Mundo ficciónIniciar sesiónTamara Silva amou Pedro Albuquerque por dez anos. Dez anos de devoção cega, de pequenos gestos ignorados e de uma esperança teimosa que ela jurava ser amor. Para ele, porém, Tamara nunca passou de uma amiga da sua irmã conveniente alguém sempre disponível, e pronta para qualquer coisa. Mas tudo desmorona numa única noite. Em meio às luzes de uma boate, Tamara escuta Pedro rir com outras mulheres enquanto a descreve como “a cega apaixonada que beijaria seus pés para sempre”. O golpe final. A frase que arranca dela a última gota de dignidade e acende um fogo que ela jamais sentiu. Ela sair daquele lugar determinada a mudar. Determinada a reconstruir a própria vida, Tamara desaparece da rotina que Pedro sempre tomou como garantida. Longe dele e longe daquela versão frágil de si mesma ela renasce. Nova cidade, novos planos, e se torna uma nova mulher. O que ela não espera é que Pedro, acostumado a tê-la orbitando ao redor dele, finalmente perceba o vazio deixado pela ausência dela… e descubra que perdeu algo que nunca valorizou. Agora, o jogo inverteu. E Tamara não pretende voltar a ser o prêmio fácil de ninguém muito menos dele. Nunca mais ela seria uma tola apaixonada e ele entenderia que ama alguém que nunca poderá ter dói.
Leer más༺ Tamara Silva ༻
A noite de sábado avançava lenta, e eu estava ali, afundada no sofá, deslizando o dedo pela tela como quem procura um motivo para continuar sonhando. Bastou abrir os stories para encontrar Pedro em mais uma aventura barulhenta, cercado de risos, luzes e duas mulheres penduradas nele como enfeites de uma vitrine cara. A risada dele atravessou a tela e, como sempre, acertou direto onde doía. Quando será que ele perceberia que eu o amor tanto? Célia se jogou ao meu lado com um balde de pipoca, observou a cena e revirou os olhos. — Você e essa obsessão por um homem que não a deseja… Eu realmente não entendo — murmurou, impaciente. — Cuide da sua vida — retruquei, irritada com a verdade que ela insistia em esfregar na minha cara. — Um dia ele vai perceber o quanto gosto dele. A expressão dela desabou numa mistura de cansaço e frustração. — Dez anos, Tamara. Dez. Quantas vezes mais você pretende se machucar por alguém que nunca lhe ofereceu sequer consideração? Isso já lhe tirou tempo demais. As palavras ecoaram como marteladas. No fundo, eu sabia que Célia estava certa. Pedro jamais foi gentil, nunca demonstrou apreço real, ou me tratou com o mínimo de respeito. Havia dias em que a frieza dele parecia um castigo, e mesmo assim eu inventava desculpas para protegê-lo. Para mim, aquele sentimento era amor. Para o resto do mundo, um vício que me consumia. — Você não percebe que isso a adoece você? — insistiu Célia, firme. — Ele se diverte com quem quiser, e você segue aqui, presa, esperando por migalhas. — Eu gosto dele — respondi, num fio de voz que mais parecia súplica. — Apenas isso. Ela soltou um suspiro pesado, pegou o controle e mudou de canal. — Tentarei não repetir mais — declarou. — Só espero que desperte antes de desperdiçar ainda mais da própria vida. Quando o silêncio ameaçava se instalar, a porta se abriu. Estela entrou apressada, chamando meu nome. — Tamara, vamos. Quero você comigo hoje. Pedro está na nova boate de nova Lubosne, e seria bom aparecer por lá. Levantei-me num salto, tomada por um entusiasmo que me denunciava. Estela sempre acreditou que bastava uma chance para o irmão enxergar o que ignorava há anos. Talvez por isso nunca desistisse de me arrastar para perto dele. Célia resmungou antes mesmo de eu chegar à porta. — Vá lá, então. Corra atrás de quem só lhe causa sofrimento. — Deixe de implicância — respondi, já seguindo Estela. — Sei o que faço. No quarto, ela separou um vestido roxo e começou a mexer na nécessaire com determinação. — Vou preparar uma maquiagem impecável — afirmou, convicta. — Quero ver se Pedro continua fingindo que não nota você. Vesti o tecido macio, ajeitei a barra e tentei controlar o nervosismo. — Será que adianta? — perguntei, quase sem ar. Estela se aproximou e segurou meu rosto com delicadeza. — Ele não percebeu ainda porque enxerga o mundo pela metade. Mas há momentos em que até os distraídos despertam. Assenti, embora o pensamento insista em lembrar que, até então, nada havia mudado. Mesmo assim, deixei que ela finalizasse a maquiagem como se cada pincelada fosse uma promessa. Talvez fosse minha última tentativa e a chance