Mundo de ficçãoIniciar sessão
Marye sempre acreditou que o silêncio era sua maior defesa. Aprendeu isso cedo, ainda menina, quando percebeu que algumas ausências doíam mais do que palavras duras. O silêncio não exigia explicações, não criava expectativas, não prometia nada. E, acima de tudo, não traía.
Naquela noite, porém, nem o silêncio conseguiu protegê-la. Los Angeles brilhava intensamente do outro lado da enorme janela de vidro do apartamento. As luzes da cidade refletiam-se nos prédios como estrelas artificiais, frias e distantes. Era uma paisagem que muitos invejariam, mas que, para Marye, não passava de um cenário vazio. Ela estava sentada no sofá, com as pernas recolhidas junto ao corpo, abraçando os próprios joelhos, como se pudesse impedir que o coração se partisse ainda mais. Seus cabelos loiros, longos e lisos caíam desordenados sobre os ombros, algo raro para alguém sempre tão cuidadosa com a aparência. Os olhos azuis — daquela tonalidade profunda que lembrava o mar em dias de calmaria — estavam inchados e avermelhados. Não havia maquiagem, nem elegância. Apenas dor. Daniel. Cherie. Os dois nomes martelavam sua mente como uma condenação inevitável. Daniel havia sido seu primeiro amor verdadeiro. O homem que conhecera seus medos mais profundos, suas inseguranças mais silenciosas, suas cicatrizes invisíveis. Ele a fizera acreditar que era possível confiar novamente, que o amor podia ser um lugar seguro. Já Cherie… Cherie era mais do que uma amiga. Era parte de sua história, de sua infância, da menina que crescera sem mãe e encontrara nela uma espécie de irmã escolhida pela vida. Marye fechou os olhos, mas as imagens voltaram com crueldade. A mensagem anônima no celular. O endereço. A dúvida que tentou ignorar. Lembrava-se de ter dirigido até lá com o coração acelerado, dizendo a si mesma que tudo não passava de um engano. Lembrava-se da mão tremendo ao girar a maçaneta. E lembrava-se, com clareza dolorosa, da cena que encontrou. Daniel e Cherie. Juntos. Sem explicação possível. Ela não gritou. Não chorou diante deles. Apenas sentiu algo se quebrar dentro de si, como se uma parte essencial tivesse sido arrancada sem anestesia. Saiu daquele lugar em silêncio, levando consigo o que restava de sua dignidade e deixando para trás a vida que acreditava ter construído. Desde então, Marye se tornara outra pessoa. O amor passou a ser algo perigoso. A confiança, uma fraqueza. E o passado, uma ferida que nunca cicatrizava completamente. Criada sem mãe, Marye aprendera desde cedo que as pessoas podiam ir embora. Sua mãe a abandonara quando ela ainda era um bebê, deixando Fernando, seu pai, sozinho com uma criança nos braços e muitas perguntas sem resposta. Fernando fora tudo para ela. Protetor, presente, amoroso. Ele preenchera, da melhor forma possível, o espaço deixado por aquela ausência inexplicável. Quando Fernando morreu, Marye tinha apenas dez anos. A perda foi devastadora. Foi então que o avô paterno, Carlos, assumiu sua criação oficialmente. Conhecido mundialmente como o homem mais rico do planeta, Carlos ofereceu à neta tudo o que o dinheiro podia comprar — menos calor humano. A única exceção era Sophie, sua avó paterna. Elegante, doce e sensível, Sophie enxergava além das aparências. Era ela quem segurava a mão de Marye nos momentos de silêncio profundo, quem a fazia sentir que ainda havia amor no mundo. Talvez por isso, quando Daniel apareceu em sua vida anos depois, Marye se permitiu acreditar. Contra todas as defesas que construíra, ela se entregou. E perdeu. Agora, quatro anos haviam se passado desde a traição, mas a dor permanecia viva, latente, como uma maré que nunca recuava por completo. Marye havia se tornado uma mulher admirada, respeitada, forte aos olhos do mundo. Envolvera-se nos negócios da família, aprendera a comandar reuniões, a tomar decisões frias, a esconder sentimentos atrás de um sorriso impecável. Mas, sozinha, era apenas uma mulher tentando sobreviver às próprias lembranças. Ela se levantou do sofá e caminhou até a janela. Apoiada no vidro, observou a cidade lá embaixo, sentindo-se estranhamente distante de tudo. Havia conquistado independência, sucesso e reconhecimento. Ainda assim, sentia-se incompleta. — Você não precisava ter sido assim… — murmurou, sem saber a quem se dirigia. Talvez a Daniel. Talvez a Cherie. Talvez à vida. Seu celular vibrou sobre a mesa de centro, quebrando o silêncio pesado do ambiente. Marye olhou para a tela, hesitante. O número era conhecido: o da secretária pessoal do avô. Atendeu. — Senhorita Marye… — a voz do outro lado soava cautelosa. — Há uma mulher aqui insistindo muito em vê-la. Ela diz que precisa falar com você urgentemente. Marye respirou fundo. — Quem é ela? Houve uma breve pausa antes da resposta. — Ela se identificou como sua mãe. O coração de Marye disparou de forma descontrolada. A palavra soava estranha, quase proibida. Sua mãe. A mulher que a abandonara sem olhar para trás. — Diga que não estou disponível — respondeu, tentando manter a voz firme. — Há mais uma coisa… — acrescentou a secretária, hesitante. — Ela não está sozinha. Marye fechou os olhos por um instante. — Com quem ela está? — Com uma mulher chamada… Cherie. O mundo pareceu parar. O passado, que Marye tentara enterrar com tanto esforço, acabava de bater à sua porta. E, naquele instante, ela soube: o silêncio que a protegera por tanto tempo estava prestes a se romper. E, com ele, todas as feridas que ela acreditava ter aprendido a ignorar.






