Isabel observava a chuva escorrer pelo vidro do café como se aquilo fosse capaz de levar embora tudo o que ainda pesava dentro dela. O mundo seguia em movimento do lado de fora — carros, pessoas, vida — enquanto ela permanecia suspensa naquele mesmo ponto havia meses.
— Você está quieta demais — Marina disse, mexendo distraidamente o café. — Esse silêncio me assusta.
Isabel respirou fundo antes de responder. Não porque não soubesse o que dizer, mas porque dizer tornaria tudo real.
— Eu tomei uma decisão.
Marina ergueu os olhos devagar. Conhecia aquele tom. Não era impulsivo. Era definitivo.
— Que tipo de decisão?
Isabel desviou o olhar para a rua, como se buscasse coragem nos reflexos distorcidos da cidade.
— Eu vou ser mãe.
O silêncio entre elas não foi de surpresa. Foi de compreensão.
— Sozinha? — Marina perguntou, com cuidado.
Isabel assentiu.
— Sozinha.
Marina pousou a xícara com delicadeza exagerada, como se qualquer ruído pudesse quebrar algo frágil demais.
— Você tem certeza?
Isabel soltou um sorriso breve, quase triste.
— Eu nunca tive tanta certeza de algo.
Marina não insistiu. Esperou. Sempre esperava. Sabia que Isabel precisava organizar as palavras antes de entregá-las ao mundo.
— Depois do aborto… — Isabel começou, a voz baixa — eu percebi que perdi mais do que um bebê. Perdi a ideia de futuro que eu tinha. A família que eu imaginava. A confiança nas pessoas que eu mais amava.
Marina fechou os dedos ao redor da própria xícara, tensa.
— O que fizeram com você foi cruel.
— Não foi só a traição — Isabel continuou. — Foi o fato de ter vindo de quem veio. Minha prima. Minha melhor amiga. E ele… — Ela engoliu em seco. — Ele era o pai do meu filho. Ou seria.
A palavra filho ainda doía, mas já não sangrava como antes.
— Eu não quero mais depender de ninguém para construir algo que é meu — Isabel disse. — Não quero acordar todos os dias com medo de ser enganada de novo.
— E você acha que isso vai te proteger da dor? — Marina perguntou, com doçura.
Isabel pensou por alguns segundos.
— Não. Mas vai me dar controle. E, depois de tudo, é disso que eu preciso.
Marina respirou fundo.
— Você já pensou em como fazer isso?
Isabel assentiu novamente.
— Inseminação artificial. Com doador anônimo.
Marina arregalou os olhos, mas não por julgamento — por preocupação.
— É uma decisão enorme.
— Eu sei. — Isabel finalmente encarou a amiga. — Mas eu não quero um pai para meu filho. Quero ser mãe. Só isso.
Marina estendeu a mão por cima da mesa e segurou a dela.
— Eu vou estar com você. Em cada passo.
Os olhos de Isabel se encheram de lágrimas, mas nenhuma caiu.
— Eu só quero amar alguém sem medo — ela sussurrou. — Nem que esse alguém ainda nem exista.
Do lado de fora, a chuva começava a cessar.
Isabel não sabia ainda que, naquele exato momento, o destino já havia sido colocado em movimento — silencioso, implacável e prestes a cruzar seu caminho com o de um homem que jamais planejou ser pai daquela forma.
Mas isso…
Isso viria depois.