O Limite Entre Perdoar e Sobreviver

A noite avançava lentamente sobre Los Angeles quando Marye deixou o evento beneficente. O motorista abriu a porta do carro, mas ela pediu alguns minutos antes de entrar. Precisava respirar. Precisava sentir o ar frio da madrugada tocar o rosto, como se isso pudesse ajudá-la a organizar o caos que se instalara dentro dela.

O reencontro com Daniel havia sido mais devastador do que imaginara. Não porque ainda o amasse — embora essa fosse uma verdade difícil de negar —, mas porque percebera que o tempo não tinha apagado nada. Apenas havia ensinado todos a conviver com a dor de forma mais silenciosa.

Dentro do carro, Marye apoiou a testa no vidro e observou as ruas passando lentamente. As luzes, os prédios, as pessoas… tudo parecia distante, como se ela estivesse apenas assistindo à própria vida de fora.

Quando chegou em casa, caminhou descalça pelo apartamento silencioso. Tirou os sapatos, deixou a bolsa sobre a mesa e seguiu direto para a varanda. O mar estava escuro naquela noite, quase invisível, mas o som das ondas era constante, insistente — assim como seus pensamentos.

Ela se lembrou do rosto de Daniel quando disse que nunca deixara de amá-la. Havia sinceridade ali. Não desculpas vazias, não tentativas de manipulação. Apenas verdade. E isso, paradoxalmente, tornava tudo ainda mais difícil.

Marye sempre acreditara que perdoar significava esquecer. Agora começava a entender que talvez o perdão fosse algo diferente. Talvez fosse lembrar sem sangrar. Mas ela ainda sangrava.

No dia seguinte, acordou cedo. A noite mal dormida deixara marcas visíveis em seu rosto, mas Marye se recusou a se esconder. Vestiu-se com simplicidade, prendeu os cabelos e seguiu para o escritório. Precisava se manter ocupada. Trabalho sempre fora seu refúgio.

Durante a manhã, recebeu uma ligação inesperada.

— Marye, é a Sophie — disse a voz suave da avó do outro lado da linha. — Você poderia passar aqui hoje? Acho que precisamos conversar.

Marye soube imediatamente que não seria uma conversa fácil.

Na casa dos avós, o ambiente era tranquilo, quase reconfortante. Sophie serviu chá e observou a neta com atenção antes de falar.

— Eu vi você ontem — disse. — Vi você e Daniel.

Marye abaixou o olhar.

— Eu tentei evitar.

— Algumas coisas não podem ser evitadas — respondeu Sophie. — Apenas enfrentadas.

O silêncio se instalou por alguns instantes.

— Você ainda o ama? — perguntou Sophie, com delicadeza.

Marye demorou a responder.

— Eu não sei — disse, finalmente. — Eu sei que ainda dói. Sei que ainda me afeta. Mas não sei se isso é amor ou apenas uma ferida aberta.

Sophie segurou a mão da neta.

— O amor não desaparece tão facilmente — disse. — Mas isso não significa que você deva voltar atrás. Às vezes, amar também é saber ir embora.

Enquanto isso, Daniel caminhava pela praia, tentando organizar os próprios pensamentos. O reencontro o deixara exausto emocionalmente, mas também estranhamente esperançoso. Marye não o expulsara. Não o ignorara. Falara com ele. Isso, para Daniel, já era muito.

Ele sabia que precisava provar com atitudes, não palavras. Precisava mostrar que havia se tornado um homem diferente.

Cherie, por sua vez, observava tudo à distância. Carregava nos braços o filho, a maior consequência de seus erros. Ao olhar para a criança, sentia um misto de amor profundo e culpa avassaladora. Sabia que jamais poderia reparar totalmente o que fizera com Marye, mas estava disposta a assumir responsabilidades.

Ela decidiu que era hora de contar toda a verdade.

No final daquela tarde, Marye recebeu uma mensagem de Cherie pedindo para conversar novamente. O coração de Marye apertou. Parte dela queria ignorar. Outra parte sabia que não podia mais fugir.

Quando as duas se encontraram, Cherie respirou fundo antes de falar.

— Daniel não foi o único culpado — confessou. — Eu sabia que você o amava. E mesmo assim, deixei acontecer. Eu estava vazia, insegura, com inveja do que vocês tinham.

Marye sentiu as palavras como golpes silenciosos.

— Eu não quero seu perdão — continuou Cherie. — Quero apenas assumir minha culpa. Porque fingir que fui vítima também é uma mentira.

O silêncio entre elas foi longo.

— Eu não sei se algum dia conseguirei perdoar vocês — disse Marye. — Mas sei que não posso continuar vivendo presa a isso.

Naquela noite, sozinha novamente, Marye compreendeu algo fundamental: perdoar não era um presente para quem a feriu. Era uma escolha para si mesma.

Ela ainda não sabia qual decisão tomaria. Não sabia se permitiria Daniel novamente em sua vida. Não sabia se reconstruiria algum laço com Cherie ou com a própria mãe.

Mas, pela primeira vez em anos, sentiu que tinha uma escolha.

E isso, por si só, já era o começo de um novo destino.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP