Mundo ficciónIniciar sesiónAs primeiras semanas da gravidez transformaram o tempo de Isabel em algo estranho, quase maleável. Os dias pareciam mais lentos, mas ao mesmo tempo escapavam rápido demais, como se o corpo estivesse vivendo um ritmo próprio, diferente do mundo ao redor.
Ela acordava mais cedo do que de costume, não por obrigação, mas por uma inquietação suave que a despertava antes do despertador. O silêncio da manhã tinha outro peso agora. Isabel gostava de ficar alguns minutos deitada, sentindo o próprio corpo, tentando identificar mudanças quase imperceptíveis. Um enjoo discreto. Um cansaço que surgia do nada. Um coração que parecia bater mais forte quando pensava no futuro. No trabalho, começou a organizar os projetos com antecedência incomum. Não contou a ninguém além de Marina. Nem mesmo à mãe. Queria guardar aquele segredo por mais um tempo, como se protegê-lo do mundo fosse uma forma de protegê-lo de qualquer ameaça invisível. — Você anda diferente — Marina comentou certa noite, enquanto jantavam juntas. — Mais… silenciosa. Isabel sorriu, levando a mão ao ventre ainda plano. — É como se eu estivesse aprendendo a escutar outra coisa — respondeu. — Algo que ainda não sei explicar. Marina entendeu. Sempre entendia. As consultas médicas tornaram-se marcos semanais. Isabel observava o ultrassom com atenção reverente, mesmo quando ainda não havia forma definida, apenas imagens abstratas e números técnicos. Cada exame bem-sucedido reforçava a sensação de que, pela primeira vez em muito tempo, algo estava dando certo. Em casa, pequenas mudanças começaram a surgir sem que ela percebesse. O café perdeu a graça. O cheiro de certos alimentos passou a incomodar. A casa parecia menor, como se já estivesse sendo preparada para dividir espaço com alguém que ainda não existia, mas já ocupava tudo. À noite, Isabel falava sozinha. Não em voz alta — ainda. Falava em pensamentos, em promessas silenciosas. Eu vou te proteger. Você nunca vai se sentir sozinho. Eu vou ser suficiente. Às vezes, o medo surgia sem aviso. O receio de perder outra vez. O trauma antigo ameaçando voltar em forma de sonhos interrompidos e lembranças que ela preferia manter adormecidas. Nessas horas, respirava fundo e repetia para si mesma que aquela história era diferente. Que agora ela estava no controle. Era isso que acreditava. Na clínica, tudo seguia aparentemente normal. Sorrisos profissionais. Consultas objetivas. Nenhuma sombra de preocupação explícita. Isabel confiava naquele lugar como quem confia em um chão firme — sem imaginar que fissuras invisíveis já se formavam sob seus pés. Quando completou a quinta semana, comprou um pequeno par de meias neutras e guardou no fundo da gaveta. Não contou a ninguém. Era um ritual íntimo, um símbolo silencioso de esperança. — Cinco semanas — murmurou certa noite, encarando o espelho do banheiro. — Nós conseguimos chegar até aqui. Ela não sabia que aquela mesma contagem de tempo ecoava de forma muito diferente na vida de outra pessoa. Que o número cinco, naquele momento, representava não esperança, mas ameaça. Isabel seguia acreditando que sua história estava finalmente sob seu controle. E talvez fosse isso o que tornaria tudo ainda mais doloroso quando a verdade surgisse.






