Capítulo 2 - lugar onde tudo começa

Isabel parou em frente ao prédio de fachada envidraçada e respirou fundo antes de entrar. O nome da clínica estava gravado em letras discretas, elegantes, transmitindo confiança e modernidade. Era exatamente o tipo de lugar que prometia controle, ciência e segurança — tudo o que ela sentia ter perdido nos últimos anos.

Por alguns segundos, ficou imóvel na calçada, observando pessoas entrarem e saírem como se aquele fosse apenas mais um compromisso comum. Para ela, no entanto, atravessar aquela porta significava cruzar uma linha invisível. Depois dali, nada seria apenas ideia. Seria escolha. Consequência. Caminho sem retorno.

Empurrou a porta de vidro e foi recebida por um ambiente silencioso, climatizado, quase impessoal. Tons claros nas paredes, plantas perfeitamente posicionadas, um leve cheiro de limpeza e algo metálico no ar. Havia conforto ali, mas também uma frieza que a fez se encolher levemente dentro do próprio casaco.

— Bom dia — disse a recepcionista, com um sorriso treinado. — Em que posso ajudar?

Isabel pronunciou seu nome, sentindo um estranho aperto no peito ao ouvir a própria voz ecoar naquele espaço. Recebeu uma prancheta com formulários e sentou-se na sala de espera, onde outras mulheres aguardavam. Algumas acompanhadas. Outras sozinhas, como ela.

Enquanto preenchia os dados, seus olhos se desviaram para um casal sentado alguns lugares à frente. A mulher segurava exames contra o peito; o homem mantinha a mão sobre o joelho dela, num gesto silencioso de apoio. Isabel desviou o olhar rapidamente. Não por inveja — mas por autopreservação.

Eu escolhi estar sozinha, repetiu mentalmente. Isso não é falta. É decisão.

Quando seu nome foi chamado, levantou-se com o coração acelerado. Foi conduzida por um corredor longo até uma sala clara, onde a médica a aguardava.

— Isabel Duarte? — a mulher disse, levantando-se para cumprimentá-la. — Eu sou a doutora Beatriz.

O aperto de mão foi firme, profissional. A médica tinha uma postura segura, voz calma, e transmitia a tranquilidade de quem estava acostumada a lidar com decisões grandes demais para parecerem simples.

— Fique à vontade — disse, apontando para a cadeira à sua frente.

Isabel sentou-se, ajeitando a bolsa no colo, como se aquilo pudesse protegê-la de algo invisível.

— Eu li seu formulário — a doutora começou. — Vejo que você tem 32 anos, boa saúde geral e está buscando inseminação com doador anônimo. É isso?

Isabel assentiu.

— Sim.

— Essa é uma decisão muito pessoal — continuou a médica. — E eu preciso te perguntar: você está emocionalmente preparada para isso?

A pergunta não soou invasiva. Soou necessária.

Isabel respirou fundo antes de responder.

— Eu não sei se alguém está completamente preparada. Mas eu sei que estou decidida.

A doutora a observou por alguns segundos, avaliando algo além das palavras.

— Muitas mulheres chegam até aqui por medo da solidão — disse. — Outras, por pressão do tempo. No seu caso… o que te trouxe?

Isabel sentiu a garganta apertar. Pensou no aborto. Na traição. No corpo vazio depois da perda.

— Eu perdi um filho — disse, por fim. — E perdi a confiança em construir uma família da forma tradicional. Mas não perdi o desejo de ser mãe.

A médica assentiu lentamente.

— Entendo. — Fez uma pausa. — Aqui, nosso papel é garantir que tudo seja feito com segurança, ética e respeito. Você terá acesso a informações genéticas do doador, mas nunca à identidade. Isso te deixa confortável?

— Sim — Isabel respondeu, sem hesitar. — Eu não quero um rosto para imaginar. Quero apenas um começo.

A doutora fez algumas anotações no prontuário.

— Vamos iniciar com exames básicos, avaliação hormonal e acompanhamento psicológico, como exige o protocolo. Nada acontece sem que você esteja cem por cento segura.

Isabel relaxou um pouco os ombros. Aquilo soava exatamente como ela precisava ouvir.

Quando saiu da sala, foi conduzida para coleta de exames. O ambiente era organizado, silencioso, eficiente. Cada passo parecia pensado para reduzir o medo, para transformar algo profundamente emocional em um processo técnico.

Enquanto aguardava, sentou-se sozinha novamente. Colocou a mão sobre o ventre de forma instintiva e, pela primeira vez desde o aborto, não sentiu apenas dor. Sentiu expectativa.

Talvez seja aqui, pensou. Talvez seja assim que eu recomece.

Ao sair da clínica, o céu estava aberto. O sol refletia nos vidros do prédio, quase cegando por um instante. Isabel colocou os óculos escuros e sorriu, um sorriso pequeno, tímido, mas real.

Ela não sabia que, dentro daqueles corredores impecáveis, um erro ainda invisível dormia silencioso entre códigos e números.

Um erro que mudaria não apenas sua vida —

mas também a de um homem que jamais autorizou o destino a escolher por ele.

E, ainda assim, tudo já havia começado.

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