Mundo ficciónIniciar sesiónCinco semanas.
Era esse o intervalo exato desde a última vez que Dante Montenegro pensara, ainda que de forma remota, na clínica de reprodução humana. Cinco semanas desde que um procedimento que ele tratava como mera precaução — algo frio, técnico, arquivado — deixara de ocupar qualquer espaço consciente em sua rotina. Até aquela manhã. Dante estava em reunião quando o celular vibrou sobre a mesa de vidro. Não era o aparelho corporativo. Era o pessoal. Poucas pessoas tinham aquele número. Menos ainda ousavam ligar sem aviso prévio. Ele lançou um olhar rápido para a tela. Clínica Beatriz — Administração Médica O maxilar de Dante se contraiu quase imperceptivelmente. — Cinco minutos — disse aos executivos à mesa, levantando-se com a naturalidade de quem não pede permissão. Saiu da sala e atendeu no corredor silencioso. — Dante Montenegro. — Senhor Montenegro, bom dia — a voz feminina do outro lado soava excessivamente cuidadosa. — Aqui é da administração da clínica. Precisamos conversar com o senhor. Com certa urgência. Dante fechou os olhos por um segundo. — Sobre o quê? — perguntou, direto. Houve uma pausa curta demais para ser natural. — Sobre um material genético armazenado sob sua titularidade. Precisamos que o senhor compareça pessoalmente à clínica. A forma como ela evitou detalhes fez algo se acender dentro dele. Um alerta antigo, familiar. — Isso não pode ser tratado por telefone? — insistiu. — Infelizmente, não — respondeu a mulher. — Trata-se de um assunto… sensível. Dante inspirou lentamente, controlando o impulso imediato de exigir explicações. — Quando? — Hoje, se possível. Ainda esta manhã. Ele encerrou a ligação sem despedidas e ficou imóvel por alguns segundos, encarando o vazio à frente. O corredor parecia mais estreito. O ar, mais pesado. Nada relacionado àquele material deveria gerar urgência. Nada. Tudo estava sob controle. Sempre estivera. Voltou para a sala de reunião, mas não conseguiu se concentrar. Números passaram diante de seus olhos sem fazer sentido. Palavras ecoaram sem serem absorvidas. Assim que pôde, encerrou o encontro e deixou o prédio. O trajeto até a clínica foi feito em silêncio absoluto. Sem música. Sem ligações. Apenas o som distante do trânsito e os próprios pensamentos, que se tornavam cada vez mais insistentes. Ao chegar, foi conduzido imediatamente à sala da diretora. Dra. Beatriz levantou-se ao vê-lo entrar. O sorriso profissional não alcançou os olhos. — Senhor Montenegro, agradeço por ter vindo tão rápido. — Prefiro objetividade — Dante respondeu, sem sentar-se de imediato. — O que aconteceu? Ela indicou a cadeira à sua frente. Ele se sentou, cruzando as mãos com calma calculada. — Há cinco semanas — começou a médica —, durante uma auditoria interna de rotina, identificamos uma inconsistência em registros de armazenamento genético. O coração de Dante manteve o ritmo estável. Por fora. — Seja mais clara — pediu. A médica respirou fundo. — O material genético armazenado sob seu nome… pode ter sido envolvido em um erro de catalogação. A palavra erro ecoou alto demais dentro dele. — Pode? — repetiu, com voz controlada. — Ou foi? A médica hesitou por uma fração de segundo. O suficiente. — Estamos investigando com extremo rigor — respondeu. — Mas precisamos informá-lo de que há indícios concretos de troca de códigos em um procedimento realizado há cinco semanas. Dante sentiu o corpo inteiro se enrijecer. Cinco semanas. A mesma marca temporal começou a pulsar em sua mente, como um aviso. — Que procedimento? — perguntou. — Um procedimento de inseminação artificial — disse a médica, escolhendo cada palavra com cuidado cirúrgico. O silêncio que se seguiu foi denso, quase físico. — Meu material — Dante disse, lentamente — jamais foi autorizado para doação. — Temos isso documentado — a médica respondeu rapidamente. — Justamente por isso estamos tratando a situação com máxima confidencialidade. — Você está me dizendo — ele continuou, a voz perigosamente baixa — que algo que eu congelei para uso exclusivo pode ter sido utilizado sem meu consentimento? A médica sustentou o olhar. — Estamos dizendo que existe essa possibilidade. Dante levantou-se devagar. Cada músculo parecia em tensão contida. — Possibilidade não é resposta — disse. — Eu quero fatos. — Os fatos ainda estão sendo apurados — ela respondeu. — Mas julgamos correto informá-lo imediatamente, antes de qualquer outra medida. — Medidas como quais? — Dante perguntou, o olhar fixo. A médica desviou os olhos por um instante. — Jurídicas. Éticas. Médicas. A palavra jurídicas acendeu algo mais profundo dentro dele. Um passado que ele mantinha enterrado, mas nunca esquecido. — Se houve uso indevido — disse Dante, com frieza absoluta —, vocês não cometeram apenas um erro administrativo. Cometeram um crime. A médica assentiu, tensa. — Por isso precisamos da sua colaboração… e do seu silêncio, por enquanto. Dante soltou um riso curto, sem humor. — Silêncio não é algo que se pede quando se perde o controle do que nunca lhes pertenceu. Pegou o paletó e caminhou até a porta. — Vocês têm vinte e quatro horas — disse, antes de sair. — Vinte e quatro. Depois disso, eu mesmo vou atrás da verdade. Ao deixar a clínica, o sol parecia forte demais. A cidade seguia normal, indiferente ao terremoto que começava a se formar dentro dele. Cinco semanas. Dante levou a mão ao volante, sentindo algo que não permitia sentir há anos: a ameaça real de que algo fundamental havia sido decidido sem sua autorização. Ele ainda não sabia quem estava envolvido. Não sabia onde aquilo terminaria. Mas uma certeza se impunha com clareza brutal: Se seu material tivesse sido usado… nada — absolutamente nada — permaneceria sob controle. E, em algum lugar da cidade, uma mulher carregava dentro de si uma verdade que ainda não conhecia. O destino havia ultrapassado a última linha de defesa. E agora… não havia mais como voltar atrás.






