Um Erro Chamado Amor Quando  o Destino Decide Por Eles
Um Erro Chamado Amor Quando o Destino Decide Por Eles
Por: Ester
Capítulo 1 - A decisão

Isabel observava a chuva escorrer pelo vidro do café como se aquilo fosse capaz de levar embora tudo o que ainda pesava dentro dela. O mundo seguia em movimento do lado de fora — carros, pessoas, vida — enquanto ela permanecia suspensa naquele mesmo ponto havia meses.

— Você está quieta demais — Marina disse, mexendo distraidamente o café. — Esse silêncio me assusta.

Isabel respirou fundo antes de responder. Não porque não soubesse o que dizer, mas porque dizer tornaria tudo real.

— Eu tomei uma decisão.

Marina ergueu os olhos devagar. Conhecia aquele tom. Não era impulsivo. Era definitivo.

— Que tipo de decisão?

Isabel desviou o olhar para a rua, como se buscasse coragem nos reflexos distorcidos da cidade.

— Eu vou ser mãe.

O silêncio entre elas não foi de surpresa. Foi de compreensão.

— Sozinha? — Marina perguntou, com cuidado.

Isabel assentiu.

— Sozinha.

Marina pousou a xícara com delicadeza exagerada, como se qualquer ruído pudesse quebrar algo frágil demais.

— Você tem certeza?

Isabel soltou um sorriso breve, quase triste.

— Eu nunca tive tanta certeza de algo.

Marina não insistiu. Esperou. Sempre esperava. Sabia que Isabel precisava organizar as palavras antes de entregá-las ao mundo.

— Depois do aborto… — Isabel começou, a voz baixa — eu percebi que perdi mais do que um bebê. Perdi a ideia de futuro que eu tinha. A família que eu imaginava. A confiança nas pessoas que eu mais amava.

Marina fechou os dedos ao redor da própria xícara, tensa.

— O que fizeram com você foi cruel.

— Não foi só a traição — Isabel continuou. — Foi o fato de ter vindo de quem veio. Minha prima. Minha melhor amiga. E ele… — Ela engoliu em seco. — Ele era o pai do meu filho. Ou seria.

A palavra filho ainda doía, mas já não sangrava como antes.

— Eu não quero mais depender de ninguém para construir algo que é meu — Isabel disse. — Não quero acordar todos os dias com medo de ser enganada de novo.

— E você acha que isso vai te proteger da dor? — Marina perguntou, com doçura.

Isabel pensou por alguns segundos.

— Não. Mas vai me dar controle. E, depois de tudo, é disso que eu preciso.

Marina respirou fundo.

— Você já pensou em como fazer isso?

Isabel assentiu novamente.

— Inseminação artificial. Com doador anônimo.

Marina arregalou os olhos, mas não por julgamento — por preocupação.

— É uma decisão enorme.

— Eu sei. — Isabel finalmente encarou a amiga. — Mas eu não quero um pai para meu filho. Quero ser mãe. Só isso.

Marina estendeu a mão por cima da mesa e segurou a dela.

— Eu vou estar com você. Em cada passo.

Os olhos de Isabel se encheram de lágrimas, mas nenhuma caiu.

— Eu só quero amar alguém sem medo — ela sussurrou. — Nem que esse alguém ainda nem exista.

Do lado de fora, a chuva começava a cessar.

Isabel não sabia ainda que, naquele exato momento, o destino já havia sido colocado em movimento — silencioso, implacável e prestes a cruzar seu caminho com o de um homem que jamais planejou ser pai daquela forma.

Mas isso…

Isso viria depois.

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