que eu tanto esperava finalmente estivesse chegando. Quando terminei de colocar o vestido e Estela finalizou a maquiagem, senti-me quase uma versão melhorada de mim mesma. O espelho devolveu um reflexo que parecia confiante, embora eu soubesse que parte daquela coragem é pura maquiagem emocional. Estela sorriu, satisfeita, e anunciou que iria buscar a bolsa que havia deixado no seu quarto. Assim que ela desapareceu pelo corredor, passos conhecidos se aproximaram. Célia surgiu devagar, como se estudasse cada detalhe meu. Detestava quando vinha com aquele olhar capaz de atravessar qualquer defesa, o mesmo olhar que sempre me deixava inquieta, como se estivesse prestes a anunciar uma tragédia inevitável. — Já sei — digo, cruzando os braços. — Você vai começar com aquele seu pressentimento estranho. Ela respirou fundo, puxou uma almofada e se acomodou no sofá. — Não gosta quando olho assim, eu sei. Mas a noite promete um choque de realidade — declarou com a calma de quem anuncia a mudança do clima. Engoli em seco, sentindo um arrepio subir pela nuca. — Quer dizer o quê com isso? Ela passou a mão pelo próprio cabelo, pensativa. A expressão firme contrastava com o tom grave. — Tenho um dom para perceber certas coisas. E, hoje, algo me diz que o véu finalmente vai cair dos seus olhos. Um frio percorreu minhas costas, mesmo com o calor do quarto. — Está me jogando praga? — perguntei, sem conseguir esconder o incômodo. Ela revirou os olhos, impaciente. — Claro que não. Estou dizendo que você vai cair do cavalo. Vai perceber o tempo precioso que deixou escorrer por alguém que nunca a colocou como prioridade. A irritação subiu antes que eu conseguisse controlar. — Já pedi para cuidar da sua vida. O Pedro é assunto meu. A resposta fez o rosto dela perder a firmeza habitual; havia tristeza ali, coisa rara de ver. Célia respirou fundo antes de continuar. — Quero seu bem, Tamara. Mesmo quando parece que estou puxando o seu tapete. Só tento livrá-la de mais dor. A confissão me desarmou por dentro. Suspirei, desviando o olhar. — Se quer o meu bem, me deseje sorte. Não venha com essas previsões sombrias. Só isso. Ela balançou a cabeça devagar, como quem aceita sem acreditar muito. — Tudo bem. Mas prepare o coração. Pode ser que, depois desta noite, nada permaneça igual. Às vezes, acordar para a realidade é doloroso… e necessário. Estela retornou exatamente nesse momento, animada, segurando a bolsa. — Pronta? — perguntou, sem perceber o clima tenso. Assenti, tentando recuperar o fôlego que perdi durante a conversa. Enquanto caminhávamos até a porta, senti o olhar da Célia nas minhas costas, pesado, quase protetor. Uma parte de mim queria ignorar todos os sinais. A outra, entretanto, já pressentia que essa noite marcaria um antes e um depois na minha vida. E, sem saber, eu seguia rumo ao momento que mudaria tudo.༺ Pedro Albuquerque ༻O soco que acerto sobre a mesa ecoa pela sala, vibra pelos vidros, reverbera dentro do peito como descarga elétrica. Ando de um canto ao outro, a palma da mão desliza pela barba, enquanto a cabeça fervilha.— Isso só pode ser jogo dela… — murmuro, quase sem voz. — Quer me ver implorar… estou correndo atrás, porém nunca imaginei implorar tanto.Fito a paisagem urbana pela janela ampla. Nova York cintila lá embaixo com aquela arrogância típica de quem observa seres humanos perdidos nos próprios dramas. A cidade sempre exibe luzes bonitas, embora hoje pareça zombar de mim.— Preciso fazer alguma coisa… principalmente tirar esse tal de Malik do caminho. — A frase sai mais seca do que planejo.O toque do meu celular corta meus devaneios. No visor, o contato do investigador. Atendo rápido.— Fala.— O relatório sobre Malik está no e-mail. Enviado agora.— Ótimo. A transferência sai ainda hoje.Encerro a ligação, abro o e-mail imediatamente.As informações surgem no mon
༺ Tamara Silva ༻A sala de reunião permaneceu silenciosa enquanto eu ajustava o último tópico da apresentação. Eu estava esperando a equipe da limpeza finalmente remover a pilha absurda de presentes espalhados pelo meu escritório mais cedo.Quando a funcionária disse que estava tudo como devia ser, senti um alívio por não ter aqueles objetos espalhados pelo carpete, que me provocavam uma sensação de sufocamento irritante. Pelúcias, caixas decoradas, miniaturas coloridas e sapatos de marca soavam como provocação infantil.Impropriedade no ambiente corporativo. Do que adianta todo esse mimo agora? Quando não há mais sentimentos da minha parte, só raiva. Toda vez que lembro o que ele me fez, mais nojo sinto da cara dele. Suspirei fundo, não ia me incomodar com isso.Eu estava revisando os últimos gráficos de pesquisa quando a porta se abriu sem aviso. Pedro surgiu com o notebook debaixo do braço e ocupou a cadeira presidencial.— Tudo pronto? — perguntou com um sorriso controlado.Acenei
