Dante Montenegro observava a cidade do alto da cobertura como quem observa um tabuleiro. Aurora se estendia abaixo dele em linhas perfeitamente desenhadas: avenidas largas, prédios espelhados, o mar ao fundo refletindo o sol da manhã. Tudo parecia no lugar certo. Organizado. Controlado.
Como ele gostava que fosse.
Vestia um terno escuro impecável, ajustando a gravata diante do espelho antes de sair para mais um dia de reuniões. Cada detalhe de sua aparência era calculado — não por vaidade, mas por estratégia. No mundo em que vivia, imagem era poder. E poder não admitia falhas.
— Bom dia, doutor Dante — cumprimentou a governanta, ao vê-lo atravessar a sala.
— Bom dia — respondeu, com educação contida.
Não era um homem rude. Apenas econômico nas emoções.
No elevador, checou mensagens no celular: números, contratos, prazos. Nada pessoal. Nunca pessoal. Desde muito cedo, aprendera que sentimentos eram pontos fracos disfarçados de virtude.
Na sede da construtora Montenegro, foi recebido por olhares respeitosos — alguns temerosos. Funcionários endireitavam a postura quando ele passava. Dante não precisava elevar a voz. Sua presença bastava.
— A reunião com os investidores foi confirmada para sexta — informou Enzo, caminhando ao seu lado. — Eles querem garantias sobre o novo empreendimento no litoral.
— Eles terão — respondeu Dante. — Eu não trabalho com incertezas.
Enzo o conhecia bem o suficiente para não insistir. Sabia que por trás daquela postura inabalável havia algo mais duro que ambição: necessidade de controle absoluto.
No meio da manhã, Dante foi chamado à sala do pai.
Augusto Montenegro estava de pé, diante da janela, exatamente como o filho costumava fazer em casa. O reflexo era incômodo.
— Você já tem trinta e seis anos — Augusto disse, sem preâmbulos. — A empresa está sólida. O nome da família também. O que falta é um herdeiro.
Dante cerrou o maxilar.
— Isso não é pauta de reunião empresarial.
— Tudo é pauta quando envolve legado — o pai rebateu. — Eu não vou viver para sempre.
— Nem um filho resolve isso — Dante respondeu, frio. — Pessoas não são garantias.
Augusto virou-se lentamente.
— Um homem sem herdeiro é um risco.
Dante sustentou o olhar do pai por alguns segundos, sentindo o velho incômodo se instalar no peito. Não era a primeira vez. Nem seria a última.
— Essa conversa está encerrada — disse, por fim.
Saiu da sala com passos firmes, mas o coração mais pesado do que admitiria. A pressão constante, a expectativa de continuidade, o peso de um sobrenome que não permitia erros… tudo isso o acompanhava como uma sombra.
No fim do dia, recusou convites, dispensou encontros sociais, ignorou mensagens que não envolvessem trabalho. Voltou para casa sozinho, como sempre.
Na cobertura silenciosa, serviu-se de um uísque e caminhou até a varanda. O vento noturno trouxe um leve cheiro de sal, mas não trouxe paz.
Dante não era um homem infeliz. Era um homem em alerta constante.
Ele acreditava que tudo o que realmente importava precisava ser planejado. Protegido. Blindado contra surpresas. Especialmente aquilo que envolvia vínculos, promessas e… filhos.
Sem saber, naquele mesmo momento, uma decisão tomada em outra parte da cidade já havia colocado em risco todas as certezas que ele lutara para manter intactas.
Mas Dante Montenegro ainda não sabia.
E o destino, paciente, aguardava.