Isabel sentiu o peso da decisão no momento exato em que atravessou a porta da clínica.
Não era medo. Medo ela conhecia bem. Aquilo era algo mais profundo — uma consciência silenciosa de que, a partir dali, não havia retorno. Não importava quantas vezes tivesse repetido para si mesma que aquela escolha era racional, madura, necessária. O corpo sabia antes da mente: sua vida estava prestes a mudar.
A recepcionista sorriu, profissional, enquanto confirmava seus dados.
— Primeira consulta para fertilização assistida? — perguntou.
Isabel assentiu.
A palavra assistida ecoou em sua mente. Não havia parceiro, mãos dadas, expectativas compartilhadas. Apenas ela. E isso era exatamente o que queria. Ou pelo menos, o que precisava naquele momento.
Sentou-se na sala de espera e observou outras mulheres. Algumas acompanhadas, outras sozinhas. Nenhuma parecia fraca. Todas carregavam algo invisível no olhar — desejo, perda, esperança ou cansaço. Isabel percebeu que não estava ali por impulso. Estava ali porque sobrevivera.
O aborto não fora apenas físico. Fora emocional. Descobrir a traição do homem em quem confiara, ainda mais com Camila — prima, confidente, quase irmã — havia desmontado tudo o que acreditava sobre amor e lealdade. O luto pelo filho que perdeu se misturara à vergonha, à raiva e à sensação de ter sido enganada em todos os níveis possíveis.
Ser mãe solo não era um plano romântico. Era um recomeço possível.
— Isabel Duarte? — chamou a enfermeira.
Ela se levantou.
No consultório, o médico explicou cada etapa com cuidado técnico. Hormônios, exames, prazos, taxas de sucesso. Isabel ouviu tudo com atenção, fazendo perguntas objetivas. Não havia espaço para ilusão ali.
— Você entende que esse é um processo emocionalmente exigente? — ele perguntou.
— Eu entendo — respondeu. — Já passei por coisa pior.
O médico assentiu, respeitoso.
— Precisaremos escolher o material genético do doador. Tudo é feito com códigos. Sigilo absoluto.
Isabel sentiu um leve aperto no peito. Não por dúvida, mas pela estranheza de pensar que seu filho teria metade de uma história desconhecida.
— Não preciso de informações pessoais — disse. — Apenas que seja saudável.
Era a forma que encontrara de manter distância emocional. Não queria criar fantasias. Não queria imaginar rostos, nomes, possibilidades. Aquela parte da história não existiria.
Após a consulta, assinou documentos. Muitos. Leu cada cláusula com atenção. Nenhuma menção a falhas. Nenhuma previsão de erro. Tudo parecia seguro, organizado, controlado.
Talvez controle fosse o que mais buscava naquele momento.
Ao sair da clínica, Isabel respirou fundo. O sol do fim da tarde tocava sua pele de forma suave. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo próximo de alívio.
Naquela noite, contou a Marina.
— Você tem certeza? — a amiga perguntou, sentada no sofá, segurando a xícara com força.
— Não — Isabel respondeu. — Mas tenho convicção.
— Isso é muito grande, Isa.
— Eu sei. Mas também é meu.
Marina a abraçou, forte.
— Então eu vou estar aqui. Em tudo.
Isabel fechou os olhos. Aquela promessa importava.
Dias depois, os exames começaram. Coletas, ultrassons, retornos. O corpo de Isabel entrava em um ritmo novo, estranho, às vezes cansativo. Havia momentos de exaustão, outros de silêncio absoluto, em que ela se perguntava se estava sendo egoísta.
Mas então lembrava: egoísmo fora o que fizeram com ela.
Em um dos retornos, a enfermeira explicou novamente sobre os procedimentos.
— Todo o material é identificado por códigos rigorosos — disse. — Não há margem para erro.
Isabel assentiu, confiando.
Assinou mais um formulário sem imaginar que aquele detalhe — um código, uma sequência fria de números — carregava um destino inteiro.
Naquela mesma clínica, em outro setor, materiais genéticos eram armazenados. Histórias diferentes. Vidas que jamais deveriam se cruzar.
Mas cruzariam.
Isabel saiu da clínica naquele dia com uma sensação estranha no peito. Não era intuição. Era apenas o peso de estar fazendo algo grande demais para ser simples.
Ela colocou a mão sobre o ventre ainda vazio e murmurou, quase sem perceber:
— Eu vou cuidar de você. Sozinha, se for preciso.
Não sabia que não estaria sozinha.
Não sabia que aquele processo, tão cuidadosamente planejado, começava ali a sair do controle.
E que o acaso, silencioso, já havia entrado em cena.