Capítulo 5 - Entre o medo e a esperança

A espera foi mais cruel do que Isabel imaginara.

Não havia dor física, não havia sinais claros, não havia nada que pudesse ser apontado como certeza. Apenas dias longos demais, noites inquietas e um corpo que parecia guardar segredos até dela mesma. O relógio tornara-se um inimigo silencioso, marcando um tempo que não passava nunca.

Nos primeiros dias após a inseminação, Isabel seguiu à risca todas as orientações médicas. Repouso, alimentação leve, nada de esforços. Tentou ocupar a mente com trabalho, mas os projetos pareciam distantes, irrelevantes. Tudo girava em torno de um único pensamento que ela evitava formular em palavras.

E se não der certo?

Ela evitava tocar no assunto com Marina, como se verbalizar o medo pudesse transformá-lo em realidade. As conversas entre elas tornaram-se superficiais de propósito, cheias de distrações e assuntos banais. Era uma proteção mútua.

À noite, sozinha no apartamento silencioso, Isabel se permitia sentir. Deitada na cama, encarava o teto no escuro e deixava que lembranças indesejadas surgissem. O aborto. O hospital. O vazio físico e emocional que se seguiu. O medo de passar por tudo aquilo outra vez.

Colocava a mão sobre o ventre, num gesto quase inconsciente.

— Se você estiver aí… — sussurrava, sentindo-se levemente ridícula por falar com algo que talvez nem existisse. — Fique.

Os dias avançavam, e o corpo começava a enviar sinais confusos. Um cansaço fora do comum. Um enjoo leve pela manhã que ela tentava ignorar. Seios sensíveis. Pequenas mudanças que poderiam significar tudo ou nada.

Isabel não contou a ninguém. Nem a Marina. Nem à mãe. Guardava aquelas possibilidades como um segredo frágil demais para ser dividido.

No décimo segundo dia, acordou com o coração acelerado. O quarto parecia menor, o ar mais pesado. Levantou-se devagar, foi até o banheiro e encarou o próprio reflexo no espelho. Parecia a mesma mulher. Mas sentia-se diferente. Como se algo estivesse suspenso dentro dela, esperando para ser nomeado.

O teste de gravidez estava guardado no fundo da gaveta havia dias. Ela o retirou com cuidado, como se fosse um objeto sagrado. Sentou-se na beira da banheira, respirou fundo e tentou acalmar as mãos trêmulas.

— Seja o que for… eu aguento — murmurou, mais como promessa do que como certeza.

Os minutos de espera foram insuportáveis. Isabel evitou olhar diretamente para o pequeno visor, caminhou pelo banheiro, lavou o rosto, prendeu os cabelos. Quando finalmente se permitiu encarar o resultado, o mundo pareceu parar.

Duas linhas.

Nítidas. Inquestionáveis.

Isabel sentou-se no chão frio, apoiando as costas na parede. O ar lhe faltou por um instante, e as lágrimas vieram sem aviso, quentes, silenciosas, libertadoras. Não eram lágrimas de euforia descontrolada. Eram lágrimas de alívio.

— Eu consegui… — sussurrou, levando a mão à boca.

O choro veio acompanhado de um riso nervoso, incrédulo. O corpo inteiro tremia, como se estivesse absorvendo uma verdade grande demais para ser processada de uma só vez.

Pegou o celular com dedos ainda instáveis e ligou para Marina.

— Deu positivo — disse assim que a amiga atendeu, sem rodeios, sem preparação.

Do outro lado da linha, houve um silêncio breve. Depois, um soluço.

— Isabel… — Marina chorava. — Você está grávida.

A palavra ecoou diferente agora. Grávida. Real. Presente.

Nos dias seguintes, a confirmação médica trouxe números, exames, datas. A doutora Beatriz sorriu de forma contida ao ver os resultados.

— Parabéns, Isabel. A gravidez está confirmada. Tudo indica que está evoluindo muito bem.

Isabel assentiu, sentindo um nó se formar na garganta.

— Eu… eu vou conseguir levar adiante? — perguntou, num fio de voz.

— Vamos acompanhar de perto — respondeu a médica. — Mas, até agora, está tudo dentro do esperado.

Dentro do esperado. A expressão soava quase irônica. Nada daquilo parecia comum para Isabel.

Ao sair da clínica, caminhou devagar pela calçada, sentindo o sol aquecer o rosto. Pela primeira vez em muito tempo, não sentiu medo do futuro. Sentiu respeito. Responsabilidade. Amor em estado bruto.

Colocou a mão sobre o ventre ainda plano e respirou fundo.

— Agora somos nós — disse em voz baixa. — Eu e você.

Ela não sabia, não podia imaginar, que aquela vida que começava a se formar carregava consigo uma história que ainda não lhe havia sido contada. Que, semanas depois, aquele mesmo lugar que lhe dera esperança seria palco de uma revelação devastadora.

Por enquanto, porém, Isabel permitiu-se apenas existir naquele instante.

Grávida.

Inteira.

E profundamente inconsciente de que o destino já se movia em outra direção.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App