Laços de Sangue e Verdades Escondidas

O nome “mãe” nunca teve um significado concreto para Marye. Era uma palavra vazia, sem rosto, sem cheiro, sem memória. Enquanto outras crianças falavam de colo, de cuidado e de proteção, ela cresceu ouvindo apenas explicações vagas e silêncios constrangedores. Sua mãe havia ido embora quando ela ainda era um bebê, e ninguém parecia disposto a explicar exatamente o porquê.

Fernando, seu pai, fazia o possível para preencher aquele espaço. Ele era paciente, afetuoso e presente. Contava histórias antes de dormir, preparava o café da manhã, ajudava nos deveres da escola. Ainda assim, Marye percebia, mesmo pequena, que havia algo não dito em sua história. Um segredo pairava sobre sua origem como uma sombra constante.

A morte de Fernando mudou tudo.

Aos dez anos, Marye viu seu mundo desmoronar novamente. A perda do pai foi um golpe profundo, um vazio que parecia impossível de preencher. O luto foi silencioso, vivido entre quartos enormes e corredores frios da mansão do avô Carlos, para onde foi levada pouco tempo depois.

Carlos era um homem de presença imponente, acostumado a comandar impérios e a ser obedecido sem questionamentos. Conhecido internacionalmente como o homem mais rico do mundo, ele acreditava que segurança e sucesso eram suficientes para garantir felicidade. Não entendia lágrimas, nem fragilidade emocional. Para ele, sentimentos eram fraquezas que precisavam ser controladas.

Marye aprendeu rapidamente a se adaptar àquele ambiente. Tornou-se educada, contida, madura demais para a própria idade. Aprendeu a esconder a dor, a não fazer perguntas, a não esperar demais das pessoas. Se havia herdado algo do avô, era essa capacidade de se manter firme mesmo quando tudo por dentro estava desmoronando.

A única exceção era Sophie.

Sophie, sua avó paterna, enxergava a menina por trás da postura rígida. Sabia que Marye carregava perdas demais para alguém tão jovem. Era ela quem entrava em seu quarto à noite, sentava-se ao lado da cama e lhe acariciava os cabelos, dizendo que sentir saudade era uma forma de amor.

— Você não precisa ser forte o tempo todo — Sophie sussurrava. — Às vezes, chorar também é coragem.

Essas palavras acompanharam Marye por toda a vida.

Anos depois, já adulta, foi Daniel quem conseguiu romper as defesas que ela havia construído com tanto cuidado. Ele não vinha do mesmo mundo que ela. Brasileiro, de origem simples, trazia no sorriso fácil e no jeito espontâneo algo que Marye desconhecia: leveza. Com ele, ela se sentiu normal. Amada sem exigências, sem expectativas inalcançáveis.

Talvez por isso a traição tenha doído tanto.

Agora, quatro anos depois, Marye estava novamente diante de um passado que insistia em retornar.

O escritório onde aguardava a chegada da mãe e de Cherie parecia menor naquela manhã. As paredes claras, os móveis elegantes e a vista privilegiada de Los Angeles não conseguiam disfarçar o nó que se formava em seu estômago. Ela caminhava de um lado para o outro, tentando organizar os pensamentos, mas tudo parecia confuso demais.

Quando a porta se abriu, Marye sentiu o ar faltar.

A mulher que entrou primeiro era desconhecida e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar. Tinha traços semelhantes aos seus, o mesmo tom claro de pele, o mesmo formato de olhos. O tempo havia deixado marcas sutis em seu rosto, mas havia algo genuíno em sua expressão — uma mistura de culpa, medo e esperança.

Atrás dela vinha Cherie.

Marye precisou conter o impulso de se afastar. Cherie estava diferente. Mais magra, mais séria, com um olhar cansado que não combinava com a jovem despreocupada que ela um dia conheceu. Os olhos verdes carregavam um peso difícil de ignorar.

O silêncio entre as três era quase palpável.

— Marye… — disse a mulher, com a voz trêmula. — Eu sou sua mãe.

As palavras ecoaram no ambiente, mas Marye não respondeu. Limitou-se a encará-la, tentando encontrar dentro de si algum sentimento além da raiva e da confusão.

— Eu sei que você me odeia — continuou a mulher. — E tem todo o direito. Mas eu precisava te ver. Precisava te contar a verdade.

Cherie deu um passo à frente.

— Eu não vim exigir perdão — disse, com os olhos marejados. — Sei que te feri da pior forma possível. Perdi sua amizade, perdi minha família… perdi tudo. Só me restou meu filho.

A menção ao filho fez o coração de Marye apertar involuntariamente. Um filho de Daniel. A lembrança era dolorosa demais.

— Você não perdeu tudo — respondeu Marye, com a voz firme. — Perdeu a mim.

A mãe respirou fundo, como se criasse coragem para continuar.

— Eu nunca quis te abandonar — disse, finalmente. — Fui obrigada. Seu pai era muito poderoso. A família dele não aceitava nosso relacionamento. Eu era jovem, sem dinheiro, sem apoio. Ele disse que, se eu tentasse ficar com você, acabaria com a minha vida.

Marye sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

Durante toda a vida, acreditara que fora simplesmente deixada para trás. Agora, descobria que havia sido vítima de uma guerra silenciosa travada por adultos que nunca pensaram em suas consequências.

— Você está dizendo que… — Marye começou, mas a voz falhou.

— Que eu te amava — completou a mãe, chorando. — E que nunca deixei de pensar em você.

A revelação não trouxe alívio. Apenas mais perguntas.

Marye percebeu, naquele instante, que o passado era muito mais complexo do que imaginara. E que os laços de sangue, por mais fortes que fossem, também podiam ser construídos sobre mentiras.

Quando olhou para Cherie novamente, viu nela não apenas a traidora, mas uma mulher quebrada, carregando culpas e arrependimentos.

Nada estava resolvido.

Na verdade, tudo estava apenas começando.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App