Mundo de ficçãoIniciar sessãoMarye sempre soube que alguns encontros eram inevitáveis. Ainda assim, quando entrou no grande salão do evento beneficente organizado por seu avô, não estava preparada para o impacto que aquele reencontro lhe causaria. O ambiente era sofisticado, iluminado por lustres imponentes, tomado por vozes educadas e sorrisos calculados. Tudo parecia perfeitamente no lugar — menos ela.
O vestido azul que usava fora escolhido cuidadosamente. Não para impressionar, mas para se proteger. A cor lembrava o mar, profundo e aparentemente calmo, mas escondendo correntes perigosas. Seus cabelos loiros caíam soltos sobre os ombros, e a postura firme disfarçava o turbilhão que se formava por dentro. Foi então que o viu. Daniel estava do outro lado do salão, parado, imóvel, como se o tempo tivesse congelado ao redor dele. O coração de Marye acelerou de forma incontrolável. Quatro anos não haviam sido suficientes para apagar o que sentia. Bastou um olhar para que todas as defesas cuidadosamente construídas começassem a ruir. Os olhos deles se encontraram. Não houve palavras. Apenas silêncio. Um silêncio carregado de tudo o que nunca foi dito. Daniel parecia diferente. Mais sério, mais contido. Havia maturidade em seus gestos e uma melancolia evidente em seu olhar. Marye percebeu, com certa raiva de si mesma, que ainda conseguia enxergar o homem por quem se apaixonara. Ela desviou o olhar primeiro. Tentou se concentrar nos convidados, cumprimentar pessoas importantes, participar de conversas vazias. Mas sentia a presença dele como uma sombra constante. Cada passo que dava parecia mais pesado, como se o passado a puxasse para trás. — Você está bem? — perguntou Sophie, aproximando-se discretamente. Marye forçou um sorriso. — Estou. Sophie não insistiu. Apenas apertou levemente sua mão, em um gesto silencioso de apoio. Do outro lado do salão, Daniel lutava contra o impulso de se aproximar. Não queria invadir o espaço dela, mas também sabia que aquela poderia ser a única chance de falar com Marye novamente. Quando a viu se afastar para um dos corredores laterais, decidiu segui-la. Marye parou diante de uma grande janela que dava para a cidade iluminada. Respirava fundo, tentando recuperar o controle. Sentiu a presença dele antes mesmo de ouvi-lo. — Marye… A voz de Daniel era baixa, carregada de emoção. Ela se virou lentamente, o coração batendo forte demais. — Não — respondeu de imediato. — Não diga nada. Não aqui. Daniel assentiu, respeitando o limite imposto. — Eu só queria que soubesse que… — começou, mas parou ao ver o olhar dela. — Desculpa. Marye sentiu um nó se formar na garganta. — Você acha que um pedido de desculpas resolve tudo? — perguntou, mantendo a voz firme. — Você destruiu minha confiança. Você e ela. Daniel abaixou a cabeça. — Eu sei. E sei que não mereço seu perdão. Mas nunca deixei de te amar. As palavras ecoaram dentro dela de forma dolorosa. Marye fechou os olhos por um instante, tentando conter as lágrimas. — Amar não foi suficiente — respondeu. — Amar deveria ter sido o bastante para não me trair. O silêncio entre eles era pesado. Antes que qualquer outra coisa pudesse ser dita, Cherie apareceu no corredor. Ao ver os dois juntos, parou, hesitante. Seu olhar carregava culpa e medo. — Eu não queria interromper — disse, em tom baixo. — Só queria dizer que sinto muito. Marye a encarou por longos segundos. — O arrependimento não muda o que aconteceu — respondeu. — Mas talvez mude quem você é agora. Cherie assentiu, com lágrimas nos olhos. — Eu sei que nunca poderei recuperar sua amizade. Mas precisava olhar nos seus olhos e dizer isso. Marye respirou fundo. Não havia espaço para ódio ali. Apenas cansaço. — Talvez um dia eu consiga te perdoar — disse. — Hoje, não. Cherie se afastou em silêncio. Daniel observava a cena sem interferir, consciente de que qualquer palavra a mais poderia piorar tudo. Quando ficaram novamente a sós, ele deu um passo para trás. — Eu não vou insistir — disse. — Só queria que soubesse que estou aqui. Se um dia você quiser conversar… eu espero. Marye o encarou, sentindo o coração dividido entre a razão e o sentimento. — Algumas coisas não têm volta, Daniel — respondeu. — E talvez o amor seja uma delas. Ele assentiu, aceitando aquela verdade, por mais dolorosa que fosse. Quando Daniel se afastou, Marye permaneceu ali, olhando para a cidade. Pela primeira vez, percebeu que o reencontro não havia trazido apenas dor. Trouxera também perguntas que ela não sabia responder. Será que o tempo realmente apaga tudo? Ou apenas ensina a conviver com o que nunca deixou de existir? Naquela noite, Marye compreendeu que o passado não estava enterrado. Estava vivo. E exigia ser enfrentado.






