Mundo ficciónIniciar sesiónDaniel sempre soube que não pertencia completamente àquele mundo. Mesmo vivendo em Los Angeles há anos, mesmo falando inglês com fluência, usando roupas caras e frequentando eventos da alta sociedade, havia algo nele que jamais se encaixava. Talvez fosse a memória das ruas quentes do Brasil, da simplicidade da casa onde cresceu, ou do pai trabalhador que lhe ensinara desde cedo que dignidade valia mais do que dinheiro.
Ele carregava essas raízes com orgulho. Mas, ao se apaixonar por Marye, também passou a carregá-las com medo. Marye vinha de um universo diferente. Seu sobrenome abria portas, seu avô era uma lenda viva no mundo dos negócios, e sua presença causava respeito imediato. Daniel a amava exatamente por quem ela era — forte, inteligente, sensível —, mas nunca conseguiu ignorar a sensação de ser um intruso em sua vida. Esse sentimento o acompanhava desde o início do relacionamento. Havia momentos em que se sentia pequeno diante da grandiosidade que cercava Marye. Em jantares formais, percebia olhares atravessados, comentários sutis, julgamentos silenciosos. Não era apenas sobre dinheiro. Era sobre origem. Sobre não ter nascido no lugar certo, com o sobrenome certo. Ele tentava ignorar, mas a insegurança se infiltrava lentamente. Quando Cherie se aproximou dele naquele período, Daniel estava emocionalmente vulnerável. Ela também se sentia deslocada, presa a uma família nobre e rígida, sufocada por expectativas que não escolheu. Havia compreensão mútua, conversas longas, confidências perigosas. A traição não aconteceu por falta de amor por Marye. Aconteceu por fraqueza. E Daniel pagou o preço mais alto possível. Quatro anos haviam se passado desde aquela noite, mas a culpa permanecia tão viva quanto no primeiro dia. Ele lembrava-se com clareza do olhar de Marye ao descobrir tudo — não de raiva, mas de decepção profunda. Aquilo o destruíra. Daniel perdeu mais do que uma namorada. Perdeu o futuro que havia imaginado. Após o escândalo, Cherie engravidou. A notícia caiu como uma bomba. A família dela reagiu com desprezo e vergonha. Para eles, Daniel era apenas um estrangeiro sem título, sem pedigree, alguém indigno de fazer parte de sua linhagem. Cherie foi expulsa de casa. Daniel tentou assumir responsabilidades. Ofereceu apoio, presença, tentou ser correto dentro do caos que ajudara a criar. Mas nada parecia suficiente para consertar o estrago. O nascimento do filho trouxe sentimentos conflitantes. Amor, culpa, medo e uma tristeza profunda. Ele amava a criança, mas cada vez que olhava para ela, lembrava-se de Marye e do que havia perdido. A distância entre ele e Cherie tornou-se inevitável. Não havia amor ali, apenas consequências. Agora, sentado dentro do carro, estacionado próximo à praia de Santa Monica, Daniel observava o mar em silêncio. O som das ondas trazia lembranças de um tempo em que acreditava ser possível recomeçar. Ele sabia que Marye estava em Los Angeles. Sabia que o reencontro era apenas questão de tempo. Parte dele desejava isso desesperadamente. Outra parte temia. — Eu estraguei tudo — murmurou para si mesmo. O celular vibrou no banco ao lado. Uma mensagem curta apareceu na tela. “Ela sabe. Elas voltaram.” Daniel sentiu o coração acelerar. Cherie havia entrado novamente na vida de Marye. E com ela, todo o passado que ele tentara enterrar. Nos dias seguintes, Daniel foi consumido por uma ansiedade silenciosa. Tentava manter a rotina, mas os pensamentos sempre retornavam ao mesmo ponto: Marye. O que ela estaria sentindo? Ódio? Indiferença? Ou algo ainda mais perigoso — saudade? Ele se lembrava do riso dela, da forma como o olhava quando acreditava estar sozinha, da confiança que havia depositado nele. E isso doía mais do que qualquer punição externa. Daniel nunca deixou de amar Marye. Mesmo sabendo que não merecia perdão, ainda sonhava com uma chance de redenção. Não para apagar o passado — isso era impossível —, mas para mostrar que havia aprendido, amadurecido, sofrido. Quando recebeu o convite para o evento beneficente organizado por Carlos, o avô de Marye, hesitou. Sabia que ela estaria lá. Sabia que aquele encontro poderia mudar tudo — para melhor ou para pior. No dia do evento, Daniel vestiu o terno com mãos trêmulas. Não era nervosismo comum. Era medo de encará-la. Medo de perceber que, para ela, ele já não significava nada. Ao entrar no salão iluminado, sentiu o ambiente vibrar com conversas sofisticadas e risos contidos. Seus olhos percorreram o espaço até encontrá-la. Marye estava deslumbrante. O vestido azul realçava seus olhos, e a postura firme escondia a fragilidade que ele conhecia tão bem. Quando os olhares se cruzaram, o mundo pareceu parar. Ali, entre dois mundos — o que havia perdido e o que talvez jamais recuperasse —, Daniel percebeu que algumas histórias não terminam quando gostaríamos. Elas apenas aguardam o momento certo para recomeçar.






