Verdades Que Nunca Dormiram

O céu de Los Angeles amanhecia encoberto naquele dia, como se a cidade inteira compartilhasse do peso que Marye carregava no peito. Ela observava as nuvens cinzentas da janela do quarto, ainda vestida com o robe de seda, sentindo que algo estava prestes a mudar. Não era ansiedade nem medo. Era a estranha sensação de que certas verdades, por mais tempo que ficassem escondidas, sempre encontram uma maneira de vir à tona.

A conversa com Cherie na noite anterior ecoava em sua mente. Não havia desculpas, nem tentativas de se vitimizar. Apenas uma confissão crua, dolorosa, que deixara Marye ainda mais confusa. O perdão continuava distante, mas a raiva já não era a mesma. Estava mais cansada do que furiosa.

O celular vibrou sobre a mesa de cabeceira.

Era uma mensagem de sua mãe.

“Precisamos conversar. Há coisas que você ainda não sabe.”

Marye fechou os olhos por um instante. Durante anos, vivera sem aquela mulher. Agora, em poucos dias, ela se tornara uma presença constante, trazendo perguntas que Marye nunca tivera coragem de fazer. Ainda assim, sabia que não podia fugir.

Algumas verdades exigem ser ouvidas, mesmo quando machucam.

Encontraram-se em um café discreto, longe dos olhares curiosos e das sombras do sobrenome Carlos. A mãe de Marye parecia nervosa, mexendo nas mãos, evitando o olhar direto da filha. Marye sentou-se à sua frente, mantendo uma postura firme, mas o coração estava inquieto.

— Eu já te disse parte da verdade — começou a mãe, em voz baixa. — Mas não tudo.

Marye permaneceu em silêncio.

— Quando engravidei de você, eu era muito jovem — continuou. — Seu pai me amava, mas era pressionado pela família. Seu avô nunca aceitou nossa relação. Para ele, eu não era “adequada”.

Marye sentiu um aperto no peito ao ouvir o nome do avô associado àquela história.

— Eu tentei lutar — disse a mulher, com lágrimas nos olhos. — Mas fui ameaçada. Disseram que, se eu ficasse, destruiríam qualquer chance de eu ter uma vida digna. Eu estava sozinha, com medo… e acabei cedendo.

— E meus irmãos? — perguntou Marye, pela primeira vez. — Vanessa e Felipe. Eles sabiam de mim?

A mãe balançou a cabeça.

— Não. Nunca contei. Só agora eles sabem da sua existência.

A revelação deixou Marye sem ar. Uma família inteira da qual fora excluída sem sequer saber.

— E por que voltar agora? — perguntou, finalmente.

A mãe respirou fundo.

— Porque o passado está prestes a vir à tona de qualquer forma. Seu avô está doente, Marye. Muito doente.

A notícia caiu como um golpe.

Carlos, o homem inabalável, o pilar de tudo o que ela conhecia, estava doente.

— O que ele tem? — perguntou, com a voz falha.

— Os médicos não foram claros, mas dizem que é grave. E ele está tentando acertar tudo antes que seja tarde.

Marye sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O avô sempre fora uma figura distante, rígida, quase fria. Ainda assim, era sua base, seu alicerce. Pensar em perdê-lo despertava sentimentos contraditórios.

Naquela mesma tarde, Sophie ligou confirmando o que a mãe dissera. Carlos havia pedido para ver Marye.

A mansão parecia mais silenciosa do que nunca. Carlos estava sentado em sua poltrona favorita, mais magro, mais frágil. Ainda assim, o olhar permanecia firme.

— Você cresceu — disse ele, ao vê-la. — E se tornou exatamente quem eu esperava.

Marye sentiu um nó na garganta.

— Eu sei que você tem perguntas — continuou Carlos. — E sei que errei.

A admissão surpreendeu Marye. Nunca ouvira o avô assumir falhas.

— Eu afastei sua mãe porque achei que estava te protegendo — disse ele. — Achei que dinheiro e poder seriam suficientes. Estava errado.

Marye sentiu lágrimas escorrerem pelo rosto.

— O senhor destruiu minha família — disse, com dor.

Carlos fechou os olhos por um instante.

— Eu sei. E vou passar o resto da vida tentando consertar isso.

Enquanto Marye lidava com aquelas revelações, Daniel também enfrentava seus próprios fantasmas. Ele fora procurado pelo pai naquela manhã. O homem parecia nervoso, inquieto.

— Eu vou me casar novamente — anunciou. — Com a mãe de Marye.

Daniel sentiu o mundo girar.

— O quê?

— Nós já somos casados — corrigiu o pai. — E isso muda tudo.

Daniel percebeu que os laços entre eles estavam se tornando ainda mais complexos. Amor, culpa, família — tudo se misturava de forma perigosa.

Naquela noite, Marye e Daniel se encontraram por acaso na praia. O mar estava agitado, refletindo o caos que ambos sentiam por dentro.

— Parece que nossas vidas estão mais entrelaçadas do que nunca — disse Daniel.

Marye assentiu.

— E quanto mais verdades aparecem, mais difícil fica fingir que nada aconteceu.

Eles caminharam em silêncio por alguns minutos.

— Eu não sei onde isso vai dar — confessou Marye. — Mas sei que não posso mais viver na ignorância.

Daniel a olhou com sinceridade.

— Seja qual for o caminho, eu aceito — disse. — Mesmo que não seja ao meu lado.

Marye sentiu o coração apertar.

Algumas verdades não libertam imediatamente.

Elas apenas abrem portas que jamais poderão ser fechadas novamente.

E Marye estava prestes a atravessar todas elas.

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