos pela parede.
Quase deixei o cinto cair.
— Sei… o básico — menti com um sorriso torto.
Ele estreitou os olhos, radar de sete anos funcionando melhor que muito adulto.
— Hum. Não quero me arriscar a ir no carro com você dirigindo.
Bento me entregou a mochila dele com toda a confiança do mundo.
— Você é legal, Cristina.
Aquilo bateu direto num lugar mole do peito.
— Eu também gostei de você, Bento.
Noah bufou.
— Puxa-saco...
Fingi que não ouvi, mas guardei a frase no bolso da alma. Enquanto descíamos para o café, com eles brigando por causa de um carrinho invisível, tive a sensação clara de que aquele emprego não era apenas trabalho. Era teste de resistência. E eu, que mal sabia atravessar rua movimentada, estava prestes a atravessar uma vida inteira.
Quando chegamos à mesa, o patrão estava vestindo seu blazer e de saída. Ele apenas acenou para os garotos e desejou bom dia, sem mal encará-los. Aquilo me afetou de tal maneira que não consegui conferir os rostos dos meninos, com medo de ver a decepção deles estampada no olhar.