༺ Malik Stavani ༻A fachada do hotel brilhava como um monumento à arrogância de quem nunca soube viver sem opulência. Vidros espelhados refletiam o céu nublado de Nova York, e as colunas douradas na entrada davam aquela sensação de que eu estava prestes a entrar no templo do ego de alguém. Suspirei pesado.Algumas coisas nunca mudam.Mia sempre escolheu os lugares mais luxuosos e precisou de palco, luz, olhos… atenção.Estacionei no subsolo, peguei o elevador e subi até o térreo. O saguão era tão exagerado quanto eu esperava: lustres de cristal, tapete persa, mármore italiano. As pessoas ali pareciam flutuar em silêncio, como se ninguém estivesse autorizado a respirar alto demais.Aproximei-me da recepção. A atendente ergueu o olhar com aquele sorriso profissional.— Boa tarde, senhor. Nome?— Malik Stavani — respondi.Ela fez uma ligação rápida, ouviu algo do outro lado e assentiu.— O senhor pode subir. Suíte 22.— Obrigado.Peguei o elevador novamente. O número “22” brilhava no cor
༺ Tamara Silva ༻Malik parou o carro na frente do meu prédio e coloquei a mão na maçaneta, pronta para sair, mas ele segurou meu pulso. Quando virei o rosto, ele me puxou devagar e me deu um beijo daqueles… lentos, demorados, quase um lembrete de que eu pertencia ali.— Vou resolver uns negócios — ele murmurou contra meus lábios. — Mas quero te ver hoje à noite. Pode ser?Sorri, ainda sentindo a respiração dele na minha boca.— Pode.Ele fez aquele ar misterioso que já estava começando a conhecer.— E aonde vamos? — provoquei.— Surpresa — ele respondeu, vitorioso.— Então acredito que será… surpreendente — comentei, rindo.— Sempre. — Ele piscou. — Tenha um belo dia, bebê. E pensa em mim.— Ah, isso é fácil — falei, rindo enquanto ele baixava o vidro do veículo.O vidro subiu e o motor ligou. Só quando ele arrancou que respirei fundo e virei para a portaria.Cumprimentei o porteiro como sempre, subi no elevador e, assim que entrei no apartamento, topei com a cena do caos: Célia e Es
༺ Malik Stavani ༻O sol mal entrava pela janela, quando senti o corpo de Tamara se mexendo nos meus braços. Ainda estava meio perdido entre o sono e o vício de ter ela por perto cada manhã ao lado dela parecia uma dessas cenas que vermos e não quer que acabe.Passei o braço pela cintura dela, puxando-a mais para perto, e murmurei contra o cabelo dela.— Bom dia, minha bebê.Ela se espreguiçou devagar, soltando um resmungo sonolento antes de abrir um sorriso preguiçoso.— Bom dia… — a voz rouca, linda, quase me fez esquecer o resto do mundo.— Dormiu bem? — perguntei, já sabendo a resposta.Ela deu uma risada baixa e balançou a cabeça. — Se isso foi dormir, então fui destruída dormindo.Não consegui evitar rir também, o som ecoando suave entre nós.— Prometo pegar mais leve da próxima vez.Ela virou o rosto e me deu um olhar provocante. — Promessas suas não costumam durar muito, Malik.Antes que eu pudesse responder, bateram à porta. Três toques curtos.— Relaxa — murmurei, me levant
༺ Tamara Silva ༻Malik dirigiu por alguns minutos enquanto eu observava a cidade pela janela. As luzes de Nova York sempre tiveram um encanto próprio, mas essa noite tudo parecia ainda mais vivo ou talvez fosse só o efeito de estar ao lado dele. Depois do jantar, Malik disse ter uma surpresa e obviamente não me contou nada.Quando o veículo parou, ergui o olhar curiosa.— Onde estamos? — perguntei, ajeitando o cabelo enquanto descia.Ele somente sorriu de um jeito charmoso e misterioso que me desmontava inteira.— Bem-vinda ao Starlight Point, meu amor. — Ele apontou para frente.O lugar era simplesmente deslumbrante. Um mirante exclusivo no alto de um prédio luxuoso, conhecido entre casais apaixonados que queriam fugir do caos da cidade. Dava para ver Nova York inteira brilhando como um céu invertido. Pequenas luzes refletiam nos vidros, e o vento frio trazia um cheiro suave de madeira e flores.Quase perdi o fôlego.— Nossa… — murmurei, dando alguns passos. — Isso aqui é… lindo.M





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