Mundo ficciónIniciar sesiónIsabel aprendeu cedo que confiar pode custar tudo. Após uma traição devastadora — que envolveu o ex-namorado, a própria prima e a perda de um filho —, ela decide não depender mais de ninguém. Aos trinta e dois anos, escolhe a maternidade solo como forma de reconstruir a própria vida, acreditando que assim manteria o controle sobre o futuro. Dante Montenegro, herdeiro de um império e marcado por um passado de tentativas de manipulação, fez uma escolha semelhante: congelou seu sêmen para garantir que a paternidade, um dia, acontecesse apenas sob seus termos. O que nenhum dos dois imaginava era que um erro em uma clínica de fertilização cruzaria seus destinos de forma irreversível. Códigos trocados. Um silêncio imposto. Uma gravidez inesperada. Quando a verdade vem à tona, Isabel e Dante não se veem como um casal, mas como dois adultos forçados a dividir consequências que não escolheram. Entre limites claros, pressão familiar e a ameaça constante da exposição, eles constroem uma parceria baseada em respeito, responsabilidade e decisões conscientes. O amor não surge como promessa imediata, mas cresce nos gestos silenciosos, nas escolhas difíceis e na presença que insiste em permanecer. Enquanto um pai poderoso tenta controlar o que não lhe pertence, Isabel luta para proteger sua autonomia e Dante precisa decidir quem ele realmente quer ser. Tudo o Que Nasceu do Acaso é uma história sobre maternidade, escolhas e um amor que não foi planejado — mas que, mesmo assim, decidiu ficar.
Leer másO escritório estava silencioso demais para um fim de tarde. As janelas de vidro deixavam a cidade dourada pelo pôr do sol, mas Dante não parecia notar. Estava recostado na cadeira, dedos entrelaçados atrás da cabeça, olhando para um ponto indefinido no teto. Enzo, sentado à frente da mesa, observava em silêncio há tempo suficiente para saber que aquela não era apenas mais uma conversa de negócios. — Você vai continuar fingindo que isso é só cansaço… ou vai falar logo? — Enzo quebrou o silêncio, girando a cadeira levemente. Dante soltou um suspiro lento. — Eu não sei exatamente o que falar. — Ótimo começo — Enzo ironizou. — Geralmente é aí que começa algo importante. Dante se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa de madeira escura. — A Isabel… — começou, e parou. Como se o próprio nome exigisse cuidado. — Ela não era parte do plano. Nada disso era. — Nenhuma coisa boa costuma ser — Enzo res
Isabel não estava nervosa — repetiu isso para si mesma ao menos três vezes enquanto observava Dante ajustar o nó da gravata no espelho do hall do restaurante. Ainda assim, seus dedos brincavam com a alça da bolsa, denunciando a tensão silenciosa. Conhecer os amigos dele parecia simples na teoria, mas na prática carregava um peso diferente. Eles não eram apenas amigos. Eram testemunhas da vida que Dante construíra antes dela… e, talvez, depois. — Se quiser ir embora a qualquer momento, é só me dizer — Dante falou, girando-se para encará-la. O tom era calmo, atento. — Não existe obrigação nenhuma aqui. Isabel ergueu o olhar. Ele estava bonito de um jeito despretensioso, camisa clara, mangas dobradas, aquele ar de homem seguro que ainda assim parecia se preocupar genuinamente com o conforto dela. — Eu quero ir — respondeu. — Só… não estou acostumada a esse mundo. — Nem eu, às vezes — ele sorriu de leve. — Enzo e Ricardo são parte da mi
O consultório ficou para trás com a porta se fechando suavemente, como se encerrasse mais do que uma consulta. Isabel caminhava devagar pelo corredor, sentindo o alívio se espalhar pelo corpo em ondas discretas. O exame fora rápido, objetivo, mas o suficiente para tranquilizá-la. A bebê estava saudável. Crescendo conforme o esperado. O coração forte, o desenvolvimento perfeito para quase sete meses. Ela sorriu sozinha ao pensar nisso. Dante acompanhava seu passo sem pressa, atento a cada movimento, como se tivesse medo de que o chão pudesse ceder sob os pés dela. Quando chegaram à saída da clínica, ele abriu a porta de vidro e esperou que Isabel passasse primeiro. — Quer sentar um pouco antes de ir? — perguntou. — Tem um café ali na esquina. É tranquilo. Isabel assentiu. Ainda sentia o corpo tenso demais para simplesmente ir embora. O lugar era discreto, silencioso demais para aquele horário. Sentaram-se próximos
A barriga já não permitia disfarces. Isabel sabia disso no instante em que atravessou a porta de vidro da clínica, sentindo o peso familiar na lombar e o leve desconforto nos tornozelos após poucos minutos em pé. Quase sete meses. Tempo suficiente para o corpo mudar completamente e para o mundo se sentir no direito de opinar. A mão repousou sobre o ventre de forma automática. A menina se mexia com frequência naquela manhã, como se reagisse ao ambiente antes mesmo que Isabel admitisse o incômodo que sentia. Aquela clínica carregava memórias demais. Não ruins — apenas delicadas. E, naquele momento da gestação, tudo parecia amplificado. — Consulta de rotina — murmurou para si mesma, tentando manter a respiração calma. A recepção estava cheia. Mulheres grávidas, casais, conversas baixas. Isabel caminhou até o balcão com cuidado, entregou os documentos e seguiu para a sala de espera. Escolheu uma cadeira próxima à parede, o
POV — Dante Augusto sempre acreditou que informação era poder. Por isso, quando teve acesso indireto à data do exame morfológico — mesmo sem detalhes técnicos — viu ali uma oportunidade. Não para celebrar, mas para testar limites. Para forçar uma reação. — Se você não me incluir, eu apareço — disse ele, ao telefone, sem rodeios. — Não vejo problema em acompanhar um exame do meu neto. Dante fechou os olhos lentamente. — Você não foi convidado. — Eu não preciso de convite — Augusto retrucou. — Preciso apenas estar presente. As pessoas certas saberão interpretar. A ameaça não estava nas palavras, mas na intenção: exposição velada, comentários plantados, especulação social. — Se você aparecer — Dante respondeu, a voz baixa e controlada — eu não discuto. Eu ajo. — Você não ousaria — — Já estou ousando — Dante interrompeu. — E desta vez, não é sobre mim. A ligação
POV — Isabel Isabel sempre acreditou que dividir decisões diminuía a dor. Mas também sabia que, às vezes, dividir significava tornar tudo real demais. Ela observava a mãe mexendo o café na cozinha, o som da colher batendo levemente na xícara marcando o ritmo de sua própria ansiedade. Marina estava sentada à mesa, atenta demais para quem fingia casualidade. — Então… — a mãe começou, por fim — você quer nos contar por que está com essa cara desde ontem? Isabel respirou fundo. — Porque eu não posso mais fingir que estou lidando com isso sozinha. Marina se inclinou para frente imediatamente. — Isso tem a ver com o pai do bebê, não tem? Isabel assentiu devagar. — Tem. E é por isso que eu chamei vocês aqui. Ela contou tudo. A clínica. O erro. Dante. O pai dele. As pressões. As escolhas conscientes que vinha fazendo para proteger a própria autonomia. A mãe ouviu em
Último capítulo